
A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro recebe por exigência da Lei de Depósito Legal pelo menos um exemplar de tudo o que é publicado no Brasil. Isso dá uma ideia do tamanho do acervo: uma estimativa de oito anos atrás rondava a casa dos dez milhões de obras. Além de livros sobre assuntos dos mais variados tipos, jornais e revistas, a biblioteca guarda ainda obras que são consideradas verdadeiras joias desde manuscritos até livros que são exemplares únicos no mundo. As edições especiais são guardadas literalmente a sete chaves em cofres especiais e não estão disponíveis ao público em geral para consultas.
Manusear uma edição impressa no século 16, por exemplo, é privilégio para poucos: pesquisadores começam a pesquisa a partir de microfilmagens ou arquivos digitalizados e apenas no fim podem ter acesso ao livro original. A restrição acontece porque grande parte das edições está em condições precárias; e mesmo as que já foram restauradas precisam de cuidado especial na hora do contato físico. "O projeto Fênix, de recuperação destas obras, está preocupado em fazer com que o livro possa ser novamente tocado", explica a chefe de divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, Ana Virgínia Pinheiro. "Não é uma questão estética tentar deixá-lo bonito mas sim uma forma de tratá-lo e higienizá-lo para que possa sobreviver por mais tempo", diz. Pelo menos 129 peças serão recuperadas no projeto, que tem o patrocínio do BNDES. Com exclusividade, Ana Virgínia contou para a Gazeta do Povo a história e o conteúdo de algumas delas.
O setor de Obras Raras tem cerca de dois quilômetros de livros enfileirados: grande parte pertenceu à Biblioteca Real. Entre as raridades está a Emblemata, publicada em 1624, em Amsterdã, escrita por Johan de Brune. As emblematas tratavam de orientações mo-rais e ensinavam, por exemplo, como a pessoa deveria se comportar diante de um amigo. "O livro traz imagens de mães em condição de maternidade, uma coisa inédita no século 17. Não era de praxe retratar a vida cotidiana das pessoas. O que existia neste período sobre maternidade eram somente imagens da virgem Maria segurando o menino Jesus. Mas este livro mostra a imagem de uma mulher evidentemente nobre, com roupas de gola alta e renda, que está trocando a fralda suja de uma criança", diz Ana Virgínia.
A publicação é considerada rara porque também tem características das edições flamengas, da região de Flandres, como a impressão em papel de baixíssima qualidade para aumentar as tiragens. "É um papel áspero e marrom não comum para o período", conta Ana Virgínia.
Outro tesouro é O Fênix de Minerva: o livro fala de técnicas de memorização e deve ser o primeiro livro deste gênero publicado em língua espanhola a edição de 1626 (Madri) está na fila para ser restaurada pelo projeto Fênix. A obra ensina os estudantes a decorar textos, dados e ainda como fazer para não esquecê-los.
Manuais
No século 17 já havia a preocupação em se criar manuais para quem fosse casar. A Carta de guia de casados, de 1651, foi escrita por Francisco Manuel de Melo ela tem formato estreito, como se fosse uma edição para se ter sempre à mão e estabelece regras bastante rígidas para as mulheres. E outras bem flexíveis para os homens. "A obra alcançou popularidade na época e causou uma certa indignação, porque as mulheres eram as mais prejudicadas com as tais leis. Imagine que o autor nunca se casou na vida e escreveu recomendações para um matrimônio porque o amigo dele iria casar", diz Ana Virgínia. Uma parte do manual (leia nesta página) sugeria às mulheres tomar cuidado com as empregadas, porque elas poderiam lhes roubar o marido.
Algumas edições do setor de Obras Raras são pioneiras na utilização de certas técnicas. A Cosmografia, de Petri Apiani (1551), impressa em Paris (França), traz nas páginas algumas pequenas peças que se movem denominadas semoventes. "Os livros infantis atuais, que usam este recurso, devem ser uma imitação de Apiani", afirma Ana Virgínia. Outro livro raro é o de Schedel escrito na Europa no século 15 , que foi o primeiro a retratar mapas com a técnica "vista de pássaro". É algo semelhante ao que se vê hoje no Google Maps: a imagem das casas aparece em três dimensões o teto e pelo menos duas laterais.




