
Em 1979, o lavrador catarinense Assis dos Santos de Oliveira, então com 55 anos, estava sentindo fortes dores no peito e procurou a Santa Casa de Curitiba, onde descobriu sofrer de doença coronariana. Ele precisaria se submeter a uma cirurgia cardíaca. O cardiologista Costantino Roberto Costantini, entretanto, propôs outro procedimento: a angioplastia coronariana, uma técnica nova, que até então só tinha sido realizada na Europa e nos Estados Unidos. A angioplastia é uma técnica menos invasiva para desobstruir as artérias.
Oliveira aceitou ser o primeiro paciente da América Latina a passar por essa intervenção ao descobrir que o tempo de recuperação seria de apenas uma semana, contra 45 dias da cirurgia a peito aberto.
Trinta anos após a primeira intervenção, Assis, que hoje tem 86, vive sozinho na cidade de Lages (SC) e continua tocando a sua lavoura de milho, feijão e mandioca, embora esteja aposentado. Na época, os seus amigos e irmãos não acreditavam que ele sobreviveria à cirurgia. "Chegaram a se despedir de mim porque pensaram que eu não ia mais voltar. Hoje, todos eles se foram, mas eu continuo aqui, firme e forte", conta.
Assis já se submeteu a outras sete angioplastias, pois a doença coronariana não tem cura e outras artérias foram afetadas. "Mas até hoje o local onde a primeira angioplastia foi realizada permanece intacto. Nada precisou ser alterado", explica Costantini.
Todos os anos, Assis passa por uma bateria de exames em Curitiba. Curiosamente, no aniversário de 30 anos do primeiro procedimento, um dos testes identificou uma alteração e ele teve de se submeter a uma nova angioplastia na segunda-feira. A cirurgia inesperada não abalou o lavrador. "Quero voltar logo para casa, porque tenho muito o que fazer. Não há nada melhor do que voltar ao trabalho para se sentir melhor."
Costantini, que sofreu duras críticas ao realizar o tratamento na década de 70, vê o paciente como um exemplo de como as novas tecnologias podem salvar vidas de forma não agressiva. "O Assis é a história viva da evolução da angioplastia, pois o seu coração já foi tratado com o que existe de mais primário e de mais sofisticado", acredita.
Evolução rápida
Na década de 70, a angioplastia coronária era realizada por meio de uma inserção, por uma artéria do braço, de um pequeno balão até o local do entupimento, onde era inflado. Este balão esmagava a placa de gordura contra a parede da própria artéria, desintegrando-a e permitindo a passagem do fluxo sanguíneo. Cinco anos depois, o balão foi substituído pelos stents, dispositivos que abrem o canal tomado pela gordura. Atualmente, o procedimento é realizado com stents que liberam medicamentos, auxiliando o desentupimento.
Além de ser usada para desobstruir múltiplas artérias, inclusive as carótidas e a aorta, a angioplastia é recomendada para tratar infarto agudo do miocárdio. O cardiologista Costantino Costantini explica que a técnica é mais segura e eficiente do que a cirurgia cardíaca com ponte de safena. "O tempo de recuperação e hospitalização é menor, assim como os riscos de complicações e de morte", enumera. Segundo estudos realizados pela Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, enquanto o índice de oclusão da ponte de safena é de 22% durante o primeiro ano, o das angioplastias é de 2%.



