
Vítor é um menino arredio, e tem motivos para isso. Mora com a mãe, quatro irmãos, avô, avó, dois tios e cinco primos num aglomerado de quatro casebres de madeira erguidos num vazio urbano entre Piraquara e Curitiba. De tão parado o lugar, nem os três cães vulgares inertes sobre a terra nua e vermelha percebem quando o carro estaciona em frente do portão torto e carcomido. A entrevista flui solta no pátio quando, num gesto ágil e espontâneo, ato de quase desespero, Sirlene suspende a camiseta do guri agarrado à sua perna para provar que não está mentindo, já cansada do franzir de cenho e do nariz torcido das pessoas a quem conta o sucedido com o neto. "Aqui, ó, se eu contar ninguém acredita, mas tá aqui, ó", diz apontando costas e pernas do pequeno infeliz.
Vítor completará 4 anos dia 19 de março, mas já leva no corpo as marcas do descaso e da negligência. Marcas de quando ardeu em febre, tomado por feridas. Os fatos ocorridos com Vítor emprestam força a uma incrível ironia desde que a família se mudou para o bairro Águas Claras, há dois anos.
Embora fique em Piraquara, maior manancial de água potável do Paraná, o bairro não tem abastecimento conforme mostrou reportagem da Gazeta do Povo publicada em julho de 2009. Quase um ano depois em junho deste ano, a água encanada deve chegar à casa de Vitor. A previsão é da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). As obras para levar água aos moradores do Águas Claras começaram em dezembro. Caso não ocorra nenhum imprevisto, as torneiras poderão jorrar água dentro de seis meses.
Chegada
A chegada da água encanada encerra uma história de sofrimento que já dura dois anos. Em 2007, o servente de pedreiro José Pereira de Jesus e a dona de casa Sirlene Ferreira Maia deixaram a chácara que cuidavam, em São José dos Pinhais, para comprar um terreno do outro lado da BR-277. Junto foram os filhos e netos. No lugar da meia-água, posta abaixo de tão velha, ergueram a antiga casa, trazida tábua por tábua. "Mas tem muita criança, viu. Sai criança por tudo que é lado", diz Sirlene, encarregada de cuidar dos netos enquanto as filhas trabalham.
São sete pequenos e três adolescentes, e tem mais neto a caminho: Joslaine dará à luz mais um em fevereiro. Ao todo são 15 morando em três casas mal ajambradas. Numa delas mora Sirlene com José e o enteado de 15 anos, na outra fica Joslaine, o marido e três filhos e na terceira está a outra filha, Fernanda, e seus cinco filhos. A quarta casa está vazia desde que uma sobrinha fugiu do lugar pelo mesmo motivo que vitimou o pequeno Vítor. Para entender os porquês é preciso compreender os precedentes.
O terreno de 672 metros quadrados custou R$ 20 mil, muito caro pelo incômodo que escondia. Era ali que muita gente abandonava os cães renegados, e a área guardava uma surpresa: pulgas, milhares delas. Talvez milhões, surgidas com a derrubada do mato. Piorou após a construção das casas, pois os cães se aninhavam entre o chão de terra batida e o assoalho. Isso só fez aumentar a produção de pulgas. Foi preciso gritar por socorro. A prefeitura prometeu ajudar na dedetização, mas não apareceu. O serviço ficou por conta da família. Antes, porém, ninguém escapou das picadas. Mas essa é só metade do problema que marcou Vítor na pele.
A ironia da água
Não havia ali uma gota sequer de água. O jeito foi cavar um poço, mas o veio não era dos bons e a água se mostrou pouca. Começava o rodízio entre Sirlene e as três filhas para lavar a roupa e o banho de caneca nas crianças. O poço desceu à terra duas vezes, e ficou ralo outras tantas. Por duas ocasiões os bombeiros tiveram de completá-lo para não deixá-los à míngua, mas é à prefeitura que cabe o maior trabalho em dias de escassez. Sirlene se vê obrigada a ligar com frequência nos períodos de estiagem, e em meia hora alguém surge com vasilhas cheias para abastecê-los.
"Eles nunca se negam a trazer, mas é muito incômodo e muita humilhação", reclama a mulher sujeitada a uma triste ironia para quem foi criada praticamente dentro do Rio Ivaí, na região de Itambé.
Quem daqueles que têm a torneira jorrando quando bem quer pode compreender os dissabores de uma gente que não tem água nem na hora da sede?
