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Segurança

Apitaço noturno de vigilantes ilegais vira “praga” em Curitiba

Moradores denunciam que são intimidados a contratar serviço clandestino

Vídeo | TV Paranaense
Vídeo (Foto: TV Paranaense)

Moradora do bairro Boa Vista, em Curitiba, a dona de casa Fátima (que prefere não ter o nome completo revelado) se cansou de ouvir os apitos do motoqueiro que vigiava a rua durante a noite. Acordou decidida a não pagar mais os R$ 15 mensais, que destinava aos "serviços de vigilância". "No dia seguinte, nosso carro amanheceu arrombado", conta. "Depois disso, eles (os vigias) voltaram para perguntar se eu não queria o serviço de volta." Decidida, ela optou por não pagar mais.

Apitos insistentes durante a madrugada não são exclusividade do Boa Vista: eles estão em praticamente todos os bairros residenciais de classe média em Curitiba. Incômodo à parte, a situação é mais grave do que se imagina, já que a atividade não é regulamentada e na maioria das vezes é prestada por empresas sem registro na Polícia Federal.

Segundo o Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e Região, atualmente há 103 empresas clandestinas na cidade, número muito superior às 60 regularizadas. Para cada vigilante com curso de formação e registro profissional no estado, a estimativa é de que haja três clandestinos. Ou seja, existe um exército de 45 mil homens sem a formação necessária nas ruas das principais cidades paranaenses, prestando supostos serviços de segurança pública.

Os relatos de ameaças e pressões a moradores levaram o Conselho de Segurança (Conseg) do bairro Jardim Social a colocar um alerta em seu sítio na internet, no endereço br.geocities.com/jdsocialseguro. Segundo o Conseg, as empresas clandestinas atuam de duas maneiras: instalando guaritas nas ruas e com motoqueiros que apitam durante a noite. "Numa primeira visita aos moradores, demonstram simpatia", informa o alerta. "Quando não conseguem vender o serviço por meio da abordagem inicial, passam a fazer ameaças sutis nas visitas seguintes, empregando termos dúbios e apelando para a insistência ('sua casa pode ser assaltada')." O medo levaria os moradores a contratarem os serviços, por um preço que pode variar de R$ 15 a R$ 50.

É o caso da professora Edna, moradora do bairro Capão Raso. "Pago contra a vontade, mas tenho medo que indiquem a casa para algum assalto", diz ela. "Eles não cuidam de nada. Começam a apitar às 23 horas, mas normalmente só ouço perto da data em que eles passam para receber." No fim do ano, segundo ela, as casas recebem cartinhas pedindo para os moradores pagarem dobrado, já que os "vigilantes" não têm 13.° salário.

Praga

Consegs de outras regiões da cidade já demonstram preocupação com a atuação dos vigias. "É uma praga", define o presidente do Conseg Alto da XV, Ilton Lazarini. "Quem não paga a taxa sempre tem mais incidência de furtos." José Gil de Almeida, do Conseg Água Verde, destaca que, por não se tratar de uma atividade regulamentada, os vigias não podem ser responsabilizados caso haja alguma ocorrência. "É um guardião, mas se alguém roubar ele não tem responsabilidade nenhuma", afirma. "É condenável, porque apitam durante a madrugada e perturbam o sono das pessoas. Além disso, é um trabalho ilegal."

Apesar da preocupação geral, para o presidente da União dos Conselhos Comunitários de Segurança do Paraná (Uniconseg), Sérgio Skiba, a iniciativa é válida. "As pessoas devem manter qualquer tipo de segurança particular, porque o governo não vai suprir todas as nossas necessidades", comenta Skiba, que diz já ter ouvido falar sobre as pressões. "Já aconteceu de tentarem intimidar", revela.

Risco

Para o presidente do Sindicato dos Vigilantes, João Soares, a atividade é uma usurpação do serviço público, já que a segurança em vias públicas cabe ao estado. "Quem for pego fazendo esse tipo de serviço deve ser preso", diz Soares. "O vigilante profissional faz curso, reciclagem a cada dois anos, tem seu armamento controlado e não pode ter passagem pela polícia. Quem contratar este tipo de serviço (clandestino) está colocando seu patrimônio em risco." Segundo Soares, há cerca de 18 mil vigilantes profissionais em todo o estado.

A fiscalização das empresas de segurança cabe à Polícia Federal. A reportagem entrou em contato com a Superintendência da PF em Curitiba, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. Procuradas, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) e a Polícia Militar também não se manifestaram sobre o assunto.

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