
Estimativas da Fundação Pró-Renal Brasil apontam que, no país, 12 milhões de pessoas sofrem com doenças renais crônicas. O número é expressivo e justificado. De acordo com o médico nefrologista João Egídio Romão Junior, professor da Universidade de São Paulo (USP), 20% da população brasileira tem hipertensão arterial que, com a diabete, é uma das principais causas da insuficiência renal. Segundo ele, o Brasil tem 10 milhões de diabéticos, e as duas enfermidades juntas representam dois terços dos casos de doença renal crônica no país.
O processo de perda da filtração dos rins é lento e assintomático, somente quando se perde entre 75% e 80% da função do órgão surgem indícios de que algo está errado. Nestes casos, diálise ou transplante são as duas únicas formas de tratamento e, ainda assim, paliativas. O médico nefrologista Miguel Carlos Riella (foto), criador da Fundação Pró-Renal Brasil, afirma que o diagnóstico precoce é fundamental e feito por dois exames: o de urina e a dosagem de creatinina. A seguir, ele explica quais são os grupos de risco, como evitar a doença e por que os rins são tão importantes para o funcionamento geral do organismo.
Qual é o papel dos rins?
Filtrar as toxinas do corpo provenientes do metabolismo dos alimentos, eliminando estas impurezas na urina. Mas eles também têm função endócrina, produzindo hormônios como a eritropoetina responsável pela fabricação do sangue, daí a relação entre a anemia e as doenças renais e a renina, que controla a pressão arterial. Aliás, a origem da pressão alta sempre está no rim. Pacientes com insuficiência destes órgãos têm maior propensão a sofrer doenças cardiovasculares.
Isso não é muito difundido, por quê?
Porque historicamente quem cuida de pressão alta são os cardiologistas, já que ela prejudica diretamente o coração. Mas depois se verificou que o controle fino da pressão arterial é todo feito por hormônios produzidos pelo rim. Quem tem doença crônica dos rins pode ter aumento da pressão arterial e esta também pode lesar o próprio rim.
Significa que hipertensos poderiam ser considerados um grupo de risco?
Sim. No Brasil, 30% dos casos de insuficiência renal são decorrentes de pressão alta. Outro grupo igualmente sujeito a doenças renais são os diabéticos do tipo 2. Em seguida vêm as pessoas com histórico de doença renal ou cardiovascular na família, obesos, idosos, pessoas com nefrites e rins policísticos. Em países escandinavos e nos Estados Unidos, mais de metade dos casos é decorrente de diabetes.
Quando a insuficiência renal é considerada crônica?
Se o paciente tem diminuição da função renal e alterações urinárias persistentes por pelo menos três meses, isso é crônico. Então, classificamos a doença em cinco fases, de acordo com a taxa de filtração do rim e a presença de proteínas na urina. Quando essa taxa varia de 60% a 90%, já é um sinal de alerta. Entretanto, é comum idosos apresentarem de 30% a 60% da filtração, e isso não quer necessariamente dizer que possuam insuficiência, porque a perda da função renal é decorrente do envelhecimento. A menos que seja verificada a presença de proteína na urina desta pessoa.
Se consideramos a pressão alta o principal fator de risco, o sal seria o maior vilão da doença renal?
A maioria dos hipertensos não tem sua pressão controlada e um dos principais fatores é o consumo excessivo do sal. Ele é incompatível com a dieta do hipertenso porque faz retenção de água de modo intravascular. Aumentando o volume de líquido nas artérias, haverá maior pressão arterial e as paredes das artérias se tornarão mais sensíveis. O sal precisa ser reduzido drasticamente porque é considerado uma toxina para quem tem pressão alta.
E como fazer isso?
Em casa, o ideal é cozinhar sem nenhum sal, porque a maioria dos alimentos naturalmente já tem sal. Em último caso, é melhor acrescentá-lo no prato do que pedir que a cozinheira reduza sua quantia, porque não se pode saber o que é uma redução de sal. Quando for comer fora, evite embutidos e molhos, que são sempre salgados. A pessoa deve aprender a usar outros temperos, como limão e orégano, minimizando a falta do sal. Mas, no verão, quando suamos mais e perdemos sais, não há problema em consumir uma porção maior.
Como prevenir as doenças crônicas?
Fazendo o diagnóstico precoce por dois exames, o de urina e a dosagem de creatinina plasmática, através da coleta de sangue. A urina é produto do rim, é ela que irá mostrar se há sangue, células inflamatórias, fósforo e proteínas substâncias que normalmente ali não encontramos. Já o exame da creatinina irá dizer se o rim está filtrando o sangue adequadamente. A creatinina, produto da massa muscular, é totalmente filtrada pelo rim. Quando aumenta sua quantidade no sangue, significa que a filtração renal está comprometida. Esses exames são rápidos, baratos e eficazes.
Por que ainda é alto o número de pessoas com rins comprometidos?
O exame de urina comum detecta apenas quantidades maiores de proteína, ou seja, quando o paciente já está em estágio avançado da doença. Para se ter uma documentação precisa é recomendado o exame de microminúria, que identifica quantidades mínimas da substância, e um dos problemas é que ele não é um exame de rotina. O outro é a interpretação correta do exame de creatinina por parte do médico, considerando gênero, idade e massa muscular do indivíduo. É nossa função informar a comunidade para que ela cobre do seu médico o exame de creatinina, especialmente entre os grupos de risco.



