
“Hoje, eu tenho 99 anos, oito meses e oito dias. Está difícil, mas eu quero ver se eu chego aos 100 anos”, disse Romano Ribeiro ao acordar na manhã de 20 de outubro de 2015. Nada de novo para quem se acostumou a contar a idade diariamente: essa era a forma discreta que ele encontrou para atestar a sua lucidez e longevidade. Mas os acontecimentos que se sucederam naquela manhã foram distintos da vontade expressa por Ribeiro. Faltaram três meses e 20 dias para ele entrar na casa dos centenários, uma idade que ele carregaria com a mesma alegria que expressou ao longo dos 99 anos de vida.
Romano Ribeiro nasceu em 12 de fevereiro de 1916, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, e foi criado pela mãe, Euristella Cordeiro, na companhia de um irmão, já falecido, e uma irmã. Ainda na infância, mudou-se para a capital paranaense, cidade na qual permaneceu e concluiu os estudos acadêmicos em Administração em 1968.
Antes disso, aos 15 anos, Ribeiro começou a trabalhar em uma fábrica de meias. Em um acidente durante o serviço, perdeu 95% da visão do olho esquerdo. Ao completar 18 anos, decidiu servir no Exército, função que exercia com orgulho. Chegou a ocupar o posto de segundo sargento na carreira militar. Devido ao comprometimento da visão, ele não tinha mais possibilidade de crescimento no quartel. Por esse motivo, Ribeiro decidiu seguir para o funcionalismo público e se encontrou em uma profissão que lhe permitiu conhecer diversas cidades do Brasil. Como auditor da Receita Federal, morou em Manaus (AM), Concórdia (SC) e Joinville (SC). Fiscalizou e examinou a contabilidade das empresas ao longo dos 35 anos.
Ao lado da esposa, Ednéia Pereira Ribeiro, criou Dirce Ribeiro Hashiguchu, a filha adotiva do casal. Em 1979, Ednéia faleceu em decorrência de um câncer de mama. Tinha 60 anos. Na memória da filha, ficou registrada a imagem dos pais como “um casal inseparável”. Ambos gostavam de viajar e de ler um bom livro. Enquanto ela tinha um temperamento mais forte, ele era de uma calma quase inabalável. No dia a dia, os dois extremos formavam um lugar confortável para viver em harmonia.
O gosto por viagens era algo que lhe mantinha vivo. Aos 95 anos, Ribeiro foi visitar parentes na Alemanha. Além disso, viajou duas vezes para o Japão e conheceu a maioria dos países da Europa. No Brasil, gostava de passar as férias nas praias do Nordeste e de visitar os amigos de Manaus (AM).
Romano Ribeiro não dispensava um baile ao som de um bom samba de raiz. Dançava tanto que voltava para casa com os pés inchados. Para não levar bronca, dizia para a filha: “não foi porque eu dancei muito, foram as moças que pisaram no meu pé”. Diariamente, lia o jornal Gazeta do Povo, no qual gostava principalmente do Obituário, e a Folha de SP. Também tinha o hábito de tomar uma dose de pinga antes do almoço para “abrir o apetite”.
Para os três netos, Ribeiro sempre foi um exemplo de homem honesto e alegre. “Ele sempre via os dois lados da história. A gente aprendeu a ser justo com ele”, conta Roseane Akemi Hashiguchi, neta do servidor público aposentado. Além disso, ele não media esforços para ajudar os parentes e amigos.
Há dois anos, Ribeiro foi morar com a filha em um sítio localizado em Palmeira, cidade nos Campos Gerais. Os problemas de saúde aumentaram no fim de 2014. Em certo momento, não queria mais se alimentar. A família insistia, mas era difícil fazer ele mudar de ideia. Por causa disso, os internamentos se tornaram constantes. Na última vez em que ficou internado por causa do mau funcionamento do intestino, sofreu uma parada cardíaca. Morreu em 20 de outubro de 2015, no Hospital Madre Tereza de Calcutá, em Palmeira. Deixa a filha Dirce, três netos, dois bisnetos, parentes e amigos.







