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Descoberta Científica

Novo tratamento para AVC usa biomaterial para estimular reparação do cérebro após lesão

Depois de um AVC, o cérebro pode reorganizar circuitos preservados, mas o tecido perdido não é simplesmente recuperado.
Depois de um AVC, o cérebro pode reorganizar circuitos preservados, mas o tecido perdido não é simplesmente recuperado. (Foto: Vitaly Gariev/Unsplash)

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Um novo tratamento para AVC desenvolvido por pesquisadores da Duke University, nos Estados Unidos, conseguiu criar condições para que um cérebro lesionado se torne mais favorável à reparação. Em testes com camundongos, um biomaterial injetável aplicado na região atingida estimulou a formação de novos vasos sanguíneos, favoreceu o crescimento de fibras nervosas e melhorou a capacidade de movimento dos animais.

A descoberta tenta enfrentar um dos principais desafios deixados por um acidente vascular cerebral: o tecido nervoso que morreu não é simplesmente recuperado quando o fluxo sanguíneo volta ao normal.

Segundo o neurologista Philipe Cunha, professor de pós-graduação da Afya Educação Médica de Curitiba, no AVC isquêmico um coágulo ou trombo interrompe a chegada de oxigênio e glicose a uma parte do cérebro. Sem energia, os neurônios podem morrer.

“Quando há morte neuronal e perda de axônios, oligodendrócitos e vasos, forma-se uma cavidade gliótica; essa região não se regenera sozinha porque o ambiente pós-AVC é inibitório”, explica. É justamente esse espaço que a pesquisa tenta tornar mais favorável à recuperação.

Como funciona o tratamento para AVC?

A estratégia utiliza o MAPS, uma estrutura formada por micropartículas de hidrogel que se organizam em um suporte poroso. Os pesquisadores combinaram o biomaterial com vesículas extracelulares produzidas por astrócitos, que carregam sinais capazes de influenciar outras células. Presas às micropartículas, essas vesículas mantêm os sinais concentrados na região lesionada.

Uma combinação de moléculas, IL-4 e C1q, mostrou-se eficiente para atrair células do sistema imunológico, entre elas macrófagos e uma população de neutrófilos que permaneceu no local por mais tempo do que o esperado.

Na pesquisa, os neutrófilos parecem ter assumido uma função reparadora quando chegaram posteriormente e encontraram os sinais adequados. Quando essa população foi reduzida, caiu a formação de vasos sanguíneos e a remodelação do biomaterial.

Cérebro tem capacidade de recuperação

O cérebro adulto mantém capacidade de reorganizar circuitos que sobreviveram à lesão. Essa capacidade é chamada de plasticidade cerebral.

Segundo Cunha, a maior parte da recuperação espontânea ocorre nas primeiras semanas e até cerca de três meses após o AVC, quando existe uma janela maior de plasticidade.

Depois disso, a recuperação continua possível, mas tende a ser mais lenta e depende de treinamento intenso e específico.

Em vez de simplesmente substituir o tecido perdido, a proposta é estimular o próprio organismo a participar do processo de reparação.Em vez de simplesmente substituir o tecido perdido, a proposta é estimular o próprio organismo a participar do processo de reparação. (Foto: Ecliptic Graphic/Unsplash)

“Idade, comorbidades e reserva cognitiva influenciam a plasticidade e a resposta à reabilitação”, afirma o neurologista. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional são fundamentais para aproveitar essa capacidade de reorganização, inclusive em fases tardias.

Pesquisa sobre AVC ainda está longe dos pacientes

Nos experimentos, o biomaterial foi aplicado diretamente na cavidade formada pela perda de tecido cerebral. Os animais tratados apresentaram mais vasos sanguíneos e fibras axonais na região.

Em um teste de caminhada sobre uma grade, os camundongos tratados cometeram menos erros na colocação das patas dianteiras. Após oito semanas, o desempenho não apresentou diferença estatística em relação ao grupo saudável.

Outro achado importante foi que as vesículas extracelulares, quando administradas sem o suporte de MAPS, não produziram reparação vascular comparável.

Isso indica que o biomaterial não funciona apenas como veículo: sua estrutura porosa e a capacidade de manter os sinais concentrados na área lesionada parecem ser parte essencial do mecanismo.

Apesar dos resultados, a descoberta ainda não representa um tratamento para AVC disponível. O estudo é pré-clínico e foi realizado em camundongos, com a injeção diretamente no local da lesão. Antes de testes em humanos, serão necessários estudos para avaliar segurança, eficácia, momento ideal de aplicação e comportamento da terapia em modelos maiores.

Para Cunha, uma futura terapia regenerativa não deverá substituir a reabilitação. “A reabilitação será essencial para guiar o crescimento de axônios e a formação de circuitos funcionais”, afirma.

A pesquisa não significa que o cérebro possa simplesmente ser “reconstruído” depois de um AVC. O objetivo é modificar o ambiente deixado pela lesão para permitir que vasos, células imunes e estruturas nervosas participem de uma reparação mais organizada.

Se os resultados forem confirmados, a abordagem poderá abrir uma nova frente para recuperar funções perdidas.

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