
"Ela é como uma criança. Hoje cuido dela como ela cuidou de mim." A frase é da professora de História Hilda Maria Oliveira, que há quatro descobriu que a mãe, Theresinha, 76 anos, tem a doença de Alzheimer. De lá pra cá, a vida de Hilda mudou: os cuidados com a mãe são diários e intensivos. Theresinha não fala mais, precisa de ajuda para ir ao banheiro, não fica sozinha em casa. "Como ela não conversa, é difícil a gente saber o que ela está sentindo. É muito doloroso para a família", conta.
Na doença de Alzheimer, mais do que o paciente, que muitas vezes não tem noção do que está acontecendo, a família é quem sofre. Cuidar de uma pessoa querida que aos poucos vai perdendo a independência, a memória e a capacidade cognitiva é um processo sofrido e desgastante. "A gente quer dela por perto, em casa. Tratamos ela com todo carinho e jamais pensamos em colocar em alguma clínica. Mas é difícil encontrar uma pessoa qualificada para ajudar nos cuidados", comenta Hilda.
Hoje, data em que se lembra o Dia Nacional do Alzheimer, a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) realiza em Curitiba e em outras 14 cidades uma campanha para alertar sobre a doença com o tema "Paciente Cuidador Médico. Alzheimer, todos estão envolvidos". Na capital paranaense, a campanha ocorre no Shopping Estação, das 10 às 22 horas.
Para o coordenador do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da ABN, Paulo Caramelli, embora a divulgação de informações sobre a efermidade tenha aumentado nos últimos anos, ainda existe muito desconhecimento por parte da população e dos próprios profissionais da saúde. "Muitas vezes os sintomas da doença, especialmente nas fases iniciais, são considerados como naturais do envelhecimento, o que em muitos casos retarda o diagnóstico e o início do tratamento", afirma.
Segundo estimativas da ABN, com base em índices do IBGE, daqui a dez anos o Brasil terá uma população idosa (com mais de 60 anos) de quase 24 milhões de pessoas. Hoje, a população com mais de 80 anos, na qual a freqüência da doença chega a 15%, é de 1,5 milhão. Em uma década, deve saltar para 2,4 milhões. "Esse aumento no número de idosos deve representar um grande salto na prevalência da doença daqui para frente", alerta.
A doença de Alzheimer é a causa mais freqüente de demência em idosos, correspondendo a mais de 50% dos casos desta faixa etária. As causas da doença ainda não são conhecidas. Sabe-se que o Alzheimer acontece devido ao acúmulo de determinadas proteínas no cérebro. "A parte do cérebro afetada é o lobo temporal; essa região é responsável pela memória", explica Ricardo Nitrini, coordenador do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da USP. Com o avanço da doença, os neurônios vão perdendo as ramificações e a capacidade de fazer conexões. "A doença é menos freqüente em pessoas com escolaridade mais alta porque elas têm o cérebro mais estimulado e conseguem encontrar alternativas para a transmissão das informações", explica. Além de exercitar a mente, ter atividades físicas, boa alimentação, sono tranqüilo e hábitos saudáveis como não fumar e beber com moderação são atitudes que ajudam a evitar a doença.
Embora não haja cura, o Alzheimer pode ser controlado. "É muito importante que a família fique atenta aos sintomas e, percebendo que a pessoa anda esquecida ou confusa, marque uma consulta. Até porque existe uma série de tipos de demência além do Alzheimer e alguns deles são reversíveis", alerta o médico neurologista e coordenador da campanha no Paraná, Luiz Carlos Benthien.



