
Pacientes com doenças renais têm mais chance de sofrer complicações por doenças cardiovasculares do que perder a função renal a ponto de precisar fazer hemodiálise. É o que demonstram pesquisas feitas pelo Grupo de Medicina Renal da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Um estudo publicado em parceria com o professor Richard Glassock, da Universidade da Califórnia (EUA), na revista Clinical Journal of the American Society of Nephrology, sugere que um melhor cuidado com os fatores de risco da doença dos rins pode impactar na redução da mortalidade cardiovascular nestes pacientes.
Segundo o coordenador da pesquisa, o nefrologista Roberto Pecoits Filho, os problemas cardiovasculares são a principal causa de morte nessa população. Mesmo assim, os fatores de risco não são avaliados nos exames de rotina desses pacientes, diz o médico. "Observamos que mesmo pacientes com um déficit pequeno na função renal já têm um risco aumentado para eventos cardiovasculares", afirma.
Foram avaliados para o estudo pacientes com doença renal, sem nenhum problema aparente, que estão em tratamento nos hospitais da Aliança Saúde PUC-PR Santa Casa. Foram feitos exames de ecocardiograma e os resultados mostraram que 75% apresentavam disfunções cardíacas, especialmente alterações do relaxamento do coração, problema que estaria ligado à fibrose intensa no músculo cardíaco.
Segundo Pecoits Filho, o acúmulo de toxinas que deveriam ser eliminadas pelos rins leva a uma resposta inflamatória no organismo ocasionando um processo fibrótico. Da mesma forma, a perda da função renal ocasiona o acúmulo de fósforo no organismo, que, por sua vez, causa a calcificação dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de problemas como enfarte.
Exames de ultrassom intracoronariano mostraram que essa população apresentava depósitos intensos de cálcio e placas de colesterol em volumes superiores ao encontrado em pacientes com doença coronária sem alteração de função renal. Para o nefrologista, as alterações apontam para a necessidade de investigação e tratamento distintos da doença coronária em pacientes renais.
Enfarte e diálise
A aposentada Iraci Curi é um exemplo de como os problemas nos rins e no coração estão interligados. Aos 78 anos ela sofreu o primeiro enfarte. Na ocasião, há 11 anos, a aposentada passou por uma cirurgia para a colocação de dois stents. Dois anos mais tarde, outro procedimento para a colocação de um terceiro stent. Em 2007, um cateterismo mostrou que Iraci tinha 85% de obstrução em algumas artérias. Embora os exames mostrassem alto risco para complicações cardiovasculares, ela não imaginava que a origem do problema pudesse vir dos rins. Hoje, aos 88 anos ela tem os rins bastante comprometidos e precisa fazer sessões de hemodiálise três vezes por semana durante três horas.
Anemia
Estudos também detectaram a prevalência de anemia entre pacientes com doença renal. O acompanhamento de 2.200 pacientes em diálise de 104 clínicas do Brasil, durante dois anos e meio, mostrou que 40% deles apresentavam níveis de hemoglobina abaixo do recomendado.
De acordo com Pecoits Filho, a perda da função renal compromete a produção de um hormônio chamado eritropoetina, relacionado à produção de glóbulos vermelhos. "A anemia é um complicador porque leva a uma falta de oxigenação dos tecidos, incluindo o coração", explica.
Vitamina D
Pesquisadores da PUCPR detectaram um alto índice de deficiência de vitamina D em pacientes com insuficiência renal. O estudo avaliou 40 pacientes em tratamento de hemodiálise no Instituto do Rim da Santa Casa de Curitiba. Destes, 67% possuíam deficiência de vitamina D, que está presente em peixes, ovos e cereais fortificados e também pode ser obtida por meio da exposição da pele ao sol. A pesquisa detectou ainda que, entre os pacientes que possuíam déficit da vitamina, a presença de alterações cardíacas era duas vezes maior.



