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Saúde

A difícil hora de tomar o remédio

Falar em tomar remédio para a pequena Isabelly Lira Gonçalves da Silva, 8 anos, pode ser sinônimo de confusão. Quando a reportagem sugeriu em reunir os medicamentos para a fotografia, logo desconfiou. "Mas não vou precisar beber de verdade, né?", perguntou, quase irritada.

Desde bebê, a menina não só faz cara feira, mas tem horror a remédios - por causa do gosto, que é ruim, em sua opinião. "Principalmente os mais amargos, como dipirona sódica e paracetamol", recita com propriedade os princípios ativos desses dois anti-térmicos.

Mas não é só o sabor que desagrada a pacientes de todas as idades. A funcionária pública estadual Márcia Aparecida Teixeira, 46 anos, tem verdadeiro pavor. "Tenho medo que me faça mal e que não tenha como alguém me socorrer", diz.

Márcia, que sofre de problema na coluna, chega a driblar a família, para fazer de conta que ingeriu a substância. "Só tomo quando todos eles ficam fazendo pressão e não saem de perto", admite. Já o repositor Rafael Ortega, 19 anos, só vai ao médico e segue o que lhe foi receitado depois de muitas tentativas com alternativas caseiras, como chás e mel. "Quanto mais natural melhor. Remédio também é droga", lembra.

Estudos sobre o comportamento de pacientes idosos demonstram que apenas metade das pessoas que deixam o consultório médico com uma receita tomam o medicamento de acordo com as orientações prescritas, conforme ressalta o geriatra e professor de gerontologia Rubens de Fraga Júnior. "Entre as muitas razões alegadas pelos pacientes para não cooperar com um plano terapêutico, a mais comum é o esquecimento", revela.

De família

O pediatra Donizete Gianberardino Filho, diretor geral do Hospital Pequeno Príncipe, ressalta que em geral as pessoas não gostam de usar medicamentos porque se sentem frágeis e doentes. Na opinião dele, este é um problema que tem início na família. "Os pais não devem apresentar o remédio como se fosse uma coisa ruim ou como um castigo", recomenda.

No caso de Isabelly e Rafael, a aversão vem de berço. A mãe de Isabelly, a gerente administrativa Arliete, 33 anos, lembra que era como a filha na infância. "Até hoje não gosto de tomar nenhum medicamento líquido. Prefiro comprimidos e injeção", diz. Já Rafael tem atitude contrária à de sua mãe, Lucimar, 44 anos. "Ela toma remédio para qualquer dorzinha de cabeça, não acho isso legal."

A recusa de Isabelly trouxe muitas dores de cabeça à família. O pai, Amarildo, 35 anos, passou a bola para a mãe depois de ver sua filha chorar, perder o fôlego e ficar roxa. "Já precisei enfiar goela abaixo mesmo", diz Arliete. A tática mudou há cerca de 30 dias, quando a pequena passou por uma suspeita de meningite. "Disse para a médica que ela não tomava remédio para febre de jeito nenhum. Daí ela me indicou o sabor de cereja", conta. Agora, quando Isabelly precisa usar algum tipo de medicação, o ritual começa uma hora antes do indicado pelo pediatra. "Eu vou tomando sozinha e aos pouquinhos", diz.

Para o geriatra Fraga Júnior, o médico deve informar os pacientes sobre os riscos de não tomar o remédio indicado. "Para reverter isso é preciso explicar, por exemplo, que se não usar o medicamento para o tratamento de glaucoma podera ter lesão do nervo óptico e até cegueira ou que a falta de um medicamento para reduzir a pressão alta poderá causar derrame", diz.

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