
O filme Julie & Julia (assista ao trailer e veja as fotos) mostra um tanto da vida de Julia Child (1912-2004), a cozinheira que se tornou uma referência na culinária americana mais ou menos como a Ofélia Anunciato, estrela do programa A Cozinha Maravilhosa da Ofélia, na brasileira.
A história cria um paralelo entre o casamento de Julia nos anos 1940 e o de uma jovem que vive nos 2000, de nome Julie Powell.
Embora seja uma comédia romântica escrita e dirigida por Nora Ephron a mesma de Harry e Sally Feitos um para o Outro e Sintonia de Amor , a produção levou o jornal The New York Times a discutir os percalços e as alegrias do casamento.
O que parece ter surpreendido em Julie & Julia que deve estrear no Brasil até o fim deste mês foi o fato de uma senhora já com seus 60 anos de idade, sustentando um relacionamento de décadas, ter uma vida sexual de fazer inveja à jovem Julie, ainda nos seus 30 anos.
Concordem ou não, o sexo é usado como indicador para se avaliar casamentos. A lógica funciona assim: quanto melhor e mais frequente, mais feliz é a relação.
A reportagem procurou ouvir homens e mulheres que passaram anos ao lado de um mesmo companheiro(a) a fim de saber o quanto a ação na cama é importante para uma relação duradoura ou se existe algo que compense a eventual (e, para muitos, inevitável) ausência de tesão.
Todos os entrevistados só aceitaram falar sobre suas intimidades com a condição de não terem seus nomes citados no jornal. E isso parte tanto de quem diz viver um casamento "maravilhoso" quanto daqueles que lamentam a falta de interesse sexual da parceira (reclamação mais comum na ala masculina).
Para resolver a questão do anonimato, serão usados nomes falsos, emprestados de astros do cinema americano afinal, foi um filme que gerou a reportagem.
Gary Cooper tem 72 anos e, apesar de ter se aposentado, ainda trabalha no comércio. Ele está casado há 38 anos, teve duas filhas e uma delas ainda mora com os pais. A pergunta "de homem para homem" só veio depois de vários dias de conversa: como é o sexo depois de tanto tempo juntos?
"Ah, é fraco", diz Cooper. "Às vezes, ficamos seis meses ou mais sem fazer. Não dá vontade. A mulher fica mais distante, só quer saber dos netos." Ao longo da conversa, ele admitiria que o seu interesse em sexo também diminuiu com a idade o baque maior acontecendo por volta dos 65 anos.
"Eu vejo as mulheres bonitas na rua e até penso que gostosa, mas não tenho mais a vontade que eu tinha antes. Eu chego em casa depois do trabalho e nem penso em sexo", diz. Para Cooper, ser fiel é uma balela e a longevidade do casamento depende de tolerância. "Todo mundo trai de alguma forma, não há como evitar", diz.
Durante um baile para a terceira idade no clube D. Pedro II, Humphrey Bogart e Lauren Bacall, 57 e 44 anos, explicaram que o sexo ruim foi um dos fatores para se separarem no passado. "Ela viveu um casamento de 14 anos sem nunca ter tido um orgasmo", disse Bogart, se desculpando com Lauren por revelar algo íntimo.
Bogart foi casado duas vezes. Ficou viúvo da primeira mulher e viveu mais de duas décadas com a segunda. Disse que demorou dois anos para ajudar sua atual companheira a descobrir o prazer. "Eu achava que isso (o orgasmo) não existia", disse Lauren.
No baile, que começa às 16h30 das segundas-feiras, havia quase uma centena de pessoas dançando entre as mesas, umas mais animadas que outras, casais de rostos colados e duplas fazendo passos mirabolantes como se disputassem um concurso de dança.
A certa altura, por trás de uma nuvem de gelo seco, os músicos no órgão eletrônico e na guitarra tocaram uma versão abafada de Amante à Moda Antiga, de Roberto Carlos. A maioria do público cantou junto.
Na entrada do salão, Marlon Brando estava sozinho, olhando o movimento. Aos 74 anos, ele vive há mais de 40 com a mulher (não consegue lembrar exatamente quando casaram). Ela é uma avó dedicada, enquanto o marido fica "a ver navios", nas palavras dele próprio.
"Eu sou dançarino e gosto de me divertir. Ela não gosta de sair e me manda sozinho para os bailes", conta Brando. O casal vive debaixo do mesmo teto, mas não transa há anos se tornaram amigos em nome da família e da falta de dinheiro. É assim que ele justifica suas aventuras. "Pensei em sair de casa, mas não compensava", disse. "Tenho 74 anos e agora não adianta mais. Por que vou começar uma relação nova?"
A conversa é interrompida por Brando quando uma senhora passa por perto. Ele a chama. "Minha querida, este aqui é meu amigo jornalista, da Gazeta do Povo. Ele veio ver as mulheres bonitas do baile bonitas como você", diz. "Você precisa trocar de óculos, querido", ela responde, agradecendo o elogio e caminhando em direção à música.