Manancial
Como acreditar em quem diz não ter água para o banho morando em Piraquara, o maior manancial de água potável do Paraná? Não só não existe água como também não há mais onde cavar um poço porque as fossas já condenaram qualquer lençol aquífero que passe por ali. Quando não está seco, o único poço existente fornece uma água bastante duvidosa. Todos já estavam conformados com essas condições, até outubro chegar. Outubro de 2008. Ao cabo de vários dias seguidos sem água para o banho naquela primavera calorenta, as feridas começaram a pipocar. Ao chegar, a equipe do Programa Saúde da Família se deparou com uns 30 cães sob os assoalhos.
Esse é um problema a olhos vistos: a conta chega fácil a dez cães por habitante nesse pedaço esquecido de Piraquara. Não à toa, todos da família estavam tomados pelas erupções, decorrentes da pediculose, uma reação alérgica à picada das pulgas. O quadro piora quando se coça o local, e a falta de água só agrava a situação. Gabriel, à época com 4 anos, teve de ser levado ao Hospital Pequeno Príncipe devido a uma íngua na axila, resultado das infecções. Ele sarou, mas Vítor não. Em duas semanas as chagas chegaram a um estágio crítico.
"Durante 15 dias ficou horrível, uma coisa fora do comum", diz a paranaense Sirlene com o sotaque mineiro adquirido por simbiose do marido. "Tinha que cuidar para não raspar a toalha, porque arrancava as feridas e ele chorava de dor."
Mãe e avó davam banho de ervas e o enrolavam na toalha para secar, numa tentativa desesperada de curar as úlceras que exalavam um forte mau-cheiro, levando-as ao desespero diante do menino que parecia estar apodrecendo vivo. Foram dois meses de muita agonia e orações. Passado um ano, Vítor ainda carrega no corpo as marcas das feridas e na mente as más lembranças que o levam ao choro quando exposto a olhares estrangeiros. O menino simplesmente deu o azar de nascer no lugar errado. A água que faltou para lavar-lhe as feridas sobra em outras partes do mundo.
Falta de um lado, sobra de outro
Fosse um cidadão de Nova Iorque, ou de Tóquio, Vítor poderia se dar o luxo de consumir 350 litros de água por dia, ou 200 litros caso fosse europeu, mas não mais de 20 litros se vivesse na África Subsaariana, o quadrante mais pobre do planeta. Essa diferença absurda se dá também pelo estilo e padrão de vida, diz estudo do World Wildlife Fund (WWF). Além do consumo doméstico, a conta inclui ainda a água usada na fabricação de roupas, bebidas industrializadas, carne, cereais e máquinas em geral. Uma camisa de algodão, por exemplo, precisa de 4.100 litros de água para ser fabricada, incluídos os gastos com irrigação, produção e distribuição.
Segundo a mesma conta, 250 ml de cerveja equivalem a 75 litros de água. Da mesma forma, um hambúrguer de 150 gramas necessita de outros 2.400 litros de água. Para se produzir uma folha de papel utiliza-se um litro de água, para um litro de gasolina são usados dez litros de água, para um quilo de açúcar é necessário usar cerca de cem litros de água, para uma xícara de café são gastos cerca de 140 litros de água. Um ovo necessita de 200 litros de água, um quilo de arroz gasta cerca de 2,4 mil litros de água, um quilo de carne bovina consome 15 mil litros, um automóvel necessita de 1,2 milhão de litros de água para sua produção.
O engenheiro hídrico holandês Arjen Hoekstra criou uma equação para calcular quanto de água se usa no processo de produção de vários produtos. O conceito de "pegada de água" permite a uma pessoa calcular o rastro deixado ao medir o volume de "água virtual" que usa, ou seja, a quantidade utilizada na produção dos bens que consome. O termo "água virtual" foi criado pelo pesquisador ambiental britânico Tony Allan nos anos 1990. A média global é de 1.243 metros cúbicos por ano por pessoa, índice que sobe para 2.483 metros cúbicos nos Estados Unidos e fica em 1.381 no Brasil. Vítor está no pior extremo da balança que perfaz essa média.
A "pegada" do menino quase não dá para medir, de tão pequena. São muitos iguais a ele, mas a média sobe por causa do desperdício. Quatro de cada dez litros de água tratada no país são jogados fora. Nenhuma capital brasileira apresenta perda menor de 20%, e ainda chega a 50% em algumas delas, como Porto Velho, Macapá, Teresina, São Luis, Maceió, Manaus e Rio de Janeiro. A medição do Instituto Trata Brasil, em 79 cidades com mais de 300 mil habitantes, teve como base o Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, que reúne informações dos serviços de água e esgoto fornecidas pelos prestadores dos serviços.
