
Sob um céu nublado, peregrinos nipo-americanos se sentam em cadeiras portáteis diante de uma paisagem vasta, plana e poeirenta, cuja monotonia é quebrada somente por duas montanhas de formato estranho que se levantam para o leste e o oeste. Para as almas das centenas de mortos enterrados em um cemitério há muito desaparecido, um ministro budista oferece orações e dobra um sino, por mais que sua invocação quase se perca com os ruídos de um avião monomotor que decola de um aeroporto próximo.
Cerca de 400 nipo-americanos fizeram uma jornada que durou de 30 de junho a 3 de julho para esse canto remoto da Califórnia, nos Estados Unidos, onde 18.789 pessoas de ascendência japonesa foram encarceradas durante a Segunda Guerra Mundial. Neste ano registrou o maior número de participantes já presentes nessa peregrinação de quatro dias, que ocorre quase anualmente, próximo à data de 4 de julho, segundo os organizadores. Eles reforçam que, conforme diminui o número de sobreviventes desse campo, há uma urgência cada vez maior de compreender e reinterpretar o que tem sido um subcapítulo oculto da história dos Estados Unidos.
Dos dez campos de internação onde cerca de 120 mil nipo-americanos foram confinados durante a guerra, foi o de Lago Tule que concentrou aqueles que foram considerados "desleais", os que responderam com um "não" às duas questões críticas de um teste de lealdade administrado pelo governo federal norte-americano.
Após o fim da guerra, os "não-não", como ficaram conhecidos, não somente sofreram para encontrar um lugar para eles na sociedade convencional, como também foram vistos com suspeita pelos outros nipo-americanos, cuja garantia de lealdade unificada e procura por uma maior aceitação poderiam ser ameaçadas pelos não-não.
Durante décadas, os próprios não-não jamais explicaram o que havia por trás de suas respostas. A maioria, na verdade, jamais sequer comentou qualquer coisa sobre Lago Tule.
"Eu vim aqui porque eu quero saber o que os meus pais nunca me falaram sobre Lago Tule", disse James Katsumi Nehira, de 68 anos, que foi de ônibus até lá com sua filha, Cherilyn, de 37. "Eles foram apartados socialmente e constrangidos por terem passado pelo Lago Tule. Eu nunca falei sobre isso. Eu honrei a vontade de meu pai até ele falecer".
História
No começo de 1943, cerca de um ano após os nipo-americanos serem reunidos nos campos, as autoridades dos EUA, procurando falantes da língua japonesa no exército, distribuíram um questionário de lealdade a todos os adultos. A questão número 27 perguntava aos homens com idade para o alistamento se eles estavam dispostos a servir nas forças armadas. A questão número 28 perguntava se eles juravam "lealdade incondicional aos Estados Unidos" e se "renegavam qualquer forma de lealdade ou obediência ao imperador japonês ou qualquer outro governo estrangeiro".
Qualquer resposta que não fosse um simples "sim" a essas duas questões se traduziria em deslocamento para Lago Tule, que, de todos os campos, se tornou o mais fortemente guardado. Tanques do Exército ficavam estacionados lá, reforçando a segurança providenciada por 28 torres de guarda e uma cerca de arame farpado de 2 metros de altura.
Japoneses foram pressionados dos dois lados
Para os pais de George Nakano, 76 anos, ex-membro da assembleia do estado da Califórnia, o não-não representava um ato precoce de desobediência civil. Nakano mostrou uma pasta contendo uma cópia das respostas de seus pais ao questionário de lealdade. Quando lhes pediram para jurar lealdade aos EUA e renegá-la ao Japão, eles responderam: "Não tomamos nenhuma decisão por causa da evacuação obrigatória, injusta e inconstitucional, desses cidadãos de ascendência japonesa e por conta do preconceito e discriminação racial existentes".
Outros sofreram pressão para renunciarem sua cidadania americana pelo pequeno, porém influente, grupo de extremistas pró-Japão que se organizaram num grupo chamado Hoshi Dan. Eles eram os responsáveis pelas escolas de japonês dentro dos campos, onde, de acordo com dois ex-alunos, os estudantes começavam o dia fazendo reverência ao sol nascente, o símbolo do Japão. Na aula, eles aprendiam canções militares japonesas.
Tradução: Adriano Scandolara.



