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Em “defesa da vida das mulheres”

Aula na PUC-SP tem Erika Hilton e representante de grupo considerado terrorista nos EUA

Arte da aula aberta, divulgada no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram/generoinsurgente)

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Uma aula aberta em defesa das mulheres na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), marcada para a próxima segunda-feira (9), tem entre os convidados anunciados a deputada federal Erika Hilton (Psol) e Rawa Alsagheer, coordenadora do grupo Samidoun, banido na Alemanha por “antissemitismo” e considerado organização terrorista por diversos países, como Estados Unidos e Canadá.

Promovido pelo Núcleo de Gênero do curso de Psicologia da PUC-SP, o encontro tem como temáticas “defesa da vida das mulheres, contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6x1”, segundo uma arte de divulgação publicada na conta do Núcleo de Relações Gênero e Psicologia: latinidades insurgentes, no Instagram.

De acordo com a divulgação pública do evento, Rawa Alsagheer é uma cineasta e ativista política palestina nascida na Síria, “coordenadora de Samidoun, rede de solidariedade aos prisioneiros palestinos nas prisões da ocupação israelense, e membro do movimento Caminho Palestino Revolucionário Alternativo e do movimento Alkaramah para as mulheres palestinas”.

Em seu site oficial, a Samidoun se autointitula “uma rede internacional de organizadores e ativistas que trabalha para construir solidariedade com os prisioneiros palestinos em sua luta por liberdade”. Com capítulos e afiliados nos EUA, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Holanda, Bélgica, Grécia, Espanha, Brasil, Palestina e Líbano, a organização surgiu a partir de uma greve de fome de palestinos em prisões israelenses, entre setembro e outubro de 2011. “Nosso trabalho consiste em conscientizar e fornecer recursos sobre os presos políticos palestinos, suas condições, suas demandas e sua luta pela liberdade — tanto para si mesmos quanto para seus companheiros de prisão e sua pátria”, afirma a plataforma digital do grupo.

O grupo enfrenta acusações de antissemitismo, terrorismo e proximidade com o Hamas em diversos países. Em novembro de 2023, a Samidoun foi banida na Alemanha, sendo definida pela então ministra do Interior alemã, Nancy Faeser, como “uma rede internacional que dissemina propaganda anti-Israel e antijudaica, enquanto afirma promover solidariedade com prisioneiros em diferentes países”. “Samidoun também apoiou e glorificou várias organizações terroristas estrangeiras, incluindo o Hamas. Com suas 'celebrações' espontâneas aqui na Alemanha após os horríveis ataques terroristas do Hamas em Israel, Samidoun revelou seu antissemitismo e absoluta falta de consideração pela vida humana de uma forma especialmente abominável”, declarou Faeser, à época.

Em outubro de 2024, em uma ação conjunta com o Canadá, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou a Samidoun, por atuar como “uma instituição de caridade simulada que atua como arrecadadora internacional de fundos para a organização terrorista Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP)”. Na ocasião, a organização também passou a integrar a lista de entidades consideradas terroristas pelo governo canadense.  

De acordo com os EUA, a Samidoun é “uma organização de fachada sediada em Vancouver, Canadá, e criada pela FPLP, que está envolvida na arrecadação de fundos para a FPLP”. “Samidoun serve como fachada para o grupo em países onde a FPLP é declarada organização terrorista. Embora a organização supostamente apoie prisioneiros palestinos e seus familiares, na prática Samidoun oferece apoio financeiro ao PFLP sancionado”, justifica o comunicado do governo americano.

O governo israelense já havia designado a Samidoun como uma organização terrorista em 2021, por recomendação do Shin Bet (agência de segurança do país). Isso porque, de acordo com Israel, o grupo atua no exterior em nome da FPLP.

