Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Metabolismo

Gordura no fígado não atinge só obesos e diabéticos

A esteatose hepática pode resultar dos maus hábitos alimentares e do sedentarismo também em pessoas fora do grupo de risco

João Moreira descobriu que tinha alto índice de gordura no fígado , passou por transplante e agora toma diversos remédios | Hugo Harada/ Gazeta do Povo
João Moreira descobriu que tinha alto índice de gordura no fígado , passou por transplante e agora toma diversos remédios (Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo)

Ter gordura no fígado não é uma exclusividade de diabéticos e obesos, os dois principais grupos de risco. Hoje pacientes sem aparente problema de saúde também já apresentam a alteração metabólica. Ela é conhecida como degeneração gordurosa do fígado e se caracteriza pelo acúmulo de lipídios e triglicerídios (gordura) no interior das células hepáticas (as células do fígado).

Ainda que o distúrbio seja mais comum em adultos, sobretudo após os 40 anos, a prevalência alta em adolescentes começa a chamar a atenção dos médicos. Metade dos 300 jovens de 15 a 19 anos analisados em 2009 pelo Grupo de Estudos da Obesidade da Unifesp apresentava esteatose. A culpa, segundo médicos e especialistas, é dos maus hábitos alimentares e do sedentarismo.

Segundo o professor de cirurgia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e cirurgião de transplante de fígado do Hospital Pequeno Príncipe e do Hospital São Vicente Júlio César Wieder­kehr, de 20% a 40% da população dos países industrializados e em desenvolvimento apresenta esse quadro clínico, conforme estimativa de pesquisas recentes. O médico explica que a falta de exercícios físicos somada a hábitos alimentares ruins – como dietas ricas em carboidratos simples (arroz, pão branco, batata) e alimentos processados – são os principais responsáveis pelo aumento de casos de gordura no fígado em pessoas que não fazem parte do grupo de risco, mas que estão com sobrepeso, ou seja, com o Índice de Massa Corporal (IMC) alto.

Síndrome

Por si só, o acúmulo de gordura no fígado não é considerado uma doença, mas um sinal de que algo não vai bem no organismo. Geralmente, a esteatose hepática está relacionada a um quadro clínico conhecido como Síndro­me Metabólica – caracterizada pelas gordurinhas na região abdominal, nível de triglicerí­deos alto, baixo colesterol HDL, pressão arterial alta ou alto nível glicose no sangue em jejum – que dificulta o metabolismo da gordura pelo órgão. Sem processsar a gordura, o fígado desenvolve fibrose até o momento em que para de funcionar.

De acordo com Wiederkehr, o indivíduo pode viver anos sem que o excesso de gordura atrapalhe o funcionamento do fígado e sem manifestação de qualquer sintoma. "O problema é que, ao longo dos anos, o acúmulo de gordura pode causar inflamações no órgão, se transformar em cirrose ou até mesmo em um câncer", afirma. De acordo com a estimativa da Sociedade Bra­sileira de Hepatologia (SBH), cerca de 20% da população do Brasil tem gordura excessiva no fígado, considerada uma das principais causas de cirrose no país e que, se não for tratada, po­­de le­­var à necessidade de transplante do órgão. A SBH planeja para este ano criar um Dia Nacional de Combate à Esteatose, em parceria com outras sociedades e associações que lidam com pa­­cientes que têm a doença, como a Sociedade Brasileira de Cardio­­logia.

Transplante

Como o problema é silencioso, sem sintomas, o alto índice de gordura no fígado só é descoberto quando ele começa a comprometer o órgão e a afetar outras partes. Esse foi o caso de João Batista Morei­ra, 57 anos. "Só descobri quando minha vesícula já estava com varizes e comecei a vomitar sangue", lembra. Por cinco anos, Moreira tentou re­­mediar sua condição pela readequação alimentar. "Eu já não comia muita coisa por causa do diabete e minhas refeições ficaram ainda mais limitadas", conta. Mesmo com a dieta, ele não conseguiu se recuperar e entrou para a fila de transplantes em maio do ano passado, quando seu fígado parou de funcionar. Seis meses depois da cirurgia, Moreira sente-se bem com o novo órgão, mas continua sendo acompanhado pela equipe do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.

Apesar da seriedade do caso de Moreira, o cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Nossa Senhora das Graças Júlio César Coelho afirma que não há motivo para pânico para quem tem diagnosticado gordura no fígado. "Quem está com os índices de triglicerídios e lipídios alterados tem mais chance de desenvolver o problema, mas não significa que isso vá acontecer. Trata-se de uma predisposição. Nesses casos basta cuidar da alimentação e fa­­zer exercícios físicos", diz.

Para prevenir

Como prevenção, o gastroenterologista e cirurgião do Hospital Vita Batel João Henrique Felício de Lima sugere que pessoas com altas taxas de gordura corporal incluam em seu check-up anual exames de ecografia abdominal ou ainda exames de sangue para testar os índices das enzimas hepáticas.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.