
"Não ligue. Ele é meio desajeitado", desculpa-se dona Cleusa diante dos atropelos do marido o engenheiro e arquiteto Ayrton "Lolô" Cornelsen, 90 anos, nada menos do que um dos inventores do Paraná moderno. Parte da culpa dessa "incrível história de um cidadão desajeitado", aliás, é dela. O pai de Cleusa, José Lupion, era madeireiro afortunado nos Campos Gerais. Seu irmão, Moisés, passaria pelo governo do estado duas vezes em parte dos anos 1940 e 1950, até 1961 abrindo um turbulento capítulo na crônica política local.
VÍDEO: Veja um pouco mais sobre a vida de Lolô Cornelsen.
O sobrenome Lupion tinha o impacto de uma bigorna atirada no dedão do pé. Mas não foi o peso dessa dinastia que mexeu com os demônios de "Lolô" quando viu Cleusa pela primeira vez, na saída do colégio, loira como uma diva do cinema. "Achei ela bonita pra burro...", diz com a inconfundível voz abafada, diante do retrato da companheira pintado por Theodoro De Bona. As fotos espalhada pela casa grande dos Cornelsen uma esquina de charme colonial, às margens da "Rua do Rio", em um ponto cego dos bairros do Batel, Bigorrilho e Mercês confirmam o elogio.
Casaram-se em 1948, não propriamente para alegria de José Lupion, que queria para a guria algo melhor do que um craque do Atlético, com fama de galo de briga, o que era de fato. "Fui um doidaço. Um pentelho gigantesco. Dava porrada. Acabei até preso depois de uma sova no major Couto Pereira. Nunca mais pisei no Coritiba", lista o ex-coxa-branca em meio a um inacreditável ranking de desafetos cultivados desde a mocidade até o momento presente, agora sem socos e pontapés. Coisas da idade.
Quanto a Moisés, simpatizou com o forasteiro recém-chegado à família, o que fez toda a diferença. "Ele me chamou lá no castelinho do Batel e disse que queria me conhecer. Fiquei todo atrapalhado". Carregou o parente para as despensas do poder, jogando no colo do moço um de seus mais ambiciosos projetos de governo: a ocupação do interior do Paraná. "Não sei o que ele viu em mim. Fui péssimo aluno das escolas onde andei. E eu votava no Bento Munhoz da Rocha, p*", repete o hiperativo Lolô enquanto bate uma bolinha deixada na sala por um de seus bisnetos. Tem um pouco de labirintite, admite, mas mal dá para acreditar. Imagine aos 26 anos, quando se lançou na "Conquista do Oeste".
Arquiteto?
Lolô assim chamado por força de um apelido doméstico ficou famoso como arquiteto modernista. Nos bastidores das escolas de Arquitetura, a simples menção de seu nome é capaz de levar algum noviço à genuflexão. Muitos dariam um rim para ter uma das 70 casas que fez na capital e evitar que sejam demolidas, o que tem acontecido. Falta, porém, lhe fazer justiça no campo da engenharia, obra cuja extensão é de se beliscar.
Nos dez anos em que foi o braço direito e esquerdo de Moisés Lupion, abriu perto de 8 mil quilômetros de estradas e garantiu a infraestrutura para uma centena de municípios recém-nascidos. "Aprendi tudo o que sei nessa experiência. Imagine: do dia para a noite chegavam mais de 20 mil famílias a uma cidade que nem sequer existia... Eu era rapaz novo, um esportista conhecido, mas chegava lá no aviãozinho do governador. Eu parecia um papa", conta o homem que até "Beijinho do Chile" semeou nas estradas.
Em 1964, com o banimento do "chefe" e o ostracismo a que se viu imposto pelo golpe, Cornelsen se negou a aceitar que lhe passassem a borracha. Ao contar, não reserva beijinhos a Ney Braga, a quem acusa de perseguição política. Pôs-se a medir cada metro de asfalto, cada ponte, cada quilômetro de BRs e PRs que ajudou a riscar. Anos depois, entrou na Justiça pedindo o reconhecimento de seu trabalho. Mas o mal já tinha sido feito.
"Fui embora daqui para nunca mais voltar. Até hoje tenho mágoa do Paraná", confessa. No final dos anos 1960, tresloucado para fugir do Brasil, trocou por migalhas a casa em que vivia, vendendo-a para o empresário Paulo Pimentel. Chamou Cleusa e as crianças [Consuelo, Ito e Alcyr] e se mandou para Portugal. Para tristeza dos que o julgavam um exilado no quarto dos fundos do Velho Mundo, "as batatas". Lolô ergueu uma das mais surpreendentes carreiras internacionais já protagonizadas por um paranaense.
Lampadinha
Os números, de novo, são tão superlativos quanto a personalidade do próprio Lolô o Lolô Lampadinha como gostam de dizer os seus. Em terra estrangeira fez algo como 6 autódromos, 5 campos de golfe e 12 hotéis espalhados por Portugal, Espanha e Angola. A paradisíaca Ilha da Madeira, no Atlântico, muito lhe deve. Mais. Bem longe das rasteiras palacianas, lançou-se à pintura, assinando pelo menos 50 retratos de mulheres com as quais cruzou em aldeias do Quênia e do Mali. "Vi aquela mulherada toda diferente. Em vez de fazer arquitetura fiquei pintando as neguinhas", conta. O interregno só acabou com a Revolução dos Cravos, em 1974, quando a trupe Cornelsen voltou para o ninho. "Perdi tudo o que acumulei lá".
"Perdi tudo", aliás, é uma das máximas de Ayrton "Lolô" Cornelsen, frase que repete com uma liberdade que faria inveja à poeta Elizabeth Bishop, autora do poema One art. O mito do "viver é recomeçar" lhe serve como luva. Assim permanece no outono da vida. Nos últimos tempos, Lolô se alistou nas fileiras do Instituto dos Engenheiros do Paraná, o IEP. Sentiu-se em casa. Ali, na sede da Rua Emiliano Perneta, ao lado de outros veteranos como ele, deu de tirar projetos das gavetas e faz planos para o Paraná. "Somos uma velharada e temos um banco de ideias. E daí?".
Lolô fala como se ainda tivesse 20 e poucos anos e estivesse prestes a se casar com Cleusa. Os rolos com mapas formam pilhas perigosas sobre a mesa. Lê trechos de seu manifesto, intitulado "O Paraná que queremos". Defende a viva voz um polo turístico em Prudentópolis "alternativa para forçar quem visita Foz do Iguaçu a passar mais dias no estado. Tem águas sulforosas lá, pqp*." Dita um meticuloso plano de transporte de grãos pelo Rio Ivaí. "Isso aqui tira 860 carretas da estrada. Tira 100 vagões dos trilhos. Temos rio. É só fazer uma barragem". Em tempo: defende um campo de golfe na Ilha do Mel. "Estamos com 20 anos de atraso", diz, com pencas de palavrões e comentários politicamente incorretos.
"Não sei se há lugar para uma pessoa como Lolô Cornelsen nos dias de hoje", admite, definindo-se como um paranista à sua moda. Que não esperem dele o senso comum. Ao contrário, gosta é de "acordar" a vizinhança, qual seja ela, como nos tempos em que era o terror das peladas de rua. Só para contrariar, diz que arrancaria o pinheiro de 60 metros de altura que lhe suja o quintal. Quanto à Curitiba que vê da janela, não poupa chutes na canela. "Acho uma bosta". Faz rir. Faz perguntas. "Por que não arrumam o Paraná?" Depois se desculpa: "Sabe o que é, guri: eu pinto, eu bordo". Eis o craque.