Enquanto isso, a água da família de Vítor se mede em canecas, limitando os mais simples hábitos de higiene, deixando-os vulneráveis a doenças da pobreza. Segundo o coordenador da Unidade de Saúde que os atende, Thiago Aurélio de Oliveira, doenças do século passado, como desnutrição e verminoses, são recorrentes na região do Guarituba, uma grande área de Piraquara da qual faz parte o bairro Águas Claras. Vinte milhões de brasileiros estão expostos aos mesmos riscos, sem acesso à água potável. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 91,3% dos domicílios urbanos recebem água canalizada, taxa que cai para 23% na área rural.
Escassez põe saúde em risco
Pelas condições em que vivem, crianças iguais a Vítor estão metidas num grupo de risco que, por ano, leva à morte um milhão e meio de crianças no mundo. Não precisaria ser assim. O acesso à água potável e o hábito de lavar as mãos reduzem em 40% a incidência de doenças diarreicas, tornando a prática uma das intervenções mais eficazes para a redução da mortalidade infantil. E não são poucos os casos. Globalmente, nove entre dez mortes por diarreia se devem à má qualidade da água, saneamento inadequado e falta de higiene. Há no mundo 2,5 bilhões de pessoas sem acesso a instalações sanitárias adequadas.
A diarreia é a segunda causa de morte de crianças com menos de cinco anos, atrás só da pneumonia. Mata mais por ano do que a aids, a malária e o sarampo juntos, conforme relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização Mundial de Saúde. A lista é liderada pela Índia, onde se estima que morram por ano quase 390 mil crianças por doenças associadas à diarreia. O Brasil reduziu em 94% os casos dessas mortes em três décadas, que era de 32,7 mil em 1980. Ainda assim, 1,9 mil morrem por esse motivo no país, segundo o Ministério da Saúde. A taxa mais atual é 19,3 mortes de crianças com menos de um ano por mil nascidos vivos.
O risco existe porque o acesso à rede de esgoto recém chegou à metade dos 190 milhões de brasileiros. Ao principiar os anos 1990 o déficit atingia um terço do país. O avanço ganhou força notadamente a partir da criação do Ministério das Cidades, em 2003, mas, apesar da melhora, o problema ainda vai atravessar o século. A universalização do serviço de esgoto só acontecerá no ano 2122, calcula a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A propósito, é da FGV a melhor explicação para tamanho atraso nessa área: tanto a origem da deficiência quanto o princípio da solução estão na política. Não seria tão mal não estivéssemos falando de política eleitoreira.
"O fato de as principais vítimas serem crianças sem voz ou voto cria formidáveis dificuldades práticas à causa da universalização do esgoto tratado", conclui a FGV numa das cinco pesquisas que fez para a ONG Trata Brasil. As principais vítimas da falta de esgoto têm entre 1 e 6 anos. Bebês até 1 ano morrem menos devido a doenças do esgoto por ficarem mais em casa, menos expostos às doenças. Os meninos, talvez pelo hábito de brincar perto de valas negras, morrem mais de doenças associadas à falta de saneamento do que as meninas. Para as grávidas, a falta de esgoto tratado aumenta em 24% as chances de ter os filhos nascidos mortos.
Agora, a explicação política: o país gasta apenas nove décimos de milésimo do seu Produto Interno Bruto (PIB) em saneamento básico, dos quais um décimo de milésimo, ou 0,01%, via despesa direta da União, 0,01% são transferências para estados, 0,04% são transferências para municípios e 0,03% saem do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Em contrapartida, o Brasil gasta 20 vezes mais com saúde: 1,76% do PIB. Ou seja, quanto menos se investe em prevenção, mais se gasta em correção. A cada dia, pelo menos 800 pessoas são internadas em hospitais por doenças provocadas pela água suja, pelo lixo sem coleta e pelas valas onde correm esgoto não tratado.
