
Árvores como o pinus tiveram uma época de sucesso em décadas passadas: usado na produção de papel, celulose e madeira para móveis, o pinus crescia rápido e era uma opção mais viável para o reflorestamento. Mas, por não ser originário do Brasil, se tornou uma grande ameaça à conservação de espécies nativas no Paraná, estado que conta com a maior área contínua de Mata Atlântica do país. No entanto, o poder público e a iniciativa privada no estado se tornaram pioneiros no desenvolvimento de programas para controle e erradicação de espécies exóticas invasoras.
Para a engenheira florestal Silvia Ziller, fundadora do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, o Paraná é o estado mais avançado em termos legais e no estabelecimento de procedimentos técnicos para a erradicação de espécies invasoras. Uma das primeiras ações do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) nesta direção foi o projeto de erradicação de pinus no Parque Estadual de Vila Velha. Em pouco mais de dois meses, foram retiradas cerca de 500 mil árvores, em parceria com a Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal do Paraná. No Parque Estadual do Monge e no Parque Estadual do Cerrado, iniciativas semelhantes à de Vila Velha também já começaram.
Serra do Mar
O Projeto Serra Nativa, desenvolvido pela empresa de papel e celulose Norske Skog Pisa, também é convergente ao programa do IAP e conta com o apoio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O objetivo da empresa, que fabrica papel imprensa, é recuperar uma área de 1,3 mil hectares (equivalente a 1,3 mil campos de futebol) pertencente à Fazenda Arraial, que fica na Serra do Mar, entre os municípios de São José dos Pinhais e Morretes.
Toda a fazenda, que pertence à empresa desde 2001, tem cerca de 10 mil hectares e faz divisa com a Área de Preservação Ambiental de Guaratuba, o Parque Estadual do Marumbi e o Parque Estadual do Pau Oco. Segundo o gerente do projeto, Rodrigo Ribeiro de Souza, entre as décadas de 60 e 70 do século passado a mata nativa da região foi toda derrubada para dar lugar à plantação de pinus. A derrubada da floresta foi, inclusive, incentivada pelo governo federal na época, por seu valor econômico. "Felizmente, as coisas mudaram. O cultivo de pinus é necessário, mas desde que manejado corretamente e em locais adequados ao seu plantio, para que ele não contamine a biodiversidade local", explica.
Etapas
O projeto será dividido em duas fases, como explica Ribeiro. A primeira etapa será de reabilitação da área e levará dois anos para ser concluída. As espécies exóticas serão retiradas do local e, nas áreas em que a vegetação natural não tem condições de se restaurar sozinha, será feito o plantio de mudas de espécies nativas. Estima-se o plantio de 250 mil mudas de dez espécies diferentes, entre elas a bracatinga e a canela-guaicá, além de pés de araçá, pitanga e outras árvores frutíferas.
A segunda fase será de monitoramento da região. Como os pinus conseguem se disseminar com facilidade, será preciso controlar a sua brotação. Essa etapa levará cerca de seis anos. "Acreditamos que dentro de 15 anos a vegetação da reserva estará completamente restaurada. A capacidade de regeneração das espécies nativas é muito boa. Boa parte da área terá condições de se restabelecer naturalmente", conta Ribeiro.
O projeto, totalmente autossustentável, está orçado em R$ 10 milhões. Ribeiro conta que a madeira das árvores retiradas está sendo vendida para as serrarias da região. A previsão é que cerca de 10 caminhões carregados de pinus começarão a deixar a reserva diariamente a partir desta semana. "Como em muitas áreas as espécies exóticas estão misturadas às espécies nativas, estamos estudando formas de causar o menor impacto possível. A ideia é aproveitar áreas já abertas, criar corredores e fazer cortes direcionados para que a queda das árvores afete áreas menores", explica a engenheira Silvia Ziller.
Silvia lembra ainda que a restauração da mata nativa beneficiará também a fauna local, principalmente depois da primeira fase do projeto. "A ocupação será gradativa, mas acredita-se que os mamíferos serão os primeiros a voltar a ocupar o local", afirma. No futuro, a Fazenda Arraial fará parte do Parque Nacional Guaricana, que também englobará duas outras fazendas que pertenciam ao extinto Grupo Bamerindus e foram repassadas ao Ibama pelo Banco Central. O novo parque terá 33,6 mil hectares.
Perigo
As espécies exóticas invasoras tanto animais quanto vegetais são reconhecidas como a segunda causa mundial de perda de diversidade biológica, atrás apenas para o desmatamento. Essas espécies, segundo Silvia Ziller, produzem mudanças e alterações nas propriedades ecológicas do solo, na absorção de nutrientes das espécies nativas, na estrutura dos ecossistemas e na distribuição da biomassa de uma área florestal. "Tanto plantas como animais exóticos invasores conseguem se reproduzir rapidamente e dominar a floresta, expulsando as espécies nativas e causando até a extinção da flora e fauna locais. Espécies como o capim gordura, por exemplo, contribuem para a disseminação de incêndios florestais. Há ainda as espécies que invadem as margens, diminuindo a disponibilidade de água. Chegam a secar nascentes e pequenos córregos", explica a especialista, que também é coordenadora do Programa de Espécies Invasoras para a América do Sul da ONG The Nature Conservancy.




