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Cultura

A casa das obras raras

Seção de raridades da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é um baú cheio de preciosidades. São dois quilômetros de livros preciosos

A “Carta de guia de casados”, de 1651: mulheres deveriam tomar cuidado com as suas empregadas | Fotos: Pollianna Milan
A “Carta de guia de casados”, de 1651: mulheres deveriam tomar cuidado com as suas empregadas (Foto: Fotos: Pollianna Milan)
Imagem de Mantua no sistema

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A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro recebe – por exigência da Lei de Depósito Legal – pelo menos um exemplar de tudo o que é publicado no Brasil. Isso dá uma ideia do tamanho do acervo: uma estimativa de oito anos atrás rondava a casa dos dez milhões de obras. Além de livros sobre assuntos dos mais variados tipos, jornais e revistas, a biblioteca guarda ainda obras que são consideradas verdadeiras joias – desde manuscritos até livros que são exemplares únicos no mundo. As edições especiais são guardadas literalmente a sete chaves – em cofres especiais – e não estão disponíveis ao público em geral para consultas.

Manusear uma edição impressa no século 16, por exemplo, é privilégio para poucos: pesquisadores começam a pesquisa a partir de microfilmagens ou arquivos digitalizados e apenas no fim podem ter acesso ao livro original. A restrição acontece porque grande parte das edições está em condições precárias; e mesmo as que já foram restauradas precisam de cuidado especial na hora do contato físico. "O projeto Fênix, de recuperação destas obras, está preocupado em fazer com que o livro possa ser novamente tocado", explica a chefe de divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, Ana Virgínia Pinheiro. "Não é uma questão estética – tentar deixá-lo bonito – mas sim uma forma de tratá-lo e higienizá-lo para que possa sobreviver por mais tempo", diz. Pelo menos 129 peças serão recuperadas no projeto, que tem o patrocínio do BNDES. Com exclusividade, Ana Virgínia contou para a Gazeta do Povo a história e o conteúdo de algumas delas.

O setor de Obras Raras tem cerca de dois quilômetros de livros enfileirados: grande parte pertenceu à Biblioteca Real. Entre as raridades está a Emblemata, publicada em 1624, em Amsterdã, escrita por Johan de Brune. As emblematas tratavam de orientações mo-rais e ensinavam, por exemplo, como a pessoa deveria se comportar diante de um amigo. "O livro traz imagens de mães em condição de maternidade, uma coisa inédita no século 17. Não era de praxe retratar a vida cotidiana das pessoas. O que existia neste período sobre maternidade eram somente imagens da virgem Maria segurando o menino Jesus. Mas este livro mostra a imagem de uma mulher evidentemente nobre, com roupas de gola alta e renda, que está trocando a fralda suja de uma criança", diz Ana Virgínia.

A publicação é considerada rara porque também tem características das edições flamengas, da região de Flandres, como a impressão em papel de baixíssima qualidade para aumentar as tiragens. "É um papel áspero e marrom não comum para o período", conta Ana Virgínia.

Outro tesouro é O Fênix de Minerva: o livro fala de técnicas de memorização e deve ser o primeiro livro deste gênero publicado em língua espanhola – a edição de 1626 (Madri) está na fila para ser restaurada pelo projeto Fênix. A obra ensina os estudantes a decorar textos, dados e ainda como fazer para não esquecê-los.

Manuais

No século 17 já havia a preocupação em se criar manuais para quem fosse casar. A Carta de guia de casados, de 1651, foi escrita por Francisco Manuel de Melo – ela tem formato estreito, como se fosse uma edição para se ter sempre à mão – e estabelece regras bastante rígidas para as mulheres. E outras bem flexíveis para os homens. "A obra alcançou popularidade na época e causou uma certa indignação, porque as mulheres eram as mais prejudicadas com as tais leis. Imagine que o autor nunca se casou na vida e escreveu recomendações para um matrimônio porque o amigo dele iria casar", diz Ana Virgínia. Uma parte do manual (leia nesta página) sugeria às mulheres tomar cuidado com as empregadas, porque elas poderiam lhes roubar o marido.

Algumas edições do setor de Obras Raras são pioneiras na utilização de certas técnicas. A Cosmografia, de Petri Apiani (1551), impressa em Paris (França), traz nas páginas algumas pequenas peças que se movem – denominadas semoventes. "Os livros infantis atuais, que usam este recurso, devem ser uma imitação de Apiani", afirma Ana Virgínia. Outro livro raro é o de Schedel – escrito na Europa no século 15 –, que foi o primeiro a retratar mapas com a técnica "vista de pássaro". É algo semelhante ao que se vê hoje no Google Maps: a imagem das casas aparece em três dimensões – o teto e pelo menos duas laterais.

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