
Ponta Grossa - O recém-nascido surdo não apresenta nenhum tipo de sintoma. Até 2001, quando o teste da orelhinha era feito apenas em consultórios particulares, a maioria dos pais só descobria que o seu filho não ouvia quando ele já estava grande e ainda não conseguia falar. Com a inclusão do teste na tabela de serviços pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), algumas maternidades e prefeituras começaram a aderir ao exame. A partir daí, no Brasil, o número de bebês examinados cresceu 46% de 2008 para 2009. No Paraná, o salto foi de 171% devido à regulamentação da lei estadual que prevê o procedimento. No início deste mês entrou em vigor uma lei federal que exige o teste da orelhinha em todos os estabelecimentos de saúde, mas, como ela ainda não foi regulamentada, a implantação efetiva gera dúvidas em médicos da área.
Legislação
A maternidade deverá dispor do equipamento e de um profissional habilitado para examinar o ouvido dos bebês. O equipamento custa em torno de R$ 30 mil e, sem a regulamentação, não é possível saber quem irá bancar o material. A lei estadual em vigor no Paraná desde 2004, mas regulamentada apenas em 2009, estipula que os custos do exame são de responsabilidade de quem fez o parto, ou seja, se a mãe deu à luz na rede pública, é o SUS quem paga o procedimento. Se a família tem convênio de saúde, é a operadora quem custeia o teste, no entanto, segundo o presidente da Associação dos Hospitais do Paraná, Benno Kreisel, nem todas as operadoras de saúde pagam o procedimento.
A eficácia do exame também depende da conscientização dos pais. Segundo o otorrinolaringologista pediatra do Hospital Pequeno Príncipe, Lauro João Lobo Alcântara, o ideal é que o teste da orelhinha seja realizado antes da alta do bebê, mas, em muitos casos, o exame é deixado para mais tarde. "Muitos pais não levam os bebês para fazer o exame. Acham que ele não tem importância", explica a fonoaudióloga de Ponta Grossa, Denise Ienk. Por causa disso, conta Carolina Funchal de Faria, fonoaudióloga de um centro de referência em triagem auditiva em Foz do Iguaçu, foi necessário fazer campanhas para incentivar as mães da fronteira a fazer o exame e as confirmações.
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Em 2008, das 2,7 milhões de crianças nascidas, de acordo com o indicador de registro de nascimento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em todo o país, 183,7 mil fizeram o teste da orelhinha, o que representa um atendimento de apenas 6%. No ano seguinte, o número de exames passou para 267,9 mil, o que representou um crescimento de 46%. No Paraná, no mesmo período, a quantidade de crianças examinadas aumentou de 4,6 mil para 12,7 mil, enquanto que o número de nascimentos é de cerca de 150 mil bebês por ano. "Ainda não é o ideal, pois gostaríamos de fazer em todos os bebês", fala o superintendente de Gestão de Sistema em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde, Irvando Carulla.
Kreisel, da Associação dos Hospitais, acredita que o ideal seria que o teste da orelhinha fosse realizado somente em crianças de grupos de risco, como prematuros, para equilibrar as despesas do SUS. "O país já tem tanta dificuldade de receita que eu acho que talvez fosse melhor fazer o teste nas crianças de alto risco", aponta. Para pais que têm filhos surdos, a lei surge como uma promessa de tratamento nos primeiros meses de vida e a consequente reabilitação, já que a cura não existe. "Perdemos dois anos de tratamento", afirma Estacho Douhei, pai de Natascha, que fez implante coclear (ouvido biônico) aos três anos de idade. "Foi ótimo. Assim, os pais estarão mais bem orientados", afirma Janete Trindade do Vale, presidente da Associação Paranaense de Implante Coclear.



