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Tagliaferro denuncia “documentos fantasmas” e diz que Moraes “tem medo”

(Foto: YouTube / Gazeta do Povo)

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Eduardo Tagliaferro, ex-perito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ex-assessor de Alexandre de Moraes, está no centro de um processo de extradição na Itália após se tornar alvo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Agora, sua defesa questiona a documentação utilizada para pedir sua prisão e extradição.

Uma reportagem do site A Investigação, do jornalista David Ágape, revelou que o mandado de prisão usado no pedido de extradição de Tagliaferro não aparece no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP) nem na cronologia certificada pelo STF. A apuração também apontou que a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) que teria fundamentado a prisão não consta na cronologia do processo.

Diante das inconsistências apontadas pela reportagem, os advogados de Tagliaferro levaram o caso ao Ministério da Justiça. A defesa pede a preservação dos arquivos originais e dos registros digitais relacionados à ordem de prisão, além da reconstrução do caminho percorrido pelos documentos até a Corte de Apelação de Catanzaro, na Itália.

A defesa ressalva que a ausência dos documentos na cronologia, isoladamente, não comprova que eles sejam falsos ou inexistentes. Eles poderiam ter sido armazenados sob sigilo, em outro sistema ou por outro canal. O que os advogados questionam é onde, quando e como essas peças foram produzidas, assinadas e registradas — e se os documentos enviados à Itália correspondem aos originais.

Segundo Tagliaferro, porém, as buscas realizadas pela defesa reforçam as dúvidas. Ele afirma que procura o mandado desde que a ordem de prisão teria sido determinada e que o documento nunca apareceu nos sistemas oficiais. Também sustenta que a manifestação da PGR citada por Moraes na decisão não consta nos sistemas consultados.

Em entrevista à Entrelinhas, Tagliaferro fala sobre as inconsistências que, segundo ele, foram encontradas nos documentos, a atuação de sua defesa, o processo de extradição na Itália e sua experiência trabalhando diretamente com Alexandre de Moraes.

Entrelinhas: Como seria possível existir uma ordem de prisão contra o senhor sem que ela apareça nesses sistemas?

Tagliaferro: A gente estava analisando o processo de extradição, bem como o processo todo no Brasil. Em uma consulta que eu fiz, não vou dizer onde, para não prejudicar as pessoas, descobrimos que não existe uma ordem de prisão ativa dentro de sistemas. Isso me chamou muito a atenção. Se existe uma ordem de prisão emitida pelo Supremo Tribunal Federal, óbvio que ela estaria disponibilizada em todos os Estados, para todas as polícias, para que eu, na rua, ou em algum lugar, ou no aeroporto, fosse detido assim que me encontrassem. Isso não existe.

Entrelinhas: Além do mandado, a defesa também não encontrou a manifestação da PGR mencionada na decisão de Moraes?

Tagliaferro: O interessante é que, dentro do próprio sistema, a gente puxou já todos os blocos de sistema, todas as movimentações, tanto do Supremo Tribunal Federal quanto da Procuradoria-Geral da República. Não tem manifestação da PGR. Inclusive, a manifestação que o Moraes coloca no trecho do pedido de prisão que veio aqui para a Itália, ela não existe. Não existe essa manifestação na Procuradoria-Geral da República.

Entrelinhas: O que isso leva o senhor e sua defesa a concluir?

Tagliaferro: Mostra que, provavelmente, é um documento que foi feito somente para ser usado aqui na Itália. Ou está em sigilo absoluto, que nem os advogados da defesa conseguem acessar.

“O silêncio não vai resolver o problema”

Entrelinhas: O senhor sente que, à medida que novos fatos vêm à tona, isso também aumenta sua proteção, especialmente estando fora do Brasil?

Tagliaferro: Cada vez que vem à tona uma notícia como essa, de certa forma pode me proteger ainda mais, principalmente no exterior. O que eu sempre falo, o que eu indico a todos, é não ficarem calados. Porque você ficar calado, quando está passando por uma situação como eu estou passando, você dá mais poder para o cara e fica mais vulnerável.

Entrelinhas: O senhor acredita que a exposição pública dos casos envolvendo Moraes pode ter impacto também sobre outros brasileiros que se consideram perseguidos?

Tagliaferro: Todos aqueles que hoje são alvos de Alexandre de Moraes têm que ficar na mídia, têm que denunciar, têm que ir para cima. Porque é uma forma, inclusive, de você se manter vivo.

“Ele deveria estar afastado”

Entrelinhas: Sobre s episódios envolvendo o senhor e Filipe Martins, qual é, na sua avaliação, o impacto desses casos para Alexandre de Moraes? Isso poderia fortalecer um eventual pedido de impeachment?

Tagliaferro: São coisas extremamente graves. Ele já, no mínimo, deveria estar afastado de tudo isso. Ele não poderia nem estar mais trabalhando no Supremo Tribunal Federal, deveria estar afastado.

Entrelinhas: Existe uma relação de dependência entre parlamentares e o Supremo?

Tagliaferro: Muitos parlamentares têm processo no Supremo Tribunal Federal. E o que acontece? O medo maior de um candidato, de um parlamentar, é a inelegibilidade, de ficar oito anos sem poder concorrer.

Então, o que eles estão fazendo? Moraes vai lá de um lado, ameaça de tocar processos. E, do outro lado, eles ameaçam o impeachment. Então fica tudo por ali, tudo em pizza, como diz o povo.

