
A cada 100 córneas captadas no Paraná, 64 não são transplantadas. O índice de descarte é maior que a média brasileira, de 51%, e acima do parâmetro internacional, que fica na casa de 40%. No estado, o principal motivo é a quantidade desproporcional de tecidos oculares contaminados com hepatite B, indicando falhas no processo de avaliação das córneas ou a existência de subnotificação da doença. Saber que mil córneas foram descartadas no Paraná no ano passado é um desalento para as mil pessoas que estão na fila de espera.As informações sobre a captação de córneas fazem parte do primeiro relatório elaborado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com o objetivo de identificar a qualidade do serviço prestado nos 42 bancos de olhos existentes no Brasil. De acordo com uma das coordenadoras do levantamento, Renata Parca, a intenção é reunir dados que permitam estabelecer um patamar de descarte adequado à realidade nacional e apontar eventuais problemas. Ela destaca que números altos de descarte podem evidenciar, a partir de comparações futuras, que há desperdício em um determinado banco de olhos enquanto que o aproveitamento da imensa maioria das córneas captadas pode ser um indício de falta de controle de qualidade no processo. "Mas o descarte de córneas é inevitável", reforça Renata.
O oftalmologista Elcio Sato, que fala em nome da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), acredita que os altos índices de descarte por hepatite, verificados no Paraná e em alguns outros estados, podem ser consequência de diversos casos de exames que deram falso-positivo (resultado que aponta a presença do vírus sem que o sangue esteja realmente infectado). Assim, seria recomendada a realização de testes adicionais, mas não são todos os laboratórios de análises clínicas que estão habilitados a fazer contraprovas mais precisas. "Então, para a segurança de quem vai receber a córnea, o banco opta por não usar o tecido", salienta. Não pode ser um exame muito sofisticado nem muito demorado, defende o médico. "Estamos perdendo córneas viáveis, mas estamos errando por excesso de zelo. Muito pior seria o contrário: o uso sem garantias de segurança."
O teste extremamente sensível é usado por vários motivos. Primeiro por questões de segurança para garantir que um receptor não será contaminado ao receber o tecido. Também porque o exame supersensível é mais disseminado pelo Brasil, sendo realizado em um grande número de laboratórios e, assim, permitindo que a avaliação seja feita mais rapidamente. E ainda porque há uma linha médica que rechaça a possibilidade de cura da hepatite: trabalha apenas com a possibilidade de o paciente conviver com o vírus sem ser afetado por ele.
O secretário estadual de Saúde, Carlos Moreira Junior, acredita que algum erro esteja inflando a quantidade de córneas rejeitadas por contaminação de hepatite. "Esse número deve ter alguma falha de interpretação estatística", diz. Ele defende a ampliação das campanhas de prevenção de hepatite. E destaca que ações estão sendo programadas para aumentar o número de doações. Um convênio firmado com funerárias vai permitir a retirada de córneas de corpos que passam por tanatopraxia (processo semelhante ao embalsamento). Moreira aposta que essa parceria deve ser capaz de representar 100 doações a mais por mês na capital.
Avanço
Sato afirma que o relatório inédito da Anvisa é um avanço porque auxilia na identificação de entraves que atrapalham a ampliação no número dessas cirurgias. "O caso do alto índice de descarte por hepatite B é um ótimo exemplo. É muito alto e não pode ser verdadeiro. É uma situação que precisamos atacar", avalia. Ele explica que o protocolo do transplante de córneas usa um exame que é extremamente sensível para a contaminação por hepatite. Sato defende que a regulamentação do procedimento seja aprimorada, com vistas a diminuir o descarte.
Com a experiência de quem opera pacientes que entraram há apenas 15 dias na fila de transplante em São Paulo, Sato assegura que existem receitas bem pouco complicadas para diminuir o tempo de espera dos pacientes que aguardam a doação de córneas. Investir em equipes de captação, que abordam familiares para pedir a doação e estão treinadas para fazer a retirada do tecido, foi o modelo paulista que deu certo.
* * * * *
Interatividade
Que medidas poderiam ser tomadas para evitar o desperdício de órgãos?
Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.




