Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Segurança

Após cinco anos em fuga, “Rei do Desmanche” é preso

O homem apontado pela polícia como o chefão da máfia de carros roubados na Região Sul do país foi preso, ontem, pela Polícia Federal do Paraná, em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. Segundo investigações, a quadrilha de Paulo Gilberto Pacheco Mandelli, 50 anos, tem negócios ilegais no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul há cerca de duas décadas, com o respaldo de policiais, políticos, autoridades e empresários. Ele foi pego em sua mansão, dormindo com a família, às 6 horas, sem reagir. O empresário, que estava foragido há cerca de 5 anos, com quatro ordens de prisões, morava há pelo menos três anos no Rio Grande do Sul, após residir em Miami (EUA), São Paulo e Rio de Janeiro. Ele usava o nome falso de Paulo Minella.

Com a prisão de Mandelli, a Polícia Federal pretende montar o quebra-cabeça da Operação Tentáculos, que investiga a ligação de policiais do estado com o crime organizado. A operação que resultou na prisão de Mandelli foi batizada de "Tentáculos III". Na primeira, cerca de 40 pessoas foram presas. Já a segunda colocou na cadeia o ex-policial civil Samir Skandar, que daria proteção aos negócios do empresário. Ele foi preso numa casa de alto padrão no Jardim Social, em Curitiba, no mês passado. Segundo o delegado federal Fernando Francischini, que coordenou a operação, Paulo Mandelli e Samir Skandar são apenas dois dos vários tentáculos do crime organizado no estado. "O polvo tem braços dentro e fora da polícia", disse.

Pose

Mandelli chegou no Aeroporto Bacacheri, em Curitiba, num avião do governo do estado. De cabeça erguida e peito estufado, ele jurou inocência. O avião saiu com ele de Caxias do Sul por volta do meio-dia. O vôo fez escala em Navegantes (SC), para apanhar seu irmão, Valdoir Pacheco Mandelli, que também foi preso. Valdoir foi condenado a cerca de 11 anos de prisão, por desmanche de veículos e cumpria pena em regime aberto. Os irmãos Mandelli chegaram em Curitiba às 15h15.

Em entrevista coletiva, o superintendente da Polícia Federal (PF) no Paraná, Jaber Saadi, afirmou que a PF o procurava há cerca de um ano, após o governador Roberto Requião pedir ajuda ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para combater o crime organizado no estado. "Ela morava tranqüilo e usava o mesmo nome, com uma pequena mudança no sobrenome", disse.

Saadi afirmou ainda que a PF vai investigar se ele recebia proteção da polícia. Na mesma entrevista, o secretário estadual de Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, afirmou que a suposta quadrilha tinha conexão em Santa Catarina. "Muitos carros são roubados no Paraná e levados para Santa Catarina", afirmou. Segundo Delazari, três veículos importados apreendidos com o empresário podem ser fruto de lavagem de dinheiro.

Mandelli se diz inocente, embora seja velho conhecido da polícia. Segundo investigações, ele cumpriu pena por estelionato no Rio Grande do Sul, há cerca de 22 anos. No Paraná, a vida dele virou um maremoto após a passagem da CPI Nacional do Narcotráfico, que lhe deu o adjetivo de "Rei dos Desmaches". Também nesse período, a Promotoria de Investigação Criminal (PIC) passou a investigá-lo como um dos chefões do crime organizado no estado.

Crimes

O empresário é processado por formação de quadrilha, desmanche de veículos furtados e roubados, corrupção ativa, suspeita de homicídio e porte ilegal de armas. Ele já foi condenado em primeira instância em dois casos. Por porte ilegal de armas e corrupção ativa – suspeito de pagar a construção de um barracão na chácara de um delegado.

Segundo o advogado Luiz Fernando Bonette, que defende os irmãos Mandelli, os seus clientes não devem ficar muito tempo na prisão. "O Paulo Mandelli tem duas condenações, mas já recorremos das decisões. Além disso, ele tem o crime de sonegação fiscal, mas está negociando a sua dívida no valor de R$ 1,5 milhão. Fora isso, a sua prisão só se sustentava porque ele estava foragido, mas isso não existe mais", disse. Ele afirmou ainda que Valdoir Mandelli foi preso por engano. "Ele ficou cerca de quatro anos na prisão e estava solto por causa de benefícios", disse o advogado.

Entrevista

O empresário Paulo Gilberto Pacheco Mandelli concedeu entrevista coletiva, ontem, na sede da Polícia Federal em Curitiba. Ele falou sobre a sua fuga e as acusações que são feitas contra ele, entre outros assuntos.

A fuga

Se eu tiver culpa, acho que já paguei a pena, porque estou há 5 anos me escondendo. Antes, eu estive em São Paulo, no Rio de Janeiro. Na primeira fase (fuga após a passagem da CPI Nacional do Narcotráfico), fiquei em Miami (EUA). Eu não me apresentei a pedido da minha família. Mas, agora, era essa a intenção.

O bandido mais procurado

Agora eles (a polícia) vão me conhecer e ver que não é verdade o que dizem. Eu sou um chefe de família, sou empresário, tinha vários segmentos no comércio. Morei em Curitiba vinte e poucos anos, ainda tenho várias propriedades aqui. É o lugar que escolhi para morar.

A defesa

Nunca pude me defender disso por causa dos mandados de prisão. Na época da CPI (Nacional do Narcotráfico), quando saiu o mandado de prisão, fui para Miami e não fui ouvido por ninguém. Depois, me apresentei em juízo. Mas em nenhum lugar desejaram me ouvir.

A prisão

As ordens são ilegais. Sou comerciante há mais de 20 anos na cidade. O meu crédito era infinito aqui. Eu era importante, dono do maior (negócio de) peça usada de Curitiba. Eu tinha um contrato milionário com um banco estrangeiro. Sou acusado porque o meu nome é um mito.

As peças encontradas nas lojas

A Polícia Militar (PM) ficou por 60 dias nas minhas lojas. Não sei quem foi, mas foi alguém da PM. Quando voltei de Miami, encontraram módulos de automóveis BMW, veículos de alto valor.

Os crimes

Eu mantinha uma loja de peças usadas, mas nunca comprei uma peça no Paraná. Sempre fiz negócio no Rio de Janeiro e São Paulo, de lojas estabelecidas como a minha, com nota fiscal. E pode ser que no meio, eu até aventava a possibilidade de ter alguma coisa ilícita no meio. Mas eu nunca disse eu sei. Comprava como um comerciante faz negócios. Mas eu nunca desmanchei um automóvel.

A ligação com o ex-policial Samir Skandar

O Samir Skandar, no meu juízo de valor, é uma excelente pessoa. O nosso único relacionamento era de amizade. É possível que um cheque meu tenha pago a compra da casa do Samir Skandar (mansão no Jardim Social). Várias vezes, o Samir me pediu dinheiro. Eu emprestei e cobrei.

A ligação com Caboclinho

Ele é meu compadre. Temos amizade há 30 anos. Mas não tenho nenhum negócio comercial com ele.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.