
O Brasil vive um descompasso entre o que se cobra de um professor e a preparação que se oferece a ele. A maioria dos programas de formação continuada dos docentes tem baixo impacto na melhoria do ensino e não proporciona a transformação que a educação brasileira precisa. Essa é a conclusão de um recente estudo do Instituto Ayrton Senna e do The Boston Consulting Group (BCG). Mas por que essa formação é tão importante? Porque bons professores possibilitam melhores resultados na vida dos seus alunos. Essa é uma conclusão científica.
Economistas das universidades de Colúmbia e Harvard avaliaram o impacto do professor no futuro dos alunos. Jonah Rockoff, Raj Chetty e John Friedman acompanharam 2,5 milhões de alunos durante 20 anos. A partir dos testes do governo para avaliar os docentes, compararam as classes dos mestres melhor avaliados com as daqueles com menores notas e calcularam o reflexo disso na vida do estudante. Concluíram que um aluno que teve bons professores acumula na vida um ganho extra de US$ 52 mil (R$ 115 mil), se comparado aos que não tiveram igual sorte.
Embora não haja estudo parecido no Brasil, em tese o resultado guardaria similaridades com a realidade local. Ao final, o economista Rockoff chega a uma conclusão válida tanto lá como cá: um ótimo professor vale muito mais do que nós pagamos a ele. Antes fosse só esse o problema. Salário baixo é só mais um dos obstáculos que põem freio a um ensino de melhor qualidade. A falta de políticas públicas de formação continuada de professores, tão necessária à melhoria na educação do país, se sobressai nos resultados da pesquisa do Instituto Ayrton Senna com o BCG.
Restrições
Entre novembro de 2012 e março de 2013, foram entrevistados por meio eletrônico em todo o país 2.732 secretários de Educação e supervisores de ensino (2% do total), diretores de escolas (51%), coordenadores pedagógicos (18%) e professores (26%). Das respostas se conclui que a carência de incentivos formais e a baixa aplicabilidade do conteúdo das ações oferecidas estão entre os principais desafios da formação continuada no Brasil. Sete entre 10 entrevistados relataram que as atividades usadas na sua escola/rede são de caráter coletivo e fora da sala de aula.
A restrição de acesso a material didático, por exemplo, é a ação mais mencionada pelos entrevistados, seguida por escassas reuniões pedagógicas e participação em eventos para aperfeiçoamento. O estudo aponta ainda que há poucas ações específicas e práticas, que se revelam como as mais eficazes e usadas dentre as redes de ensino nacionais e estrangeiras consideradas referência em educação. Iniciativas como a mentoria, por exemplo, foram relatadas por menos de 2% dos profissionais brasileiros entrevistados.
A pesquisa conclui que esse enfoque em práticas conjuntas e distantes do cotidiano escolar resulta em ações de baixa eficácia. Por isso, de acordo com o estudo, é preciso que o professor coloque em prática o que aprendeu nas ações formativas, além de poder contar com seus colegas na escola e na secretaria de educação para conversar, trocar experiências e receber uma avaliação do seu trabalho.
"Nos países que estão no topo da educação mundial, como Finlândia, Cingapura e Coreia do Sul, o professor recebe formação sólida, que dialoga com a prática da sala de aula. Esse cuidado é essencial para a formação das gerações futuras", diz o diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. Na avaliação do BCG, a formação continuada consiste em desde capacitar o professor em conteúdos mais específicos até ajudá-lo com coaching, prática em que o docente mais experiente observa a aula e oferece feedback ao mais jovem.
Paraná carece de programa de qualificação
O Paraná não dispõe de um programa eficaz de formação continuada de professores, aponta o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato). O estado já teve várias ações voltadas à atualização do professor, o que não tem se repetido no atual governo. "A Secretaria [de Educação do estado] não tem um projeto de formação continuada", avalia a secretária educacional da APP-Sindicato, Walkíria Mazeto.
Na prática, em 2014 os professores da rede pública estadual terão apenas sete dias de formação continuada, resumidos à semana pedagógica pouco antes do início das aulas. E quem tem ministrado os cursos muitas vezes são os próprios docentes da escola, sem contar com alguém de fora para fazer a mediação do conhecimento. Ou seja, as ações de semanas pedagógicas partem das próprias escolas.
A APP-Sindicato observa um esvaziamento dos temas teóricos e pedagógicos (só neste ano foram enviados às escolas alguns textos teóricos para debate), o que leva a um esvaziamento também da formação continuada. A maioria dos encontros e seminários que o estado promoveu foi com recursos federais. "De planejamento estadual não houve quase nada", constata Walkíria.
Para ela, o mérito deste governo foi manter o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), criado em 2008, no qual o professor tem licença integral remunerada de um ano para estudar e fica liberado de 25% da jornada de trabalho no segundo ano. Hoje, cerca de 500 professores estão fora da sala de aula para cursar mestrado ou doutorado. Segundo Walkíria, ainda não há uma medição para avaliar os ganhos educacionais, mas empiricamente dá para perceber que melhora o desempenho do professor.



