O Paraná alcança um patamar invejável para muitos estados brasileiros: atende ao parâmetro da Organização Mundial da Saúde (OMS) que recomenda a proporção de um médico para cada grupo de 700 pessoas. A relação paranaense está em 668 por um. Seria uma ótima notícia, não fosse a má distribuição. De acordo com cadastro do Conselho Regional de Medicina (CRM) do Paraná, quase metade dos médicos mora em Curitiba a proporção na capital é de um a cada 247 moradores. Se de um lado há abundância, no outro a carência é extrema. Nada menos do que 86 cidades do Paraná não contam com um médico sequer entre seus habitantes. E o problema não pára por aí: 71% dos municípios têm menos de cinco profissionais da área.
A predileção pela capital, que resulta numa concorrência acirrada, cria abismos no comparativo com as cidades da região metropolitana. Colombo, Almirante Tamandaré e Fazenda Rio Grande são exemplos disso: deveriam ter, pelos padrões da OMS, respectivamente 320, 156 e 123 médicos, mas contam com 15, 9 e 3 com registro localizado no CRM.
Na ponta do lápis, apenas 13 municípios paranaenses atingem a recomendação. Nessas cidades mora 1/3 da população do estado. Estão na lista os grandes pólos regionais, como Londrina e Maringá, cidades de porte intermediário, como Pato Branco e Paranavaí, algumas cidades consideradas pequenas, como Uniflor, Ivaiporã e Paranapoema. Desafiando a lógica da concentração em pólos estão Foz do Iguaçu, Ponta Grossa e Guarapuava, com proporções bem abaixo das recomendadas.
Contraste
Uniflor é uma cidade pequena na Região Norte do estado, com 2,1 mil habitantes, mas se diferencia de tantas outras sem infra-estrutura de atendimento médico. A cidade conta com dois clínicos gerais e um ginecologista. "Para ficar bom mesmo ainda precisava de um pediatra", afirma o secretário municipal de Saúde, Luiz Petenazzi. Mas a situação é bem confortável: 100% da população urbana e rural está coberta pelo Programa Saúde da Família e não há consultórios médicos particulares na cidade.
Em situação inversa está Esperança Nova, que fica na Costa Oeste. Entre os 2,3 mil moradores não há nenhum médico. Dois profissionais sendo que um está em férias prestam atendimento no único posto da cidade. Eles moram e trabalham em municípios vizinhos. Das cinco da tarde às oito da manhã e nos fins de semana, se alguém enfartar ou sofrer um acidente na cidade, receberá os primeiros socorros de algum outro profissional de saúde e será levado ao hospital de São Jorge, Pérola ou Umuarama.
Condições
O professor de Clínica Médica no curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Miguel Ibraim, destaca fatores decisivos na fixação do médico: qualidade de vida, condições de trabalho e oportunidade de atualização profissional. "Se tem filhos, vai querer uma boa escola e geralmente não há em cidades com poucos habitantes." Segundo ele, a preocupação com o bem-estar da família e com as opções de lazer norteia a decisão.
A certeza de que contará com recursos adicionais mínimos, como exames, também pesa na escolha. "Cidades menores têm condições menos interessantes de trabalho", frisa o professor. Por isso, muitas vezes o profissional recém-formado prefere ficar em um grande centro, mesmo ganhando menos que no interior. "Ter acesso a condições de diagnóstico tem mais valor do que dinheiro", reitera. Além da possibilidade de não atender bem o paciente, o receio de processos judiciais por erros humanos também afugenta muitos médicos das condições precárias geralmente encontradas no interior.
A informação é confirmada pelo presidente do CRM, Hélcio Bertolozzi Soares. Ele alega que o índice de reclamações no órgão por imperícia de novatos em condições desfavoráveis é grande. Hélcio lembra que a distribuição não-homogênea do total de médicos ocorre em todo o país, mas reconhece que a situação causa muitos problemas para quem depende de atendimento médico.
Tanto o presidente do CRM como o professor da UFPR concordam que a solução para as carências localizadas de profissionais da saúde só viria com um grande plano de interiorização do atendimento. Além de propiciar melhores condições de trabalho, os governos federal e estadual deveriam abrir grandes concursos públicos e designar os profissionais para as cidades que precisam, tal qual acontece com outros cargos, como juízes ou gerentes bancários. Os médicos teriam então um plano de cargos e saberiam que ficariam até três anos na cidade, com direito a remoção depois.



