Cerca de 800 motoristas, além de dirigir, fazem a cobrança da passagem de ônibus dos usuários que não utilizam o cartão-transporte nos 146 micro-ônibus que trafegam por Curitiba. O projeto de lei que acabava com o que o Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc) considera um acúmulo de funções, aprovado pelos vereadores em primeira votação na terça-feira, foi arquivado, já que uma lei de 2001 permitiu à Urbs não utilizar cobradores em micro-ônibus.Para acumular as funções, os motoristas recebem 70 centavos a mais por hora, o que soma cerca de R$ 120 em um mês. "Um aumento mais significativo poderia até ser dado, mas não compensaria o nível de estresse que eles enfrentam durante o trabalho", diz o presidente do Sindimoc, Anderson Teixeira.
Ele argumenta que o acúmulo de funções fere o artigo 252 do Código de Trânsito, que define como infração o ato de dirigir "com apenas uma das mãos". "Fazer a cobrança é o mesmo que atender ao celular, pois desvia a atenção do trânsito: além de dirigir, ele precisa se preocupar com o troco, com os passageiros que estão entrando e com o horário a cumprir."
Na avaliação do arquiteto Carlos Hardt, do programa de mestrado e doutorado de Gestão Urbana da PUCPR, a dupla atividade afeta todo o sistema de tráfego. "Se o motorista trabalha em uma linha com grande demanda de passageiros isso é inadequado, porque atrasa muito o tempo de viagem e a velocidade média do veículo diminui. Caso ele queira recuperar o tempo perdido, colocará em risco os passageiros e os demais condutores."
O projeto que proíbe a dupla função foi retirado da pauta. A saída será fazer uma emenda à Lei 10.333, que permitiu à Urbs retirar o cobrador dos micro-ônibus. Se for aprovada na Câmara, a emenda seguirá para sanção ou veto do prefeito Luciano Ducci.
Bilhetagem
Para que os motoristas possam trabalhar sozinhos em melhores condições, Curitiba terá de repensar a eficiência de seu sistema de bilhetagem eletrônica, que hoje é utilizado por menos de 300 mil dos cerca de 1 milhão de usuários. Segundo a assessoria do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros (Setransp) de Curitiba, recolocar cobradores nessas linhas encareceria o serviço.
No Brasil, o trabalho de motoristas sem o auxílio de cobradores é utilizado em Goiânia. Os funcionários da cobrança foram absorvidos em áreas administrativas. "Implantamos o sistema em 1998. Para andar de ônibus é preciso comprar um bilhete em pontos de venda. As vendas a bordo do veículo são muito raras e quando acontecem tem que ser justificadas pelo motorista", diz José Ferreira de Jesus, do Setransp de Goiânia.



