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Ciência

Ovário tem células-tronco

Novidade pode revolucionar a área de reprodução humana, mas ainda é preciso cautela. É necessário mais pesquisa para transformar achado em melhoria da saúde

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Publicada no fim do mês passado na edição on-line da revista científica Nature Medicine, uma pesquisa liderada pelo biólogo americano e professor de Harvard Jonathan Tilly revelou ter identificado que 0,014% das células dos ovários das mulheres são células-tronco. Uma das conclusões do estudo é que, trabalhadas em laboratório, essas células poderiam gerar novos óvulos, aumentando as chances de gravidez em mulheres com alguns tipos de infertilidade ou naquelas que já passaram dos 40 anos.

Para os especialistas, se confirmada, a novidade tem tudo para revolucionar a medicina reprodutiva. Mas, segundo eles, a descoberta ainda precisa ser vista com muita calma. "Nenhum outro estudo conseguiu trazer esse avanço até hoje, mas é preciso cautela, já que só o tempo e novas pesquisas serão capazes de confirmar se esse achado vai se transformar em melhoria da saúde", comenta o professor doutor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e diretor do Feliccità Instituto de Fertilidade, Álvaro Pigatto Ceschin.

Ele explica que o primeiro passo deve ser confirmar como encontrar essas células específicas dentro dos ovários sem danificá-las. Depois, vem o desafio de desenvolver uma técnica para cultivá-las e deixá-las maduras e com qualidade suficiente para a fecundação. "Com isso, é preciso criar um jeito de resolver o grande mistério: será que, com essas células, será possível criar óvulos preparados para gerar embriões saudáveis, sem alterações cromossômicas, e que eles rendam bebês igualmente saudáveis?", questiona.

Por isso, a recomendação para as mulheres que pensam em aproveitar essa novidade para engravidar mais tarde é não se apegar somente a essa pesquisa. "Os ‘modismos’ são perigosos, porque nem sempre as novidades se provam verdadeiras. Em vez de apostar em uma investigação dessas, o melhor para as mulheres perto dos 40 anos, que pensam em ter filhos, é se prevenir e congelar seus óvulos", recomenda o diretor do serviço de reprodução humana da Maternidade Curitiba e professor da Faculdade Evangélica do Paraná, Ricardo Beck.

Organismo

Um dos problemas em confiar nessa tecnologia é que, mesmo que as células-tronco possam ser usadas para produzir novos óvulos em mulheres de mais de 45 ou 50 anos, o corpo dessas pacientes já não tem estrutura para manter uma gravidez.

"Uma mulher de 50 anos, por exemplo, pode ter seu útero preparado para receber um embrião, mas tem risco aumentado para desenvolver varizes, aneurismas, trombose, pré-eclâmpsia, problemas cardíacos, pulmonares, cardiovasculares, diabete e hipertensão. Então de que adianta protelar a gestação se isso vai comprometer a saúde da mãe e ameaçar o bebê?", questiona Beck.

Expectativa

Outra expectativa é que o uso dessas células-tronco possa retardar a menopausa e desacelerar o relógio biológico feminino. Ceschin compara essa possibilidade à técnica de congelamento de tecido ovariano, quando se retira parte do tecido ovariano, congela e transplanta após algum tempo. "Quando se faz isso em uma mulher na me­­nopausa, ela volta a ter pa­­drão hormonal normal. Ainda é uma técnica limitada, mas não deixa de ser uma possibilidade."

Quanto às técnicas de reprodução assistida, por enquanto, a pesquisa não muda os métodos vigentes, já que atualmente são usados óvulos maduros nos processos de reprodução. "Como as células-tronco são estruturas muito imaturas, isso exige muita pesquisa até que se chegue a uma forma de utilizá-las."

Descoberta deve derrubar dogma

Caso os resultados da pesquisa americana sejam confirmados, um dos principais dogmas da medicina reprodutiva deve cair por terra: até hoje, acreditava-se que todas as mulheres eram incapazes de produzir óvulos novos e já nasceriam com seu "estoque" completo.

Atualmente, o que se sabe é que a mulher nasce com cerca de 1 milhão de óvulos. Até a adolescência, ela perde dois terços disso e passa a contar com apenas 400 a 300 mil. E, desses, somente 300 devem ser utilizados até o fim da vida. "Em cada ciclo menstrual, cerca de 14 folículos são desenvolvidos, mas o próprio organismo escolhe o melhor e somente ele é ovulado", diz o médico ginecologista Ricardo Beck.

Com isso, a mulher vai "gastando" um número grande de óvulos ao longo da vida e eles não são repostos. "Sabemos que cada óvulo começa sua meiose [divisão celular] enquanto a menina está dentro do útero da mãe e esse processo fica parado e só se completa momentos antes de ele ser liberado na ovulação", explica o professor doutor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná Álvaro Pigatto Ceschin.

É justamente por isso que os médicos recomendam que a mulher engravide antes dos 35 anos de idade. "Com o passar dos anos, como os óvulos não se renovam, a qualidade do material vai diminuindo. É diferente do que acontece com os homens. Uma mulher de 40 anos, por exemplo, têm óvulos de 40 anos, enquanto um homem da mesma idade tem espermatozoides de cerca de 65 a 80 dias, já que os gametas masculinos estão sendo constantemente produzidos."

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