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Abstenção

Após 43 anos de batalhas vencidas, guerra não chegou ao fim

Amaury abusou no uso do álcool por quase 15 anos e só depois de vários sustos, algumas internações e muitas perdas, ele conseguiu abrir mão da bebida

“Hoje, não me importo de as pessoas beberem perto de mim, porque tenho consciência dos meus limites. Sei que, se beber um copo de cerveja, vai desencadear todo aquele sofrimento novamente. Cheguei à sarjeta moral e não quero aquilo nunca mais para a minha vida.” 
Amaury, funcionário público aposentado | Walter Alves/ Gazeta do Povo
“Hoje, não me importo de as pessoas beberem perto de mim, porque tenho consciência dos meus limites. Sei que, se beber um copo de cerveja, vai desencadear todo aquele sofrimento novamente. Cheguei à sarjeta moral e não quero aquilo nunca mais para a minha vida.” Amaury, funcionário público aposentado (Foto: Walter Alves/ Gazeta do Povo)

No dia em que conversou com a reportagem da Gazeta do Povo, o funcionário público aposentado Amaury* se orgulhava de um feito: naquela quinta-feira de novembro, ele comemorava 43 anos, 2 meses e 11 dias sem ingerir bebidas alcoólicas. "Para quem não conhece minha história, isso pode parecer bobagem, mas, para mim, cada dia sem beber faz diferença e é uma vitória da qual me orgulho muito."

A comemoração tem sentido: Amaury abusou no uso do álcool por quase 15 anos e só depois de vários sustos, algumas internações e muitas perdas, ele conseguiu abrir mão da bebida. "Quase morri e sei que desapontei muitas pessoas queridas. Agora, só posso celebrar o fim daquele sofrimento."

Amaury lembra que a evolução da doença foi rápida. "Comecei a beber aos 17 anos por curiosidade. Logo já estava matando aula para ficar no bar, escondia bebida no guarda-roupas e isso foi aumentando até o ponto em que eu acordava e a primeira coisa que fazia era beber, antes mesmo de escovar os dentes."

Segundo ele, foram alguns anos com períodos de abstinência da bebida e outros com recaídas, inclusive com internações hospitalares. "Prometia a mim mesmo que não ia beber, fazia os tratamentos, mas logo abandonava e recaía. Mesmo assim, negava a doença e ficava bravo de as pessoas me dizerem que eu estava exagerando [na bebida]."

O susto maior veio em um dia em que ele desmaiou enquanto tomava água. "Estava há quatro dias sem beber. Apaguei completamente e me levaram ao hospital. Depois dos exames, o médico me disse que, se continuasse bebendo, eu iria morrer porque tinha cirrose e meu fígado estava muito comprometido. Nem isso me comoveu. Sai de lá e fui direto para o bar."

Virada

Amaury conta que um dia foi marcante em sua recuperação: 1º de setembro de 1968. "Estava vendo tevê e apareceu uma propaganda do Alcóolicos Anônimos (AA) falando sobre uma reunião. No dia 5, data do encontro, me arrumei e estava saindo de casa quando minha mãe perguntou aonde eu iria. Respondi que ia arrumar minha vida."

Foi só na reunião que ele diz ter tomado consciência da gravidade da doença. "Fiquei impressionado como as histórias das outras pessoas eram parecidas com a minha. Não havia pobres e ricos ali. Independentemente da condição financeira, éramos todos iguais em nossa doença. Depois disso, nunca mais bebi."

Segundo ele, mesmo após tanto tempo, ele não se descuida. "Se vejo alguém ingerindo bebida alcóolica, não sinto vontade porque sei que não posso. Mesmo assim, me preocupo. Por um motivo bobo posso ficar triste, buscar o álcool como ‘muleta’ e botar por água abaixo todo o meu esforço nas últimas décadas."

Recomendação

Para quem está passando por uma situação semelhante, Amaury recomenda: o primeiro passo é admitir que tem problemas com álcool e que perdeu o controle da vida. "A pessoa tem de querer ajuda e reconhecer que é impotente contra o álcool. Todos os alcoólatras precisam de ajuda."

*Por causa das normas seguidas pelo Alcóolicos Anônimos, de proteger o sigilo de seus participantes, Amaury não revelou seu sobrenome e pediu que a foto dele fosse tirada na contraluz

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