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Preconceito

Atos de homofobia começam na própria escola

Pesquisa revela que hostilidade contra homossexuais é comum no ambiente escolar. Cerca de 60% dos alunos já presenciaram cenas de discriminação

A professora Francine Mattar Ziemmermann é favorável à capacitação para falar sobre a diversidade sexual: medo de ser taxada de preconceituosa | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
A professora Francine Mattar Ziemmermann é favorável à capacitação para falar sobre a diversidade sexual: medo de ser taxada de preconceituosa (Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo)
Retrato da intolerância |

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Retrato da intolerância

A discriminação contra homossexuais é um episódio corriqueiro em ambientes frequentados por estudantes de ensino médio. Seis em cada dez alunos de 16 a 25 anos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) entre 2004 e 2008 já presenciaram algum tipo de hostilidade contra quem parece ser ou é homossexual. Entre aqueles que participaram da prova em 2008, 7,2% admitiram que se sentiriam incomodados por ter um parente ou colega homossexual. Os dados, que demonstram a intolerância enfrentada diariamente por milhares de alunos e alunas, estão em uma pesquisa publicada nesse ano pelos professores Josafá Moreira da Cunha e Araci Asinelli da Luz, do programa de pós-graduação em Educação da Univer­sidade Federal do Paraná (UFPR).

O estudo utiliza informações do questionário socioeconômico preenchido pelos participantes do Enem. Os professores da UFPR avaliaram as respostas de aproximadamente 6,4 milhões de estudantes que estavam concluindo a educação básica no ano do exame. Segundo Araci, pesquisadora que trabalha há mais de 20 anos com questões relacionadas à sexualidade e é membro da Comissão da Crian­­ça e do Adolescente da Or­­dem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Paraná, a escola constitui um dos principais espaços de socialização dos jovens e, assim como outros ambientes, costuma ser hostil aos homossexuais. "A discriminação se manifesta de várias formas: de risadinhas, do afastamento, do olhar indignado e das piadinhas até as agressões verbais e físicas", afirma.

Articuladora estadual da Liga Brasileira de Lésbicas, Léo Ribas, 39 anos, diz que sofreu violência verbal e psicológica na época do colégio. Ela conta que todas as outras meninas saíam do banheiro assim que ela entrava e que uma vez passou pela sala dos professores e ouviu comentários maldosos a seu respeito. Mas o preconceito pode ir bem mais longe. "Quando eu ti­­nha 14 anos, uma colega que também era lésbica foi violentada no banheiro por cinco alunos, o chamado estupro corretivo. A situação foi levada para a direção e eles não fizeram nada. Essa aluna nunca mais estudou", afirma.

Fenômeno masculino

De acordo com o estudo, em todos os anos avaliados o porcentual de homens que sofreram discriminação homofóbica foi maior que o porcentual de mulheres. Segundo Araci, é mais difícil as pessoas aceitarem trocas de afeto entre dois ho­­­­mens que entre duas mulheres. "Um relacionamento homossexual é a possibilidade da expressão pública desse afeto, que se manifesta por beijos, mãos dadas. Duas mulheres de braços dados você vê toda hora. Mas, se forem dois ho­­mens, já vão dizer que são ‘bichinhas’", afirma.

Márcio Marins, diretor-geral do grupo Dom da Terra, instituição que trabalha na defesa da cidadania LGBT e da cultura afrodescendente, foi testemunha de vários casos de abandono escolar provocados por discriminação sexual. Segundo ele, muitas vezes a escola silencia ou colabora ativamente na reprodução desse tipo de violência. "Além das situações em que fui testemunha ocular, existe hoje uma grande demanda de pessoas que nos procuram para denunciar esse tipo de discriminação nas escolas. Este ano tivemos o caso de um aluno que foi espancado dentro da sala de aula de um colégio público por causa da sua orientação sexual. A mãe procurou a direção e foi orientada a não dar queixa e mudar o filho de escola", afirma.

Situações difíceis em sala de aula

A professora Francine Mattar Matiskei Ziemmermann, 30 anos, dá aulas de Filosofia e Sociologia para alunos de ensino médio e confessa que algumas vezes teme ser taxada de preconceituosa por agir com mais firmeza diante dos estudantes. Ela conta que não sabe como se comportar em relação a um aluno homossexual que regularmente "provoca" outros estudantes e faz brincadeiras de cunho sexual. "Sempre passo por esse tipo de situação entre meninos e meninas. Mas com ele existe um temor. Uma vez chamei a atenção e os outros alunos brincaram que eu o estava discriminando", diz.

Na opinião de Francine, uma capacitação sobre diversidade sexual poderia auxiliá-la a lidar com esse tipo de situação. "Para que as pessoas consigam interagir de forma mais natural, acho fundamental haver um curso de formação", afirma. A professora diz que o estudante é popular entre os colegas e não sofre discriminações, ao contrário do que muitas vezes acontece. "Minha filha de 9 anos estuda em uma escola bem conservadora. Ela chegou esses dias e falou: ‘Mãe, na minha sala tem um menino que eu tenho certeza que é bichinha’. Ela usou um termo pejorativo e tivemos de conversar sobre o assunto", conta.

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