Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Obituário

Joselito Bertoncelli: uma mesa para todos

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Na juventude, Tacla e Bolívar Bertoncelli – mais conhecidos como dona Maria e seu Bulico – perdiam a respiração ao ouvir os trinados do espanhol José Jiménez Fernández, o Joselito, um dos maiores fenômenos da canção mirim do século 20. Não perdiam um filme estrelado pelo cantor, de Escuta minha canção a O cavalinho branco. A devoção era tamanha que no escurinho do cinema prometeram a si mesmos que dariam o nome do astro ao próximo filho.

Assim foi. Joselito Bertoncelli, nascido em 1963, cresceu numa casa de cinco irmãos. Logo virou o “Zéli”. Mais do que um diminutivo, o apelido era uma espécie de sinal de alerta. Em caso de apuro, era só dizer “chama o Zéli”. Tudo se resolvia. Em dias de festa, sabia-se que a refeição estava garantida assim que alguém avisava: “O Zéli chegou”. Cozinhava bem e não encontrava concorrentes no posto de churrasqueiro oficial da família – a sua e a de Sandra Mara, a mulher que amou.

Essa história de dois começou quando os Bertoncelli se mudaram para a Rua Frei Gaspar Madre de Deus, no Portão, em Curitiba, nos inícios da década de 1980. Sandra, a vizinha, tinha apenas 13 anos no dia em que Zéli “botou os olhos nela”, como se dizia. Avisou a todos que se casaria com a guria bonita, de cabelos fartos, cor de jambo e olhos graúdos.

O romance custou a deslanchar, debaixo da vigilância severa da avó portuguesa da menina, dona Marta. Os apaixonados tentaram de tudo – de assobios de “Cirano de Bergerac” atrás do muro, para que ela o encontrasse, a flertes na saída do Colégio Bagozzi. Sandra usava de atalhos. “Vó, vou visitar a Jocélia” – uma das irmãs do pretendente e sua cúmplice. Foi num desses encontros clandestinos que ele lhe roubou o primeiro beijo. Sem sucesso – dona Marta não baixava a guarda. Pensaram até em fugir. O namoro só engrenou depois de ela completar 18 anos. Casaram-se pouco tempo depois. Tiveram quatro filhos. Foram quase três décadas de casa cheia de crianças, parentes e amigos.

Zéli fazia o gênero provedor incondicional. Pagava as contas. Fazia as compras. Decidia o cardápio. Ainda que dado a livros de receitas, ganhou fama na lida dos sabores populares – churrasco, feijoada, dobradinha, caldo verde, carne-de-onça, mocotó, rabada, servidos ao som de Bruno & Marrone. A notícia do que estava planejando para o fim de semana logo se espalhava, garantia de convidados. Os filhos – Camila, Juliana, Lucas e Danielle – sabiam que no aniversário ganhariam o prato predileto, uma flor e o equivalente da idade em número de palmadelas, razão de gritaria e corre-corre pela sala, para escapar do trote.

“Ele não sabia dizer ‘eu te amo’. Mas dava o que não tinha e o que tinha não era dele”, resume Sandra. “A gente brincava que o pai era o nosso Ogro, nosso Malvado Favorito”, emociona-se Camila, ao lembrar que Zéli compensava as crises de humor com altas doses de generosidade. Jocélia e Joceli dizem que ele não foi um irmão, mas o melhor amigo que jamais poderiam ter sonhado. “Ouvia nossas confidências. Era incapaz de negar ajuda a alguém”, comentam. Candidatos a genros o veneravam.

Joselito trabalhou 24 anos numa madeireira de parentes. Tornou-se expert no assunto, do que se orgulhava. A demissão o abalou. Esforçou-se para recomeçar, mas não recobrou a alegria profissional. A instabilidade econômica o tornou ainda mais doméstico. Deu de assistir a todas as novelas e se irritava quando alguém contava o que diziam as revistas de fofocas, sobre os próximos capítulos. Só havia um motivo para sair do recolhimento dos últimos tempos – preparar uma refeição e depois colher elogios, sempre sinceros. Naquela mesa, dizem todos os que o conheceram, vai ficar faltando ele. Deixa viúva, quatro filhos, quatro irmãos e pai.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.