Um século de dependência
Há 101 anos os 50 mil moradores de Curitiba saíram às ruas para recepcionar com fogos de artifício a água que descia encanada da Serra do Mar. Tempos difíceis aqueles, de raras fontes potáveis, a principal delas no chafariz da atual Praça Zacarias, onde aguadeiros profissionais abasteciam carroças-pipa para vender água de casa em casa. Até que às 13 horas de 24 de agosto de 1908 o então presidente do Paraná, Francisco Xavier da Silva, inaugurava o Reservatório do Alto São Francisco em meio a um incomum espetáculo pirotécnico. Uma rede de 34.838 metros de canos levava água da Serra para 28 torneiras públicas espalhadas pela cidade.
Um século depois, o reservatório virou patrimônio histórico e a capital ganhou mais 1,8 milhão de habitantes, ou 3 milhões somando-se as cidades em sua órbita. Mas a dependência da água continua. Sete entre 10 litros consumidos na Grande Curitiba brotam de Piraquara ou passam por ela, como há um século. A cidade tem 1.116 nascentes, 7% dos seus 227,5 quilômetros quadrados de território são de Mata Atlântica e os outros 93% constituem o grande manancial que dá de beber a um sexto do Paraná. A cidade fornece metade dos 7 mil litros que passam por segundo no sistema da região metropolitana.
A capital produz só 5,5% da água que consome, enquanto Piraquara consome só 5% do que produz. E não é pouca produção. Piraquara é uma grande bica por onde vertem 3,5 mil litros de água por segundo, destinados a matar a sede de pelo menos um milhão e meio de pessoas e a mover a indústria de Curitiba.
Riqueza e pobreza
Piraquara é o Kuwait paranaense. A riqueza de ambos é líquida e está no subsolo. Dono da quarta maior reserva de petróleo do mundo, com 101,5 bilhões de barris, o Kuwait não tem um só cidadão abaixo da linha da pobreza, enquanto Piraquara, com 88 mil habitantes e dezenas de bilhões de litros de água em seu subsolo, tem um entre 10 moradores em petição de miséria. Isso acontece porque a maior riqueza da cidade é também sua maior desgraça. Na cidade que dá de beber a Curitiba há quem mal tenha o que comer.
À exceção de São José dos Pinhais, os donos dos mananciais da região metropolitana de Curitiba amargam baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Almirante Tamandaré, que entra com 10% da água da região e tem 85% de território em área de manancial, é o número 247.º do ranking do IDH no Paraná. Piraquara, em 184.º lugar, tem a situação agravada por ter 93% de sua área em nascentes e 7% em Mata Atlântica, o que significa não ter um metro quadrado sequer para indústrias poluentes.
Piraquara é como se fosse toda ela uma unidade de conservação. A cidade tem a obrigação de entregar água limpa, mas o que recebe por isso? Os R$ 9,9 milhões anuais do ICMS Ecológico representam 15% do orçamento de R$ 65 milhões, muito pouco para uma cidade que foi obrigada a abrir mão do desenvolvimento industrial para dar de beber aos vizinhos. Ainda falta um mecanismo de compensação financeira adequado para a principal área de manancial paranaense que, infelizmente, virou periferia de Curitiba.
Metade dos piraquarenses mora espremida num canto que soma 5% do município, na região do Guarituba, onde fica o bairro Águas Claras. Esta é a maior área de invasão do Paraná, que só agora está sendo regularizada numa força-tarefa do governo federal com o estado e a prefeitura. Pelo Guarituba passa 64% da água da bacia do Rio Iguaçu, suficiente para abastecer 2 milhões de pessoas.
Os canos estão chegando
De acordo com a assessoria de imprensa da Sanepar, os moradores do bairro Águas Claras sempre viveram com água de poços artesianos e nunca haviam feito uma solicitação formal para ter água encanada. A situação mudou em junho de 2009, segundo a Sanepar, quando começou a faltar água nos poços. As famílias fizeram uma solicitação à prefeitura, que avaliou a situação e depois procurou a Sanepar.
Entre setembro e outubro a companhia fez uma série de estudos técnicos para atender a região com água tratada. As obras começaram em dezembro. Será feita a readequação de uma estação elevatória, para a água poder chegar até a comunidade. Para essa obra já foram liberados R$ 274 mil, segundo a Sanepar.
Também será necessário um trabalho de reforço do reservatório do Guarituba Redondo, para suportar a demanda originada por mais pessoas consumindo água. De acordo com a Sanepar, para essa obra já estão disponíveis R$ 350 mil. Por fim, para que as torneiras possam abastecer a região, serão construídos 1,5 mil metros de rede para a redistribuição de água. Essa obra será feita em parceria com a prefeitura de Piraquara e custará R$ 35 mil, dinheiro também já reservado.




