Alunos do 5.º ano do curso de Direito Noturno da Universidade Federal do Paraná (UFPR) protocolaram, na última segunda-feira, um pedido de questionamento de conduta e afastamento do professor Nílton Bussi, acusado de fazer comentários racistas em sala de aula no dia 4 de abril. De acordo com os estudantes, ele teria afirmado ser a favor das cotas para negros, índios e "toda a macacada". A declaração foi considerada uma ofensa por 51 dos 70 alunos da turma, que fizeram um abaixo-assinado pedindo providências da direção do curso.
"O curso de Direito deve ter uma postura intolerante contra a intolerância", afirma o presidente do Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS), Renê Toedter, que estava presente na aula, da disciplina de Direito Processual Penal. Além da afirmação sobre as cotas raciais, o professor é acusado de destratar uma aluna que questionou o comportamento dele ao fim da aula. "Como meu avô é negro, eu me senti diretamente ofendida, porque atinge a minha família. Eu queria pedir que ele se desculpasse, mas não consegui falar com ele", conta Carolina Gabriele Pinto, 22 anos. Segundo a universitária, o professor se negou a discutir o assunto. Como a política de cotas da UFPR foi criada há dois anos, não há cotistas na turma. A reportagem tentou contato com o professor, mas não obteve retorno.
Macacos
No documento apresentado pelo Centro Acadêmico à direção, os alunos afirmam que a comparação de estudantes cotistas a um grupo de macacos é "um absurdo quando propalado à boca miúda, e absurdo maior quando expressado por um professor universitário no exercício de sua cátedra". Eles requerem da direção do curso a instauração de um processo administrativo e o afastamento de Bussi da disciplina. Segundo o diretor da Faculdade de Direito da UFPR, Luiz Alberto Machado, o professor pode até ser desligado da instituição. "Ele recebeu três dias para apresentar uma justificativa. Se optarmos por instaurar um processo administrativo, ele terá novamente o direito de defesa. É um processo mais demorado", explica.
Machado afirma que as acusações dos alunos são gravíssimas, mesmo que não houvesse por parte do professor a intenção de ofender os estudantes. "No Direito Penal, não importa a intenção de atingir o fim, mas o que a pessoa fez. Ela deve pensar para falar e arcar com as conseqüências do que diz", afirma o diretor do curso.
O professor de Direito da Unibrasil, Evandro Piza, especialista em racismo, prefere não comentar o caso, mas afirma que em outras instituições a faculdade tomou para si a responsabilidade de discutir o problema. "Situações assim refletem a incompreensão sobre o assunto. Deve haver discussão e conscientização dos funcionários sobre a política da universidade", propõe. A socióloga Marilene Garcia de Souza, vice-presidente do Instituto de Pesquisa sobre Afrodescendência (Ipad), tem opinião semelhante. "A universidade precisa discutir o racismo internamente", diz. Segundo Marilene, estudos indicam que o professor tem um papel essencial em posições contrárias ou de reforço ao racismo. "A universidade não pode trabalhar com um sistema de cotas para negros sem conscientizar os funcionários da importância da entrada destes estudantes na universidade e da postura dos professores em relação ao assunto", argumenta.



