
O nome oficial é Igreja de São Miguel Arcanjo, mas todos a conhecem como a Igreja de Mallet. A estrutura, bastante deteriorada, foi restaurada e, neste domingo, uma cerimônia especial vai devolvê-la renovada à comunidade da zona rural de Mallet, na região Sul do Paraná. Uma missa a ser celebrada por dom Volodemer Koubetch em rito católico-bizantino (com o padre de costas para os fiéis) marcará a reinauguração e o lançamento do livro Igreja São Miguel Arcanjo Restauração Arquitetônica, produzido pelo Instituto ArquiBrasil, de Curitiba.
Localizado no topo da Serra do Tigre, no distrito de Dorizon, o prédio é cercado pela mata nativa e rodeado de casas dos descendentes eslavos que permaneceram na região desde a fixação dos antepassados vindos da Ucrânia e da Polônia. A igreja foi inaugurada em 1903 e desde então a falta de manutenção deixou-a à beira da ruína. A pressão da comunidade ajudou a mudar essa história. Em 2009, projeto apresentado pela Arquibrasil ao Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, obteve o patrocínio para a restauração.
Foram investidos R$ 1,1 milhão na recuperação da igreja. O valor foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Durante dois anos e sete meses, a igreja recebeu uma nova estrutura: o telhado foi recuperado, as pinturas interna e externa foram refeitas, a entrada ganhou um novo ícone do padroeiro (São Miguel Arcanjo), decorado com tecidos artesanais em estilo ucraniano. Toda a parte externa foi restaurada.
O arquiteto da ArquiBrasil Roberto Martins lembra que a restauração da igrejinha contou com alguns imprevistos: o excesso de chuva e o tempo de espera para o corte do pinheiro que revestiu a cobertura do imóvel.
Por dentro, a igreja ganhou ícones novos (desenhos de passagens bíblicas), pintados pela irmã Veronica Nogas com ajuda da assistente Marcia Taradenko. A pintura começou em julho e, na semana anterior à inauguração, o trabalho seguia em ritmo intenso. "Estamos trabalhando das 7 às 23 horas", comentava a irmã, ao som de música religiosa. O trabalho é especial por ser a primeira grande obra assinada por ela no Brasil desde o curso de mestrado em Arte Sacra feito na Ucrânia.
A igreja estava fechada à comunidade e as missas eram realizadas no salão de festas da paróquia. Mas quem passava pelo terreno para visitar o cemitério localizado ao lado da igreja não abria mão de dar uma espiada nos últimos retoques da obra. "Achei muito bonito, não esperava que fosse ficar assim", disse a dona de casa descendente de poloneses Verônica Michtal.
Patrimônio
Tombada em 1982 pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, a Igreja de São Miguel Arcanjo pode virar patrimônio nacional. A superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já encaminhou a Brasília o processo de tombamento do prédio.
"A possibilidade de ela ser tombada é total", garante o superintendente José La Pastina Filho, lembrando que o imóvel é uma relíquia construída pelos imigrantes ucranianos no Brasil. "A igreja é emblemática e reúne todas as condições de ser reconhecida como um bem cultural e histórico da nação brasileira", afirma.
A primeira leva de imigrantes ucranianos chegou ao Brasil por volta de 1891 e a grande maioria desembarcou no Paraná para trabalhar na agricultura. Até a década de 1920, pelo menos 50 mil imigrantes haviam chegado ao país. Neste ano, foram comemorados os 120 anos da imigração ucraniana no Brasil.
Além do processo de tombamento da Igreja de Mallet, o Iphan também analisa o tombamento da Igreja da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, construída em 1902 em Antônio Olinto, na Região Central do Paraná. A igreja, tombada como patrimônio estadual em 1999, também é um marco da religiosidade ucraíno-católica no Paraná.



