Sempre que viaja, o professor universitário Carlos Mello Garcias, 57 anos, obedece um roteiro imperdível: visita favelas. Já fez esse tour em Lisboa, Paris e Caracas sem contar as cidades brasileiras. Sonha, por exemplo, conhecer as palafitas de Manaus, para sua tormenta, ainda fora da lista. Não se trata de excentricidade. Há 21 anos, Garcias transformou seu trabalho como engenheiro que o obrigou a entrar em inúmeras ocupações para dar pareceres técnicos num projeto de vida.
O primeiro passo foi dado na Vila das Torres, ou Vila Pinto, como prefere chamá-la, em 1985. Logo que ingressou na PUCPR, onde hoje coordena o curso de Engenharia Ambiental, decidiu atravessar a ponte e iniciar uma atividade naquela que é a mais estigmatizada favela de Curitiba. Não "voltou" para casa até hoje. No dia em que conversou com a reportagem, o doutor em engenharia urbana analisava um projeto de mestrado sobre a vila.
A experiência, garante, lhe valeu. Em vésperas de publicar A Cidade sem Favela, numa parceria com a colega Samira Kauchakje, Garcias pode se dar ao luxo de dizer que viu ruelas e casebres a partir de dentro. É o que aconselha, inclusive, para que o caso das 800 ocupações não vire um filme de terror. "Curitiba se tornou modelo de urbanismo. Não pode perder a chance de agora se tornar a cidade que encarou as invasões e encontrou soluções criativas." Confira trecho da conversa.
Curitibano não gosta de ouvir dizer que a cidade tem favelas. Por quê?
Levou muito tempo para Curitiba se dar conta de que tinha favelas. O que a cidade tem é uma identidade diferente. Não temos morros aqui, por exemplo. Mas não importa a característica da ocupação: ali moram pessoas excluídas e é preciso oferecer soluções. Muitas vezes, a resposta é a desfavelização, por serem áreas de risco. Mas nem sempre. A grande saída continua sendo reurbanizar. Favela só é problema quando a sociedade é convencional.
O que o senhor sugere?
Admitir que a maior parte dos moradores das favelas empobreceu nas cidades. Que as ocupações se expandiram porque as políticas habitacionais falharam. E que há um problema de olhar. Qualificamos esses espaços como locais de risco e entramos ali para remover o que existe. É óbvio, o primeiro passo é sempre pensar no perigo. Mas quando todos os argumentos de remoção foram respondidos, o melhor é aplicar uma política urbanística adequada.
Há um método urbanístico a seguir?
Elaborei um modelo. O primeiro passo, numa invasão, é criar condições de circulação. As pessoas precisam conversar, trocar com a cidade, até perder a identidade favela. Quer um exemplo? A Avenida Guabirotuba, na Vila Pinto, não existia. Foi criada para abrir aquele espaço para a cidade. E abriu. Nenhuma favela nasce grande. Temos de desassociá-la de crescimento desorganizado o que numa cidade como Curitiba pesa mais. (JCF)



