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Comportamento

Ativistas dos tempos modernos

Poucas pessoas chamariam uma caixinha de leite de aberração. André Michelato, portanto, é uma raridade. Para ele, o leite de caixinha é um símbolo de muitas coisas ruins. Para que não pareça só uma esquisitice de Michelato, que é psicólogo e coordena programas sociais na Secretaria de Estado do Trabalho, vamos aos argumentos.

Antes de mais nada, Michelato diz que o leite normal, no saquinho, estraga rapidamente na geladeira. "O que será que tem no outro para durar meses sem estragar?", pergunta. O que mais intriga, para ele, é o fato de que ele nunca soube de alguém que tenha conseguido usar o leite de caixinha para fazer iogurte.

Segundo argumento: o fato de a caixinha longa-vida ser um monopólio de uma indústria multinacional, a TetraPak, também pesa contra. Toda indústria do mundo precisa pagar royalties para usar o sistema, o que encarece o produto e faz com que divisas do país sejam levadas para fora.

Terceiro ponto, a caixinha acaba deixando de fora das prateleiras dos supermercados as pequenas indústrias, que não têm como concorrer com as grandes. E vale lembrar que as pequenas fábricas, somadas, normalmente são as que criam mais empregos.

Essa não é a única opção diferente de Michelato, que se tornou militante da agroecologia no fim dos anos 90. Além do leite de caixinha, não entram na casa dele a maioria dos produtos industrializados que quase todo mundo come: de presunto e mortadela aos enlatados em geral. Na verdade, em uma compra normal de supermercado, o psicólogo leva quase só produtos de limpeza e de higiene. "Além de vinho", diz. O resto todo é comprado em feiras de produtos orgânicos e lojas menores. E leite, claro, só de saquinho.

"No começo as pessoas podem achar difícil. Ter de passar todo dia para comprar leite, por exemplo. Mas é uma questão de costume, só isso", afirma Michelato, que converteu a mulher aos mesmos hábitos sem muito esforço.

Embora a atitude possa parecer curiosa, o psicólogo não está sozinho. Entre militantes de causas sociais e ambientais, é normal encontrar pessoas que decidem levar para o dia-a-dia o discurso que pregam. Normalmente, o consumo é a ponta mais afetada pelas decisões. Há quem não vá em determinadas lojas ou shoppings, por exemplo, por acreditar que lá a diversidade étnica não é incentivada. Há quem evite produtos norte-americanos por imaginar que assim ajuda a combater o imperialismo. E há quem se recuse a andar de carro ou a comprar tevê por achar que estaria comprando mais do que o estritamente necessário – e portanto poluindo o mundo.

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