
É difícil afirmar com precisão quando nasceram o carnaval e o samba. Também não é fácil dizer quem o criou e onde foi inventado. Mas este não é o caso do carnaval em Tibagi, que tem personagem, data e local de sua fundação. Foi há exatos 100 anos, quando o farmacêutico Manoel da Costa Moreira, conhecido como Cadete, teve a ideia de enfeitar seu carroção e, inexplicavelmente alegre, deu uma volta com amigos na atual Praça Edmundo Mercer, no centro da cidade. Foi o big bang para o carnaval de Tibagi.
Neste rincão, a história oral narra um carnaval autêntico, de raiz espontânea, capitalizado por uma população em que 70% são descendentes de negros. Eles foram para lá, primeiro obrigados cerca de 300 pessoas rumo à escravidão na Fazenda Fortaleza, de José Félix. Já nas décadas de 20 e 30, um fluxo de 6 mil baianos chegou decidido a enriquecer no garimpo dos diamantes, que brilhavam em meio ao cascalho do Rio Tibagi e foram descobertos em 1754. A migração fortaleceu o carnaval, pois trouxe, além de seu suor, a alegria.
A história é contada no Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior, que fica ao lado da principal praça da cidade. O guia é o historiador autodidata Nery Aparecido Assunção, coordenador da casa. Vasculhando os arquivos de documentos e fotos, ele levantou a história do centenário. "Quem começou tudo foi o Cadete, que tinha esse nome por ter servido no Rio de Janeiro. Ele era farmacêutico e seresteiro", ensina. Cadete chegou a gravar um disco de samba na época, o primeiro cantor da cidade. Conforme Nery, a saída dos corsos pelas ruas virou tradição a partir da iniciativa. "Anos depois, os baianos fizeram o que seria o primeiro carro alegórico, em forma de uma barca, representando o garimpo", conta, acompanhando a sequência de fotos exposta no museu.
É a tradição oral que fornece os relatos para reconstituir as décadas passadas. "É difícil hoje separar Tibagi do carnaval, desde que surgiu, até hoje", acredita o tibagiano Jocemar Assunção, o Marzinho, folião desde os anos 70. Seu pai, Antônio "Tiquinho" Assunção, integrou a banda Os Diamantes, que animou carnavais e participou de bailes e serestas às margens do rio, tocando marchinhas, samba e jovem guarda. Hoje ele ajuda a realizar a festa como uma herança. "As pessoas cobram mais de mim do que do meu pai, para fazer um carnaval dos velhos tempos. Porque o pessoal mais velho perdeu espaço para os mais jovens e para os turistas", conta Marzinho.
Mascarados
"Quando eu tinha dez anos, minha mãe dizia não vai na rua que os máscaras correm atrás e te pegam. E eles corriam mesmo, até você voltar pra casa", relembra Nery Assunção. Nos anos 60 e 70, eram eles que comandavam a folia, mascarados como diabos e outros bichos feios. "Nossa, como era divertido! Íamos para brincar, se divertir. Hoje, a maioria não vai com o objetivo de antigamente", suspira Maria Rita Taques, princesa do carnaval nos anos 70.
A saudade fica por conta especialmente do duelo entre brancos e negros nos clubes Tibagiano e Estrela. Separados no resto do ano, eles se visitavam nas noites de baile. "Tinha muita rivalidade. Muito mais animado era o Estrela, que chegava a balançar", compara Maria Rita. "Mas mesmo que tentem resgatar aquele carnaval, só vão resgatar as lembranças. Do jeito que era, esse não volta mais. Não tinha alto-falante, era tudo no gogó. A gente pulava e cantava junto com a banda", relembra.
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Linha do tempo
Do carroção aos desfiles "profissionais":
1910 Cadete enfeita um carroção e dá a volta na quadra da matriz.
1930 Baianos chegam à cidade para garimpar no Rio Tibagi.
1931 Eleita a primeira rainha do carnaval, dona Santinha.
Anos 40 Carros começam a fazer parte do corso.
Anos 50 Época dos desfiles de rua.
Anos 60 e 70 Clubes Estrela da Manhã e Tibagiano fazem carnavais; os públicos só se visitam durante o festejo e no resto do ano é proibido entrar no clube oposto. Mascarados como diabos, os tibagianos vão às ruas assustar as crianças.
Anos 80 Desfiles de rua, com fantasias e carros alegóricos.
Anos 90 O corso é retomado e os desfiles de rua ganham mais força.
Época atual profissionalização da festa, que se tornou a maior folia do Paraná: 70 mil visitantes, maior janela turística da cidade.