Nem o Supremo Tribunal Federal pega esses parlamentares que têm coisa errada, nem os parlamentares tocam o impeachment de Alexandre de Moraes.

E quem pagou essa conta é o povo, é a pessoa que está sendo julgada no Supremo Tribunal Federal, é o país, é a imagem do Brasil no mundo, é a imagem do Judiciário no mundo.

“O 8 de janeiro, para ele, não significa nada”

Entrelinhas: O senhor trabalhou próximo de Alexandre de Moraes. Quanto da questão pessoal dele está presente na narrativa construída em torno do 8 de janeiro?

Tagliaferro: Ele não está preocupado com o patrimônio público. Ele usou a ferramenta 8 de janeiro para poder pressionar mais, para poder denegrir mais a imagem da direita.

Então ele usou, midiaticamente, com sentenças, com barulho, o 8 de janeiro para reforçar a condenação de Jair Bolsonaro. É assim que funciona o 8 de janeiro para ele.

“Ele comemorou, sim”

Entrelinhas: O senhor já mencionou um episódio sobre o comportamento de Alexandre de Moraes durante o primeiro turno das eleições de 2022. O que o senhor testemunhou?

Tagliaferro: Isso é um absurdo. Tanto a aliança dele com o Lula quanto a comemoração dele no Tribunal Superior Eleitoral é ridícula, é esdrúxula. Mas, de fato, ele comemorou, sim.

Não falou a palavra “Lula foi para o segundo turno”, mas a gente sabia. E fica claro, pela perseguição que ele tinha dentro do gabinete, que ele pedia só de direita, nunca um personagem de esquerda.

Que ele me traga, que ele seja homem, e me traga um único personagem de esquerda que ele perseguiu e que condenou no período em que estava dentro do gabinete. Um único, não precisa mais que um.

Entrelinhas: O senhor ouviu isso de alguém que trabalhava diretamente com ele?

Tagliaferro: Eu ouvi da boca de servidor do gabinete dele do STF: “Agora o chefe está tranquilo”.

Tanto que aquela foto divulgada, que estou eu e ele ao lado, foi no primeiro turno. Era uma hora da manhã, quando foi anunciado o resultado das eleições. Um pouquinho antes, ele estava totalmente abalado, nervoso, tenso.

A gente via que ele tinha receio de que Lula não fosse para o segundo turno. A partir do momento que ele teve a certeza do resultado das eleições, ele sorria. Ele desfilava por gabinetes, tirava foto com todo mundo.

Entrelinhas: O que estava acontecendo, na sua opinião, naquele momento?

Tagliaferro: O medo dele era que Jair ganhasse no primeiro turno. E, assim, Jair poderia ter ganhado. A diferença foi pequena.

Eu sei que tinha um gabinete no andar de baixo, não me recordo de qual ministro, que tinha aquelas champanhes caríssimas em comemoração ao Lula ir para o segundo turno.

“Ele tem medo”

Entrelinhas: Considerando a proximidade que o senhor teve com Alexandre de Moraes, o senhor acredita que ele está incomodado com a possibilidade de novas sanções internacionais?

Tagliaferro: Apesar de ele saber que tem o poder e que esse sistema é muito forte, ele tem medo. Eu presenciei no TSE uma pessoa dura, agressiva, como se fosse uma cobra, mas você via que, por dentro, era uma pessoa com medo do que poderia não dar certo. Eu sei que, no fundo, ele tem muito medo, mas ele tem muito mais coragem que medo. E é isso que faz a pessoa se tornar vitoriosa.

Mas ele sabe que, um dia, mais cedo ou mais tarde, vai pagar por tudo isso que está fazendo. Pode não ser agora, pode ser depois, mas a justiça não vai falhar.

Um dia vai acontecer e vai ser um dia histórico para todo o mundo.

“Zero Medo”

Entrelinhas: O senhor acabou de publicar um livro. Para quem ainda não conhece a obra, o que o leitor vai encontrar em Zero Medo?

Tagliaferro: O livro se chama Zero Medo. As pessoas podem encontrar no www.zeromedo.com.

Eu conto a história de tudo, desde o dia que eu entrei, que fui nomeado, que entrei no TSE, como foi o trabalho lá dentro, como foi minha saída, como foram as denúncias. Eu trago tudo.

Entrelinhas: O senhor também reuniu documentos?

Tagliaferro: Eu trago documentos que comprovam as coisas erradas que Moraes fez, as perseguições. É um compilado que uma emissora não quis publicar,.

Não cabe tudo. A gente conta hoje com 344 páginas. A gente já está planejando uma outra edição, mais para frente, com o resto.

Porque foram oito meses de trabalho exaustivos, quase 18, 19 horas por dia de trabalho, de segunda a segunda.

Entrelinhas: Depois de todos esses acontecimentos, o que o senhor espera que aconteça agora em relação ao seu caso, tanto no Brasil quanto na Itália?

Tagliaferro: A gente está fazendo um documento também para trazer aqui para a Itália, para reforçar, porque a gente já tem muitas provas contra o que está acontecendo no Brasil, contra o que ele está fazendo comigo.

Eu penso no meu íntimo, eu sei que não vai acontecer nada, mas eu tenho a esperança de que aconteça.

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