Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Ação social

A maternidade pode ser uma boa profissão

Mães sociais dão uma segunda chance para crianças abandonadas. Encontrar mulheres com o perfil correto para a tarefa, entretanto, não é nada fácil

Regina Eleuze Renaldi com quatro dos oito filhos atuais: “São anjos precisando da nossa atenção” | Dirceu Portugal/Gazeta do Povo
Regina Eleuze Renaldi com quatro dos oito filhos atuais: “São anjos precisando da nossa atenção” (Foto: Dirceu Portugal/Gazeta do Povo)

Foz do Iguaçu e Goioerê - Elas têm as mesmas tarefas diárias de qualquer mãe e dona de casa comum. Acordam cedo, fazem o café, arrumam os filhos, preparam as mochilas para a escola e acompanham as crianças até o ponto do ônibus. Na volta, a preocupação é com os afazeres domésticos e com o almoço. A supervisão das tarefas escolares toma parte da tarde, sem falar das reuniões na escola para acompanhar o desempenho dos filhos.

A diferença dessas mães é que elas são profissionais. Ganham salário para exercitar a maternidade. Sem ajuda dos maridos, já que não são casadas, nunca geraram filhos biológicos e são pagas para manter a casa e as crianças. "Ser mãe social é uma vocação. Tem de gostar de crianças, dos trabalhos domésticos, estar disposta a morar na Aldeia e abandonar a vida externa. Os filhos são de coração", resume o gestor da Aldeia Infantil SOS do Paraná, José Carlos Rodrigues.

Mas encontrar mulheres com esse perfil nem sempre é fácil. Por causa do excesso de responsabilidade, a Aldeia SOS Infantil, fundada em Goioerê em 1978, enfrenta dificuldade na contratação de novas mães. "O nosso maior problema é encontrar mulheres dispostas a abdicar da vida lá fora para dar atenção, carinho e amor a filhos que não são gerados por elas", ressalta Rodrigues, lembrando que uma das casas foi fechada e as crinças transferidas por falta de uma mãe social. "Precisamos de profissionais sempre. Temos quatro tias que estão passando pelo período de formação, mas temos algumas senhoras que já estão se aposentando."

A entidade atende cerca de cem crianças abrigadas de até 10 anos. Todos os filhos da Aldeia, com dez casas-lares, foram encaminhados por determinação judicial. "Muitas vezes, as crianças chegam com desnutrição profunda, com problemas psicológicos graves, rejeitadas, abusadas, criadas como animais, e as mães tentam reverter esse quadro", aponta Rodrigues.

Há 11 anos como mãe social, Regina Eleuze Renaldi, de 44 anos, já criou 19 filhos. Dos oito atuais, quatro são irmãos. "Eles são a minha vida", diz. "Quero o melhor para eles. São anjos precisando da nossa atenção." Ela abandonou tudo para se dedicar aos filhos da Aldeia. "No começo, pensei que não suportaria, mas Deus me guiou." Regina não desgruda dos filhos nem mesmo durante as 36 horas de folgas semanais a que tem direito. Sai para passear e fazer compras com as crianças.

Batalha social

Instituída oficialmente no Brasil em 1987, a profissão de mãe social surgiu ainda na década de 1970, nos moldes do que é hoje. O modelo criado pelo médico austríaco Hermann Gmeiner, fundador da organização Aldeias Infantis SOS, nasceu para acolher meninos e meninas que perderam os lares e os pais durante a Segunda Guerra Mundial. Mais de 60 anos depois, milhares de mulheres espalhadas pelo mundo acolhem vítimas de outra guerra, tão traumatizante quanto a bélica: a batalha social.

Escolhidas por um processo de seleção como em qualquer entrevista de emprego, a profissional precisa, entre outros requisitos, querer ser mãe, gostar de ser dona de casa e ter disponibilidade para se dedicar em tempo integral às crianças, além de ser uma pessoa carinhosa e estruturada emocionalmente. Em contrapartida, tem o registro na carteira de trabalho, recebe salário e goza de todas as garantias trabalhistas como férias e 13º. As despesas da casa e das crianças são mantidas pela entidade.

"Apesar da preocupação de contratarmos pessoas que preencham todas as exigências, com o tempo muita coisa muda, a ponto de termos de dispensar ou delas mesmas pedirem demissão", conta a diretora da Fundação Nosso Lar, em Foz do Iguaçu, Ivânia Ferronatto. A instituição tem no seu quadro de funcionários seis mães sociais, responsáveis no total por 55 crianças e adolescentes.

O modelo adotado difere em alguns pontos, de acordo com a filosofia de cada entidade contratante, como o grau de escolaridade. Em algumas, a mulher precisa obrigatoriamente ser solteira, viúva ou divorciada. Nas casas, cuidam sozinhas de até dez crianças e adolescentes – número máximo estabelecido pela Lei Federal 7.644/87, que regulamenta a atividade – de 0 a 18 anos. Em outras, a presença masculina, como figura paterna, é permitida e tida como necessária. De mãe social em uma casa-lar, a situação ganha a dimensão de família social.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.