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A arca de Henrique Doni

Uma casa da Rua Isidoro Mikosz atiça a curiosidade da criançada que mora na região. O muro alto não impede ver que aquele lugar é diferente – uma versão suburbana da mansão da Família Adams. Há crânios de animais enfeitando a fachada, cascos de árvore forrando as paredes e mandíbulas indicando o número da residência – 404. Mas quando o portão se abre, em vez de uivos de lobos e revoada de morcegos o que se ouve é o falante Henrique Doni, 61 anos, ex-professor de Educação Física e um dos mais requisitados empalhadores de animais do país. Doni é taxidermista. Sua casa não o deixa mentir.

O segredo já foi decifrado por uma parte dos guris da região. Eles descem a rua cada vez que encontram um passarinho ou animal morto na redondeza. "Dá para empalhar?" Para o sujeito que calcula ter taxidermizado um safári inteiro – algo em torno de cinco mil peças em 42 anos de ofício – os pedidos da vizinhança são simples como emprestar uma xícara de açúcar. Mas não podem ser atendidos, por uma determinação do Ibama, que não permite a coleta de animais mortos, sob pena de que o abate seja estimulado. Só podem ser taxidermizados animais adquiridos, com nota fiscal, ou liberados para pesquisa científica. Fora disso, a lei prevê apreensão da peça.

Mas nada de passar o corridão, afinal, sua "história de paixão pelos animais", como define Doni, também começou na infância. Com um pintinho, nas aulas de Ciência. "Foi na intuição. Peguei o bichinho morto, abri com a lâmina retirada do apontador de lápis e empalhei do jeito que achei que deveria ser. Botei bastante perfume Violino Lugano, que peguei da empregada da minha mãe. Quase apanhei. Deu certo por uns dias. Depois começou a cheirar mal", relembra.

Passado o fracasso da "primeira expedição científica", partiu para a segunda, mais robusta. Nos idos de 1964 – em pleno regime militar – empalhou um quati. Cinco anos de acertos e erros depois, encontrou na Livrarias Curitiba um manual de instruções: Taxidermia. Entomologia e Herbários, da Editora Hobby, de autoria do argentino Carlos Morganti. Henrique atazanou seus pais até conseguir um exemplar, hoje, uma relíquia amarelada, autografada pelo pai e uma espécie de registro de trabalho extra-oficial. "Nasci para isso", resume.

Doni elegeu como ídolo o naturalista alemão André Mayer, taxidermista de fina cepa, radicado em Curitiba na década de 30, e cujas peças – oficialmente 197 – são as jóias da coroa do Museu de História Natural, no Capão de Imbuia. Deviam ser expostos no Museu Oscar Niemeyer exemplares como um lobo-guará, de 1951, e um conjunto de bugios que parecem congelados por uma explosão atômica, entre outros. Mayer – além do acabamento digno de alta-costura – tinha uma virtude desejada por todos os taxidermistas do planeta: as espécies que fazia pareciam flagradas num instante mágico. Sem essa destreza, animais embalsamados ficam parecendo monstrinhos mal-acabados de túnel fantasma, obra e graça de taxidermistas de primeira viagem.

Pois Doni, que se dera bem com os quatis, queria ser como André Mayer. Tentou se aproximar, mas o mestre, literalmente, soltou os cachorros atrás do aprendiz de taxidermia ("era um pastor alemão"). "O bom taxidermista tem uma mente fotográfica. Precisa registrar como o bicho pára, como abre a boca, como olha. Perguntei uma vez ao Mayer o que ele estava fazendo parado diante de um animal. ‘Fotografando com a mente’, ele me respondeu."

Hoje faltam profissionais: são três no Paraná. Doni ensina que antes de tudo se deve observar e observar, até, quem sabe, desenvolver um olho biônico como o de Mayer. Em seguida, avisa: é preciso ter estômago. Muitos estagiários de Biologia e curiosos já se habilitaram a uma vaga de trainee, mas desaparecem assim que os primeiros engulhos os tiram da prova. A lâmina desce pelo peito ou na cabeça do animal e, pluft! A retirada das vísceras, idem, tem o poder de levar os interessados a pedir licença e tomar um ar e chá de sumiço. "Não é uma coisa bonita de se ver. E depois de tudo isso, pode não ficar bom. Taxidermia é sorte", diz.

Dentro da incrível casa/cabana de Doni há poucos animais empalhados. Um curió, vivo, habita uma imensa gaiola. Galinhas, peixes, cervos e ossadas gigantescas decoram a parede. Quase tudo o que produz está em museus ou com particulares que procuram seus serviços. Uma ave pode sair por rasos R$ 30. Um cervo asiático chega a R$ 800.

O cenário de cientista maluco em que ele vive fica ainda melhor quando acompanhado das incríveis aventuras que rondam cada peça. Tem o causo da onça de São Luiz do Purunã. Do javali e do antílope africano de 380 quilos, do cachorro vinagre, em extinção. E do touro taxidermizado que há dez anos faz a festa dos caubóis de asfalto que visitam Barretos, no interior de São Paulo. Nos EUA, onde há uma indústria da taxidermia, a peça sairia por US$ 600. Um puma, por US$ 249. É de lá também que vêm os melhores olhos e acessórios que evitarão usar botões, bolinhas de gude e apetrechos de lojas de armarinhos na confecção. Se não tiver remédio, dá-se um jeito. Ou se pede desculpa: taxidermia não é ciência exata. "O pessoal diz: ‘Manda para o Henrique’. Dia desses veio uma coruja. Topei. Difícil mesmo é animal doméstico, principalmente gato. Nunca fica igual. O dono conhece o bicho. Fica frustrado. É saia-justa na certa", diverte-se.

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