
Foram cerca de sete meses de exames de sangue, punção, biópsia, ressonância magnética, eletroencefalograma até que os médicos conseguissem diagnosticar a esclerose múltipla do historiador Carlos Eduardo Nava Lançoni, 24 anos. A descoberta da doença aconteceu há 10 anos, quando ele ainda era adolescente e começou a apresentar problemas de fala durante suas férias. Os médicos precisaram descartar várias outras suspeitas de doença que poderiam apresentar o mesmo sintoma até chegar ao diagnóstico correto. Esse procedimento é definido por médicos e especialistas como diagnósticos de exclusão ou diagnóstico diferencial.
E, assim como o historiador, milhares de pessoas precisam se sujeitar a esse protocolo de atendimento para conseguir identificar uma doença.
O diagnóstico de exclusão ocorre, em geral, com doenças que não têm um exame específico que as identifique, de acordo com o cardiologista do Hospital Evangélico Nelson Marcelino. A professora de Clínica Médica Salete Nacif, da Universidade Federal de São Paulo, explica que, em média, 80% das doenças são descobertas pelo histórico clínico e genético do paciente, através da chamada anamnese (entrevista com o paciente). Outras 10% são descobertas por exames físicos nos consultórios e 5% com exames complementares (sangue, fezes, urina ou mesmo ecografias).
Especialidades
Na área da cardiologia, é bastante comum os especialistas pedirem diversos exames, incluindo os mais sofisticados, para excluir a possibilidade de alguma doença rara ou com manifestações clínicas fora do normal. É o caso, por exemplo, de um paciente jovem com dor no peito e baixa probabilidade de ter uma doença nas coronárias. "Ele vai acabar fazendo uma tomografia ou cintilografia do miocárdio ou até mesmo um cateterismo cardíaco para afastar uma possibilidade muito rara de uma obstrução nas artérias coronárias", explica Marcelino.
Na área da neurologia, quase todas as doenças psíquicas só podem ser diagnosticadas pela exclusão. "Não existe um exame que documente o nome da doença. Não há um teste laboratorial inquestionável que identifique a doença de Alzheimer, por exemplo. O método de aproximação diagnóstica é feito por exclusão de outras condições possíveis", explica o neurologista do Hospital Nossa Senhora das Graças Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt. A Academia Brasileira de Neurologia considera o diagnóstico diferencial a conduta clínica mais importante para a confirmação da esclerose múltipla, por exemplo.
Quais são eles
Os principais exames laboratoriais solicitados para afastar doenças comuns são os de sangue, urina, fezes e os de imagem (raio X, ecografia, tomografia e ressonância magnética quando necessário). Mas, em algumas especialidades, como a reumatologia que trata doenças musculoesqueléticas, articulares e reumáticas ou reumatismo , é possível fazer exames complementares específicos como a coleta do líquido sinovial, responsável pela lubrificação de uma articulação específica, conforme explica o reumatologista da Paraná Clínicas Carlos Parchen.
A endocrinologista do Hospital das Nações Sheyla Alonso afirma que não existem exames que englobem tudo e que cada caso exige uma análise prévia das hipóteses diagnósticas. "Principalmente na endocrinologia, que engloba doenças de vários órgãos do corpo, os exames necessários dependem muito de cada suspeita e do quadro clínico do paciente", esclarece.
Para melhor explicar um diagnóstico de exclusão, Parchen dá o exemplo de uma paciente que se queixa de uma dor corporal difusa e de longa data. O exame físico não revela sinais inflamatórios evidentes e os complementares solicitados são normais. "O diagnóstico mais provável é fibromialgia. Note que o diagnóstico não foi feito através dos exames complementares, mas sim por exclusão, baseado na anamnese e no exame físico da paciente", comenta.
Os exames complementares são a garantia dos médicos e do paciente de que o diagnóstico presumido é correto. Sheyla faz ainda um alerta sobre isso. "Na Medicina, nada é completamente certo. Podem ocorrer novas descobertas que alterem o diagnóstico, principalmente quando pesquisas apontam causas identificáveis para doenças que antes não eram conhecidas."



