As curvas sinuosas de um trecho de 16 quilômetros (km) da BR-376, o mais perigoso do trajeto entre Curitiba e Joinville (SC), em plena Serra do Mar, se tornou uma armadilha para os motoristas. O número de acidentes registrado entre os km 666 e 682 da rodovia, onde se localiza a famosa Curva da Santa (km 672), aumentou 23% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2006. Já o número de feridos praticamente dobrou e o de mortes cresceu 25%.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), de janeiro a junho deste ano, ocorreram 191 colisões, que tiraram a vida de oito pessoas e feriram outras 103 pessoas. Nos seis primeiros meses de 2006, no mesmo trecho, foram 155 acidentes, com seis mortes e 61 feridos. A PRF destaca dois motivos para a maior ocorrência de acidentes na rodovia: imprudência e excesso de confiança.
Nos meses de agosto e setembro de 2007 já foram registrados 55 acidentes, mas a PRF ainda não tem o levantamento de mortos e feridos. A última ocorrência foi na madrugada de ontem, quando três pessoas morreram e duas ficaram feridas em uma colisão no km 671, na descida da Serra do Mar. O motorista de um caminhão Ford Cargo carregado com laranjas, que seguia para Joinville, invadiu a pista contrária, e atingiu um automóvel Palio que vinha no sentido Curitiba.
O condutor do caminhão, Sérgio de Godoy Pires, 43 anos, morreu na hora. O motorista do automóvel, Quintino Torreti, 50 anos, e a esposa, Verônica Torreti, 45 anos, também morreram. Adílson Kraus, 21 anos, e Eler Madalena Kraus, 51 anos, que estavam no banco de trás do carro, ficaram gravemente feridos e foram encaminhados a hospitais. Segundo familiares das vítimas, os passageiros do Palio saíram de Blumenau (SC) e seguiam para Curitiba para acompanhar o tratamento médico de um familiar.
Segundo Sidney de Souza, sobrinho do casal Torreti, Adílson Kraus foi internado no Hospital São José, em Joinville. O rapaz foi submetido a uma cirurgia no abdome e estava se recuperando no centro cirúrgico. Segundo informações do hospital, até o fechamento desta edição, Adílson passava bem e já estava num quarto. Eler Madalena foi encaminhada ao Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba, em estado grave. Ela passou por uma operação e estava na UTI, respirando com a ajuda de aparelhos. "É uma situação que ninguém espera. Se o carro tivesse passado 30 segundo antes ou depois por aquele trecho, isto não teria acontecido. Estamos todos muito abalados", comentou Sidney. O casal tinha dois filhos.
Pontos críticos
Acompanhado pela reportagem, o policial rodoviário federal Joaquim Alferes Júnior indicou os pontos mais críticos entre os km 666 e 682 da BR-376. A pista é bem sinalizada e as placas chegam a contrastar com a paisagem. No trajeto percorrido, o cheiro forte de lona de freio denunciava que muitos caminhões retêm a velocidade usando o freio convencional ao invés de reduzir a marcha. "Isso desgasta a lona e o motorista perde o freio. Quando ele tenta usar o freio-motor já não há mais tempo. É um descuido fatal", afirma o policial.
As marcas nas muretas de proteção e nos barrancos da rodovia são indícios de que os acidentes são constantes. Os muros estão completamente destruídos. Já os barrancos conservam restos de cargas deixadas por caminhões que se chocaram contra eles. "O pessoal que passa aqui freqüentemente acha que conhece essas curvas como a palma da mão, mas esquece que elas são traiçoeiras", conta Antônio Jair Pereira, 56 anos, motorista de caminhão desde os 20 anos.
"O interessante é que onde a pista está ruim (com ondulações) não acontece acidentes. Só há ocorrências onde a estrada está boa. São motoristas que passam diariamente pelo trecho e acreditam ter total conhecimento do local e acabam traídos pela autoconfiança", afirma o policial. Alferes Júnior explica que a situação se agrava em dias de chuva. "Os motoristas excedem o limite de velocidade. Quando notam que estão rápidos demais, pisam no freio já dentro da curvatura e acabam derrapando ou rodando. Os condutores devem lembrar que eles não estão em um carro 100% preparado para a chuva", alerta.
O professor de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Paraná, Carlo Giuseppe Filippin, concorda com o policial. "Um carro de passeio não é otimizado para cada tipo de condição climática, assim como é um veículo de competição. Ou seja, sob chuva o carro perde aderência e frenagem. Em consequência disso, o carro tem desempenho limitado e tem sua estabilidade comprometida. O condutor deve tomar todos os cuidados quando estiver sob chuva, principalmente em curvas como as da Serra do Mar", afirma. "A vida é mais importante do que qualquer coisa. O caminhão, carro ou moto acaba se tornando uma arma na mão dos motoristas imprudentes", avalia Pereira.