Em fevereiro deste ano, o coordenador do Samidoun na Europa, Mohammed Khatib, foi preso na Grécia, de onde recebeu ordem de deportação, por razões de “segurança nacional”. Em agosto do ano passado, a Bélgica já havia revogado seu status de refugiado, onde vivia desde 2010 e era asilado desde 2015, por “propagar ódio” e apoiar abertamente o Hamas e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), ambos na lista de organizações terroristas da União Europeia (UE). As informações são do Jerusalem Post.  

Convite da aula, postado no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram/generoinsurgente)
Convite da aula, postado no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram/generoinsurgente)

Convidada da aula

A convidada do evento na PUC-SP assina um artigo na seção de notícias da Samidoun em português, criticando uma empresa privada de segurança, que teria sido fundada por dois ex-militares israelenses com atuação nas Forças de Defesa de Israel. Segundo Rawa Alsagheer, a companhia “oferece um modelo de vigilância integral, baseado em tecnologias testadas nos territórios ocupados da Palestina”, como reconhecimento facial em tempo real para rastrear multidões, totens com câmeras, portaria remota, monitoramento veicular, drones e plataforma de IA com gestão de acesso por meio de biometria, por exemplo.

“Em Gaza, essas tecnologias foram usadas para caçar militantes, neutralizar jornalistas, monitorar crianças e punir famílias inteiras por seus vínculos políticos. No Brasil, o discurso é de ‘eficiência’, mas a lógica é a mesma: identificar, catalogar, controlar, punir”, afirma, criticando o Estado brasileiro, por permitir que “ex-oficiais de uma potência ocupante operem uma empresa de segurança privada em território nacional, utilizando tecnologias importadas de um regime acusado de crimes de guerra”.

No texto, Rawa Alsagheer define o modelo de segurança como um “braço armado de um capitalismo de vigilância racial” que instala no país uma “versão tropicalizada da ocupação israelense”. “Nos territórios ocupados da Palestina, o alvo era o palestino. No Brasil, o alvo são os pobres, os negros, os periféricos, os dissidentes. A lógica é a mesma: enquadrar a vida sob suspeita.”

“A gilete do discurso não cabe na boca das travestis”

Outros nomes anunciados na arte do evento são a deputada Erika Hilton, “autora da PEC que propõe o fim da escala 6x1”, a professora da PUC-SP Myrt Cruz, além de Maria Fernanda Marcelino, “da Sempreviva Organização Feminista, militante da Marcha Mundial das Mulheres”, e Paola Alves de Souza, com formação em história e doutorado em psicologia pela USP.

Paola é autora da tese de doutoramento “A gilete do discurso não cabe na boca das travestis: Uma arqueogenealogia da retina cisgênero que fabrica tumbas”, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em que afirma que “os discursos cisnormativos historicamente aprisionaram os corpos trans em regimes de estigma e controle”.

“Orientada pela arqueogenealogia foucaultiana, a pesquisa analisa como a chamada ’retina cisgênero’ produz imagens de abjeção que associam esses corpos à violência, doença e prostituição”, diz o resumo do trabalho, disponível na plataforma de teses da USP.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Erika Hilton para confirmar sua presença no evento, mas não obteve retorno até o momento da publicação.

A Gazeta do Povo procurou a organização do evento, que não quis se manifestar.

Por meio de assessoria de imprensa, a PUC-SP informou que “por mais que [o evento citado na reportagem] não componha a agenda oficial de eventos institucionais da Universidade, é certo que não se espera, segundo seu programa, qualquer manifestação contrária aos valores estatutários e à missão da PUC-SP”.

“A livre manifestação do pensamento e de valores humanistas fazem parte do DNA da PUC-SP, assim como a defesa intransigente da Democracia e do Estado de Direito, tanto quanto o desejo pela harmonia entre os povos e a manutenção da paz. Todos os eventos que acontecem no interior da Instituição devem observar esses valores indicados, sendo que eventuais violações serão devidamente apuradas, com eventual responsabilização de indivíduos que deixem de observar as normas cabíveis”, afirma a nota da instituição.

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