Há pouco mais de um mês, o trânsito na região do Terminal Guadalupe, no Centro de Curitiba, anda infernal. A culpa não é das 40 linhas de ônibus e dos aproximados 87 mil passageiros que embarcam para os municípios da Região Metropolitana, mas do padre paranaense Reginaldo Manzotti, 35 anos, novo vigário da Paróquia Nossa Senhora do Guadalupe. Desde que assumiu o posto, em janeiro, o religioso arrasa-quarteirão multiplicou o movimento numa área da cidade cujas esquinas a exemplo da João Negrão com a Visconde de Guarapuava, podem ver passar 4.800 carros por hora, de acordo com cálculos da Diretran. Pelo que tudo indica, a história dos dois míseros quarteirões que abrigam a igreja e o terminal vão se dividir em antes e depois de Reginaldo Manzotti.
O pároco instituiu missas ao meio-dia, com lotação completa, ou seja, 980 fiéis sentados de segunda a sexta-feira, fora os 300 que acampam nos corredores. Nas quintas-feiras à noite, o expediente dobra uma missa com bênção eucarística chega a atrair 2 mil pessoas, para as quais, quando não há bancos e corredores disponíveis, servem de remédio as duas majestosas rampas que levam à porta principal. Quem não espera que Deus vá reservar um lugar na primeira fileira, se precavê e chega por volta das 17h30. A essa hora, ruas como a Nilo Cairo já estão em pleno Juízo Final.
Do Terminal Guadalupe, lá embaixo, o novo cenário chama atenção. Difícil encontrar quem não esteja com um olho no letreiro dos ônibus Quissiana, Xingu, Vila Zumbi ou Guaracy, e outro grudado na igreja que até pouco tempo vivia fechada e tem apenas 37 dizimistas. Duas caixas de som gigantescas espalham a cantoria animada até a esquina em que a Rua Pedro Ivo cruza com a Travessa da Lapa. O comércio ganhou fôlego e há estacionamentos que precisam acomodar os carros dos mensalistas em outro pátio para receber os visitantes.
Para atender os mil fiéis que freqüentam a área diariamente, uma das mais degredadas do Centro, padre Reginaldo Manzotti solicitou reforço à Polícia Militar, que manda dois policiais para a ponta da rampa nos horários de culto. A medida tem afugentado os batedores de carteira e ladrões de carros, fiéis freqüentadores das novenas de meio de semana que pipocam nos quatro cantos de Curitiba, mobilizando aproximadamente, 50 mil pessoas por semana em seis paróquias da cidade.
Da missa, ainda não é a metade. Depois que a PM entrou na "dança do Senhor", chegou a vez do prefeito Beto Richa, já visitado pelo imponente padre Reginaldo Manzotti, cuja figura é capaz de fazer militar bater continência. Do alto de seus aproximados 1,90 m, vestes clericais em cima da pinta, vozeirão de Moisés em "Os Dez Mandamentos" e com a autoridade de quem já chegou a reunir 35 mil pessoas numa única celebração, pediu ao prefeito Beto Richa mais iluminação, segurança e revitalização. O Ippuc, meses atrás, bem que tentou algo parecido, mas foi recebido pelos comerciantes da Praça Senador Correia, onde está a igreja, e adjacências, com quatro pedras na mão. Ninguém gostou da idéia de tirar o terminal dali por uns tempos e a proposta foi parar no arquivo de ferro. O sacerdote não quer a retirada do terminal, cuja presença, ali, é para ele a razão de ser da comunidade, nascida em 1955 para prestar serviços religiosos aos moradores das cidades-dormitório. Quer algo mais difícil, como ajudar a solucionar o problema do tráfico de crack e a prostituição no local uma área talhada de hotéis de alta-rotatividade e cuja geografia parece feita em laboratório para ajudar a contravenção. Ruelas estreitas e um terminal cheio de filas, no qual é fácil sair de fininho, são o mapa da mina para os traficantes.
O homem clergiman preto (camisa com colarinho de padre), obviamente, não foi saudado com ramos de oliveira por essa parcela de paroquianos menos devotada à Virgem de Guadalupe. Em pouco mais de um mês, padre Reginaldo Manzotti recebeu duas ameaças anônimas uma colocada na janela de seu carro, outra por telefone. A acusação indireta é de que está atraindo, com sua popularidade, as ações integradas da PM e outros órgãos de segurança, um expediente hoje quase tão comum quanto troca de guarda. A operação-surpresa, contudo, não passa nem de raspão pela burocracia da Cúria Metropolitana, muito menos pelo vigário.
Na sede do 12.º Batalhão da Polícia Militar, na Santa Quitéria, o tenente-coronel Jorge Costa Filho, comandante da PM em nada menos do que 35 bairros de Curitiba, festeja com tiros de canhão a presença de Reginaldo Manzotti no Guadalupe. Para ele, o religioso está atraindo sim, mas é gente para a região, o que costuma ser uma espécie de aviso prévio de que a festa acabou. "Quando mais pessoas circularem por ali, maior a chance de controlar a contravenção. Os bandidos estão se sentindo ameaçados e tendem a se retirar. A presença de um padre é uma bênção." Costa diz que parte dos problemas da área se deve aos imóveis abandonados e invadidos e os despistes dos traficantes que carregam pequenas porções para passarem por usuários. "Tem prostituta que cobra R$ 10 por um beijo e passa a pedra de crack pela boca", conta. As ocorrências policiais, contudo, são moderadas na casa dos 1.400 casos no mês de dezembro, em toda a região central.
Em conversa com a reportagem da Gazeta do Povo, quinta-feira passada, uma hora antes da missa dos 1.800 fiéis, o sacerdote, não escondeu seu desconforto diante do assunto. Mas que nada. Com caravanas de Balsa Nova, Itaperuçu e Apucarana estacionando no velho Centro, um coral esquentando a garganta e uma multidão tomando conta de cada metro quadrado da Nossa Senhora de Guadalupe, ameaças ficam para depois. A missa já vai começar.



