
Ao avaliar o processo de urbanização de uma cidade, não é errado afirmar que parte dela foi configurada pela rede ferroviária. Curitiba, como vários outros municípios, começou com uma igreja e uma praça na frente, no caso, a Tiradentes. Mas se expandiu depois que a ferrovia chegou. A estação de trem virou porta de entrada da cidade e a Rua da Liberdade, hoje Barão do Rio Branco, foi a responsável por ligar os dois trechos mais urbanizados na época. Não por acaso, no meio do caminho ficava a garagem dos bondes. Hotéis de luxo se espalharam pela região; a Rua XV de Novembro, com seus sobrados, era a rua do comércio e, em decorrência da rede, foi criada a primeira zona industrial de Curitiba onde hoje é o bairro Rebouças. Todo este sistema de ocupação é chamado por historiadores e especialistas de paisagem ferroviária. É verdade, ela ainda sobrevive entre os prédios modernos e o crescimento quase incontrolável de uma capital, mas pede socorro.
O professor de arquitetura brasileira da Universidade Federal do Paraná, Key Imaguire Júnior, trabalha há algum tempo com a hipótese de se tentar preservar esta paisagem, de tentar mostrar para as futuras gerações que alguns edifícios, por exemplo, fizeram parte da época em que existia a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA). O projeto, entretanto, ainda está, como o próprio professor define, no "campo das idéias": falta patrocínio para os estudos começarem e para que a preservação seja colocada em prática. Mas há esperanças. O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), ano passado, listou alguns projetos que são prioridades para serem executados até 2020 e o plano de preservação da paisagem ferroviária está entre eles. "Existe uma paisagem demarcada pela rede que poderá ser resguardada. Mas antes é preciso saber o que sobrou disso e o que é importante ser mantido", explica a arquiteta do Ippuc, Ana Lucia Ciffoni.
Sorte que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), regional do Paraná, já começou o inventário da rede no estado desde o início deste ano. É um catatau de páginas, distribuídas em cerca de 20 encadernações, que mostram o que restou da rede e qual a situação dos imóveis. No levantamento ainda não entraram as pontes e viadutos. O trabalho do Iphan englobou os 41 municípios do estado por onde passam a linha férrea e onde existem estações de trem e casas dos antigos ferroviários. "O Iphan vai pedir à União os imóveis que temos interesse em preservar. Eles serão usados para fins culturais, como museus ou bibliotecas", explica o gestor governamental do instituto, Paulo de Tarso Barreto.
Em Curitiba, existem diversas arquiteturas a serem preservadas, ou porque foram da RFFSA ou porque são decorrência dela. A localidade que mais remete à paisagem ferroviária é o Rebouças, antiga área industrial. Além do Moinho, que hoje é usado pela Fundação Cultural de Curitiba, existem grandes barracões que eram ocupados por indústrias ou como depósitos das cargas que chegavam de trem, mas que hoje estão vazios. Isto porque a legislação municipal fez com que as indústrias deixassem de se expandir e ocupar o local, em decorrência do crescimento da cidade. Muitas fábricas já saíram da região. Outras, como a Mate Leão e Fiat Lux, continuam ali, mas com restrições para possíveis ampliações. "A idéia é transformar o Rebouças no bairro dos jovens. Como existem poucas moradias, é um lugar propício para receber barzinhos, restaurantes e armazéns. Os barracões, assim, poderão ser ocupados e preservados", afirma a arquiteta do setor de planejamento do Ippuc, Iuri Hayakawa. O professor Key Imaguire Júnior lembra Puerto Madeiro, em Buenos Aires, como um exemplo do que pode ser feito no Rebouças. "Na Argentina os barracões serviam de depósito de cargas e hoje viraram ponto de turismo. Os imóveis foram ocupados por restaurantes e bares", diz. Um bom exemplo para que o atual Rebouças ganhe vida nova sem perder a sua história.
Casas
Resgatar a paisagem ferroviária será um desafio em relação às casas que eram ocupadas pelos antigos ferroviários, pelo menos no que se refere às de madeira. Com difícil manutenção, muitas residências não existem mais e algumas são ocupadas por famílias de baixa renda, por um contrato de comodato com a União. Ou seja, não há nenhum projeto de manutenção e, por isso, algumas estão em ruínas. Nas proximidades dos trilhos, ainda é possível identificar algumas que fazem parte da peculiar arquitetura: todas elas são iguais ou muito semelhantes porque têm a mesma planta: era uma facilidade construtiva da época.
Na Rua Engenheiro Rebouças é possível ver cinco preciosidades da época que estão preservadas. São casas de alvenaria, provavelmente ocupadas por trabalhadores de maior hierarquia ou porque trabalhavam na estação. Na fachada, elas ainda mantêm o número de registro que tinham na rede e o brasão da RFFSA. Atualmente pertencem à União e são alugadas para moradia. Raridades de uma paisagem ferroviária quase em extinção.



