
Ponta Grossa - O estudo "Indicadores Sociodemográficos e de Saúde no Brasil 2009", divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), comprova que o Brasil é um país de idosos. O avanço na expectativa de vida traz mais gastos na saúde, já que 75,5% dos idosos têm doenças crônicas e 70,6% ainda dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Somente 29,4% da população idosa tem acesso a um plano de saúde.
O mecânico aposentado Euzébio Borges de Oliveira, 71 anos, de Ponta Grossa, é usuário da rede pública e reclama que não há médicos especialistas nem soluções para seus problemas de saúde. Todos os dias, ele sente dores renais e dificuldades para urinar. Há três anos, fez uma bateria de exames, mas lamenta que as dores não tenham parado. O jeitinho caseiro foi a única solução. "Quando estou com dor eu tomo um copo de leite quente e me deito. Se a dor volta, eu tomo mais leite", afirma. Para o aposentado, casado e pai de seis filhos vivos, a saúde pública não merece sua confiança. "O destino para quem chega numa certa idade é o corredor do hospital", afirma.
O chefe do serviço de geriatria do Hospital Cajuru da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, José Mário Tupiná Machado, alerta que o país precisa investir em programas de geriatria preventiva. "Estamos envelhecendo, mas estamos envelhecendo mal. Temos que mudar esse quadro para ter um envelhecimento digno para a população", comenta.
Ele lembra ainda que o número de médicos especialistas em terceira idade (geriatras) é reduzido. "Temos mais idosos e menos geriatras. Em todo o Paraná temos apenas um programa de residência médica, que é o nosso, e que forma de dois a três médicos por ano", acrescenta. Segundo o registro do Conselho Regional de Medicina no Paraná, dos 17,7 mil médicos do estado, somente 61 são geriatras.
Capacitação é a palavra-chave para preparar os profissionais de saúde para atender de forma adequada a população idosa. O Ministério da Saúde tem inclusive uma portaria voltada à saúde do idoso. No Paraná, parte dos programas é executada. Conforme o vice-presidente do Conselho Estadual do Direito da Pessoa Idosa, Rubens Benblin, se pretende expandir a Caderneta do Idoso (guia individual com todas as informações sobre a saúde do idoso) para 100% dos municípios paranaenses até fim do ano que vem. Hoje, apenas 60% dos municípios trabalham com o material na rede pública de saúde.
São realizadas ainda oficinas para capacitar os profissionais das equipes do Programa Saúde da Família (PSF) sobre o protocolo de atendimento aos idosos estabelecido pelo Ministério da Saúde. As 22 regionais de Saúde do estado têm um profissional cada uma responsável pelos programas ligados à saúde do idoso. "O sistema de saúde tem que se preparar para atender pessoas com idade cada vez mais avançada. O que pode melhorar é a prevenção", afirma Maria Elisa Parahyba, pesquisadora do IBGE.
Independência
A independência e a saúde do idoso brasileiro também foram medidas pelo IBGE através do índice de mobilidade (capacidade declarada de andar e subir escada sem dificuldades). Segundo o estudo, o Nordeste concentra as mais altas taxas de incapacidade funcional. Norte e Centro-Oeste têm as mais baixas. Entre as capitais brasileiras, a menor taxa de incapacidade funcional entre o público feminino é encontrada em São Paulo, onde apenas 20,1% das idosas ainda são dependentes. Curitiba aparece em segundo lugar, com 24,9% de incapacidade funcional. Quando se refere aos homens, a taxa diminui para 20% em Curitiba, mas a capital cai da segunda para a quinta posição, já que em São Paulo, por exemplo, onde os homens idosos têm níveis de dependência menor, a taxa é de 15,8%.
A publicação divulgada ontem pelo IBGE é uma compilação de estudos anteriores. Ela abrange as estatísticas de fecundidade, natalidade e mortalidade entre os anos de 1960 e 2005. As mudanças nos últimos 45 anos são grandes. A taxa de fecundidade, por exemplo, evidencia que as famílias estão menos numerosas. O declínio foi de 9 para 1,99 filhos. A esperança de vida aumentou, bem como caiu a desigualdade da média entre as regiões brasileiras. Em 1940, por exemplo, se vivia até 36,7 anos no Nordeste, enquanto que no Sul, a expectativa era até 49,2 anos. Em 2005, as diferenças entre as duas regiões caíram para apenas cinco anos.
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