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Comportamento

Balada regada a refrigerante

Jovens derrubam o mito de que a noite só fica interessante e divertida se houver bebida alcoólica

Eduardo e Lilian, ao centro: todo mundo curte sair à noite, mas sem bebida alcoólica | Fotos: Pedro Serápio/Gazeta do Povo
Eduardo e Lilian, ao centro: todo mundo curte sair à noite, mas sem bebida alcoólica (Foto: Fotos: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)
Amanda é a motorista da vez por opção:

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Amanda é a motorista da vez por opção:

A aprovação da lei seca impôs uma mudança cultural aos jovens: pelo menos um deles, na balada, precisa ficar sem beber álcool. O indivíduo escolhido já recebeu até nome: é o motorista da vez. Mas como fica essa pessoa? Faz o "sacrifício" de não beber em função dos outros ou derruba o mito de que a diversão só é possível quando se está sob efeito do álcool? Quem já passou pela experiência garante que dá sim para se divertir muito sem precisar ingerir uma gota de cerveja.

A estudante Amanda Cristina Paulin, 21 anos, costuma sair quatro vezes por semana. Apesar de ela ter um grupo de amigos que gosta de beber, Amanda prefere tomar água por opção. "Não aprecio o sabor das bebidas alcoólicas", diz. "Também acredito que a diversão sem álcool é a verdadeira, a mais autêntica. Se danço é porque realmente gosto, se fico com alguém é porque eu escolhi. Não tem essa de dizer que tomei determinadas atitudes porque estava bêbada."

Na vida noturna, Amanda é quase uma exceção, afinal a maioria dos jovens usa o álcool com a desculpa de que é uma injeção de ânimo e coragem: primeiro para começar a dançar e se relacionar "melhor" com as pessoas, segundo porque é dessa maneira que se ganha forças para chegar em alguém com quem você quer namorar.

O psiquiatra e especialista em dependência química Luiz Antônio Penteado Setti afirma que essa procura pela felicidade não deve acontecer por meio de uma substância artificial. "É óbvio que dá para se divertir sem álcool. O problema é que as pessoas fazem uso dele como uma forma terapêutica ou para se sentirem mais estimuladas. Elas não percebem que tomam essas atitudes porque estão deprimidas", diz Setti.

Estímulo a mais

Não dá para negar que o álcool modifica as características do ser humano e é exatamente por causa disso que ele acaba sendo mais consumido nas baladas do que sucos e refrigerantes. Ao ser ingerida, a bebida alcoólica deixa as pessoas eufóricas, ou seja, o indivíduo introvertido fica falante e animado. O problema é que essa regra só vale para o início da noite. Na segunda fase o álcool é depressor – depois de beber a pessoa começa a ficar com sono, desmotivada.

"Ninguém nega o prazer da droga, porque isto seria uma bobagem. Se fosse tão ruim, não teríamos tantas pessoas dependentes", afirma Setti. "Até hoje, nunca tive pacientes que apareceram no meu consultório porque eram dependentes de jiló, até porque ele é amargo. A questão a se perguntar é quanto eu pago para poder beber, o quanto isto custa para minha vida", diz.

O psiquiatra lembra que o efeito do álcool no organismo é avassalador: atinge todos os órgãos porque a bebida tem moléculas muito pequenas. "Considero a pior das drogas porque ela demora para pegar dependência, mas depois é muito mais difícil de largar. A pessoa sofre com a abstinência."

Questão de escolha

O problema do consumo de álcool está no excesso. "Antes chegava às 22 horas na balada e meia hora depois estava bêbada, caindo pelos cantos. Não tinha noção plena do que havia acontecido e ainda ficava com uma baita ressaca no dia seguinte", conta Lilian Custódia Rodrigues, 25 anos. Ela mudou radicalmente. "Hoje não bebo mais. Tenho absoluta certeza do que estou fazendo. E posso dizer que me divirto muito mais agora, até porque as piadas fazem sentido porque são boas e não porque tomei um litro de vodca."

Faz parte da cultura do brasileiro: beber para se divertir. Por isso até parece que, fora do uso do álcool, não há vida no planeta, segundo o psiquiatra e diretor do Hospital Nossa Senhora da Luz, Dagoberto Requião. Para ele, isto é uma grande enganação. "Diferente do que pensam, a bebida é depressora da atividade mental. Apesar de ter um efeito inicial que parece euforizante, ela na verdade é inibidora", diz. "Basta olhar para uma festa: no começo as pessoas são mais educadas e depois vão rindo cada vez mais alto, se tornando inadequadas, abaixo da crítica. O que se percebe é que elas têm dificuldades de estar à vontade em um evento, então precisam ingerir álcool."

Costume

O costume de beber em festas está tão enraizado na sociedade que optar pela companhia da água já virou até motivo de chacota. Eduardo Lubiazi, de 20 anos, não gosta de bebidas alcoólicas e, por isso, teve de se acostumar com os amigos que não largam do pé dele. "Não fico ofendido com o que eles dizem. As pessoas bebem porque querem ficar interessantes, isto não é normal. Acho que elas precisam investir mais na auto-estima", diz.

Depois da lei seca, Lubizai começou a ser visto com outros olhos, porque o cara que antes era careta passou a ser mais valorizado, afinal todo mundo pega carona com ele porque gosta de ir para casa com segurança. Ele é straight edge, denominação dada às pessoas que gostam de punk e hardcore. Os adeptos normalmente são vegetarianos e não usam nenhum tipo de substância química, incluindo o álcool. "Nosso lema é nos manter limpos, livre de drogas para estar consciente dos próprios atos."

Lilian faz parte do mesmo grupo. Os straight edge usam como símbolo, em cada mão, uma tatuagem em formato de "x". A idéia começou nos Estados Unidos, em um show. Os jovens menores de idade foram marcados com o "x" para não conseguir comprar bebida alcoólica.

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