
Quase cem anos separam Pedro e Ondina Violani, 95 e 93 anos, do trineto Bernardo, de apenas oito dias de vida. E graças à longevidade, os trisavôs puderam conhecer o bebê, e fazer parte de um fenômeno cada vez mais comum: famílias com quatro ou cinco gerações vivas. Até há pouco tempo, bisavós e trisavós eram personagens em fotografias amareladas nos álbuns de família. Hoje em dia, são eles mesmos que contam sobre peraltices da própria infância com os bisnetos e trinetos no colo, num relato de memória familiar ao vivo e em cores. "Os almoços de domingo são recheados com as histórias dos meus pais. As crianças ouvem tudo com muito interesse e atenção", explica Maria Cristina Mourão Veloso, 53 anos, filha de Rosy Mourão, 73 anos, bisavó de Isadora, 3 anos.
É justamente esse resgate e o referencial de unidade familiar que são apontados como os principais papéis dos avós na vida das crianças. "Eles transmitem valores, perpetuam a memória da família e contribuem com suas experiências", explica a psicóloga Carla Cramer, terapeuta familiar em Curitiba. Por outro lado, a convivência com a geração mais jovem permite uma renovação permanente dos idosos. Novas tecnologias, como o computador e o celular, e comportamentos namoros relâmpagos, sexo antes do casamento, piercings e tatuagens entram no repertório de experiências dos mais velhos. "É uma troca vantajosa para ambos os lados", diz. E quanto mais longa essa linhagem de descendência, mais sólida e enriquecedora será a experiência. "Se o bisavô ou trisavô tem saúde para participar, o vínculo é mais intenso e ajuda a criança a compreender ainda melhor a noção de origem".
Filho da bisneta Alana Borghetti Violani, 22 anos, Bernardo é o primeiro da quinta geração da família. Em 73 anos de casados, Pedro e Ondina tiveram três filhos, 11 netos e 18 bisnetos. Somados esposas, maridos e agregados, são quase 50 pessoas para serem convidadas para as reuniões mais íntimas. "Dá preguiça de fazer festa", brinca Ondina. Para acomodar todos, ela divide os eventos em encontros escalonados. Um dia para netos, outro para bisnetos.
Ciclo da vida
A presença dos avós no cotidiano das crianças também ajuda a construir o respeito e a admiração pela sabedoria que os mais velhos têm. "As crianças compreendem melhor o envelhecimento e o ciclo da vida. Elas vivenciam o nascer, crescer e morrer. E exercitam sentimentos importantes como apego e despedida, até mesmo em situações cotidianas, como separar-se do avô para ir para a casa dos pais, no fim de um dia de convivência", diz a psicóloga.
Isadora aguarda com ansiedade as tardes de quinta-feira. É neste dia da semana que ela fica na casa da bisavó Rosy. A mãe da criança, Maria Fernanda Veloso, 31 anos, faz questão de manter a convivência entre todas as gerações da família. Ela mesma ficou sob responsabilidade de Rosy antes de frequentar a escola, para a mãe Maria Cristina poder trabalhar. "Sou parecida com a minha avó em muitos aspectos. A maneira de arrumar a casa, a forma de tratar as pessoas, tudo isso é herança dela", conta Maria Fernanda.
A paciência dos mais velhos é outro aliado na formação dos netos. Sem a responsabilidade da educação formal, eles se permitem construir uma relação mais tranquila, livre de cobranças, e que abre espaço para a aproximação dos jovens. Vai além do "estragar o netinho" com uma balinha antes do almoço. "Muitas vezes, os netos se sentem mais à vontade para se abrir com os avós, porque sabem que a receptividade pode ser maior", aponta. Na casa de Pedro e Ondina, os bisnetos fazem questão de apresentar os namorados ao casal. "Eles sempre trazem os jovens aqui para nós conhecermos", contam. Ondina ainda se espanta com algumas condutas da juventude, que acompanha dentro de casa e pela televisão. "No meu tempo a gente namorava, noivava e casava. Hoje eles quase casam antes de namorar direito", diz.
Sustos à parte, avó, bisavó e trisavó têm uma especialidade em comum: paparicação de herdeiros. Ondina dá a receita: com muitos netos, o negócio é dividir. Nem por isso o coração fica menos mole. "Eu lutava judô com os meninos em cima da minha cama", confessa, falando daqueles que hoje são senhores de família, com sua própria prole para "estragar".
Parceiros, não responsáveis
A delicada relação entre filhos, pais e avós corre o risco de desandar se a família insistir em envolver as crianças para solucionar os conflitos dos adultos. As disfunções podem ter diversas origens. "Avós são parceiros na educação dos filhos, mas não devem ser responsáveis por eles. Já cumpriram seu papel na criação da própria prole. Se a responsabilidade é imposta, a situação não é saudável", observa a psicóloga Eneida Ludgero, terapeuta familiar em Curitiba.
Quando a participação mais expressiva na vida da criança é inevitável, os papéis precisam ser claramente definidos para todos os envolvidos. Todos precisam saber seus limites, do mais novo ao mais velho. "A competição pelo carinho não pode existir. É cruel para a criança. Ela não pode ter de escolher de quem gosta mais. Mas se ela tiver claro a quem deve se referir e quando, tudo fica mais fácil", diz a psicóloga Carla Cramer.
Além de estabelecer as referências e os pais assumirem o comando quando voltam para casa ou pegam a criança no fim do dia, é preciso alinhar as condutas e diretrizes familiares. A orientação deve ser a mesma. Mesmo que não aprove completamente decisões dos pais da criança, os avós precisam discutir essas questões longe dos netos, sem envolvê-los. E a recíproca deve ser verdadeira.
Rosy Marinoni Mourão, 73 anos, já esteve em todas as situações: cuidava de Maria Fernanda quando criança para a filha trabalhar, acolheu o neto para morar em casa depois da morte da mãe dele e recebe a visita semanal da bisneta Isadora. "Só me envolvo na educação deles quando sou solicitada. Tive um pouco mais de dificuldade com o menino, porque sempre me preocupei muito com a segurança dele. Mas ter neto é muito fácil, diferente de filho, não é? Quando cansa, manda de volta para casa", brinca.





