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Sem luz

A vida no escuro

Falta de água, medo nas ruas, paralisação de metrôs. Nas grandes cidades, as horas de apagão causaram problemas a muita gente

Passageiros do lado de fora de uma estação do metrô em São Paulo: com os trens parados, muita gente teve dificuldade para voltar para casa | Mário Miranda/ Reuters
Passageiros do lado de fora de uma estação do metrô em São Paulo: com os trens parados, muita gente teve dificuldade para voltar para casa (Foto: Mário Miranda/ Reuters)

São Paulo e Rio de Janeiro - Abastecimento de água interrompido; passageiros sem ter como voltar para casa; telefones mudos; delegacias sem registrar ocorrências; hospitais às escuras; assaltos e acidentes. A noite de 10 para 11 de novembro entrará para a história como um momento de caos, que começou por volta das 22 horas de terça-feira, quando teve início o apagão que atingiu 18 estados brasileiros e parte do Paraguai. Ontem foi o dia de contar os prejuízos. Só no estado de São Paulo, 20 milhões de pessoas ficaram sem água. Por volta das 16 horas de ontem, 2,5 milhões de consumidores ainda estavam desabastecidos no estado.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que a falta de energia provocou o desligamento de todas as estações de tratamento da companhia por volta das 22h15 de terça-feira. Na manhã de ontem, a empresa operava com apenas 65% de sua capacidade, e cerca de 6,5 milhões de pessoas continuavam sem água. A previsão é que o abastecimento seja normalizado somente na manhã de hoje.

No Rio de Janeiro, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) usou caminhões-pipa para abastecer o Hospital Salgado Filho e o Hospital Geral do Bonsucesso. Em toda a cidade, 15 caminhões-pipa fizeram o abastecimento de órgãos públicos. Segundo a Cedae, todos os sistemas de abastecimento foram desligados na noite de terça-feira e cerca de 10 milhões de pessoas foram afetadas. Por volta das 12h30 de ontem, cerca de 1 milhão de consumidores continuavam sem água. A previsão é de que o abastecimento seja normalizado em 48 horas. No Espírito Santo foram usados caminhões-pipa para abastecer hospitais, postos de saúde e escolas.

Trânsito

Era meia-noite e a Avenida Paulista, no coração de São Paulo, ainda tinha congestionamento nos dois lados. Os órfãos do metrô, que parou de funcionar, já planejavam dormir na rua. A frase mais ouvida era "não sei o que fazer". Ao léu, pe­­destres caminhavam no escuro. "Sou totalmente dependente do metrô. Não tenho como falar com ninguém em casa. Vou passar a noite aqui", disse a estudante Dil­ma Anjos, 26 anos, que mora em Arthur Alvim, na zona leste. O mé­dico Guilherme Leone, de 26 anos, que mora na Lapa, na zona oeste, pensava em dormir em sua clínica, na Alameda Santos. "Vou ter de usar a maca." Bares e restaurantes, que ficariam abertos até a 1 hora, fecharam entre 22h45 e 23h30.

O apagão obrigou passageiros de trem da capital paulista a andar nos trilhos para buscar refúgio em uma estação de trem da Compa­nhia Paulista de Trens Metropo­litanos (CPTM). "Um maquinista disse que não havia previsão de a energia voltar. Todos desceram e voltaram andando", disse o técnico de segurança no trabalho Re­­nato de Jesus Santos, 30 anos.

Com metrô e trens parados, os pontos de ônibus ficaram lotados e os táxis eram disputados a tapa. Tumultos foram registrados na Estação Brás e no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Na Polícia Militar, apenas um gerador estava funcionando para atender aos chamados do 190, o telefone de emergência. A rede da Polícia Civil ficou fora do ar. Ninguém conseguiu registrar boletim de ocorrência. Somente os rádios de rede funcionavam, à base de gerador.

UTI

Em Bauru, no interior de São Paulo, havia seis bebês na UTI e res­­tavam três horas de bateria para os aparelhos conectados a eles quando as luzes da maternidade Santa Isabel se apagaram. A situação se repetiu em outros hospitais do país, mas o episódio tinha um agravante: a maternidade não tem gerador.

Cinco crianças, incluindo três recém-nascidas, foram para o Hospital de Base, na cidade. Para um bebê de 20 dias, a solução foi emprestar o gerador de uma emissora de TV. "Ele tem doença renal aguda grave, por isso preferimos mantê-lo’’, disse o diretor-clínico do hospital, Sérgio Henrique Antônio. Os bebês passam bem, mas não retornaram para a maternidade porque a diretoria teme um novo apagão. O gerador emprestado continua no local.

O Sindicato dos Médicos do Rio irá pedir ao Ministério Público Estadual que investigue as mortes ocorridas nos hospitais do estado durante o apagão. Segundo o presidente da entidade, Jorge Darze, que diz ter conversado com profissionais do hospital estadual Carlos Chagas, na zona norte, há "fortes suspeitas’’ de que três mortes na unidade tenham sido causadas pela falta de energia.

A Secretaria Estadual de Saúde nega que haja relação entre as mortes e o blecaute.

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