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Educação alimentar

Bolsa Família tem mais obesos do que subnutridos

Em 4 anos houve um aumento de 26% no número de adultos que participam do programa e apresentam obesidade. Os obesos já representam 17,2% do total de beneficiados

Delair com a neta, Dariane: preocupação em oferecer uma alimentação saudável para a família | Josué Teixeira/ Gazeta do Povo
Delair com a neta, Dariane: preocupação em oferecer uma alimentação saudável para a família (Foto: Josué Teixeira/ Gazeta do Povo)

É mais fácil encontrar pessoas obesas do que subnutridas entre os usuários do programa Bolsa Família, do governo federal. De acordo com o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), ligado ao Ministério da Saúde, os adultos obesos que recebiam o benefício no país em 2008 representavam 13,6% do total de usuários nessa faixa etária. Em 2011, essa taxa subiu para 17,2%. Por outro lado, a quantidade de adultos com baixo peso diminuiu de 6,2% para 4% do total de usuários. Uma das explicações possíveis para o fenômeno é que a renda extra adquirida pelos participantes do programa pode ter aumentado o consumo de produtos industrializados e calóricos.

A tendência de maiores taxas de obesidade e menores índices de baixo peso se manteve em todas as regiões, porém, com variações marcantes. O Sul aparece com o maior índice de obesidade do país, com 23,7% dos beneficiários adultos do Bolsa Família acima do peso ideal, enquanto o Nordeste apresenta uma taxa de obesidade de 14,3%, ou seja, uma diferença de 65,7%. Os nordestinos, porém, concentram a maior taxa de magreza entre os usuários do programa, ou seja, 4,2% dos usuários em 2011 estavam abaixo do peso ideal. Do lado oposto está o Sudeste brasileiro, que tem a menor taxa de baixo peso entre os usuários adultos do programa: 3,5%.

É interessante pontuar que a taxa de obesidade entre os adultos titulares do Bolsa Família é superior à média da população brasileira medida pela pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Em 2011, 15,8% dos brasileiros eram considerados obesos, enquanto entre os usuários do Bolsa Família o índice foi de 17,2% no mesmo ano.

Conforme o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o foco principal do programa é a transferência de renda com o monitoramento das famílias no que se refere à frequência a consultas de pré-natal (no caso das gestantes), à atualização da carteira de vacinação das crianças, ao acompanhamento da saúde dos filhos e à frequên­cia escolar. Mas, conforme a assessoria de imprensa do MDS, o Bolsa Família também prevê a implantação de programas de educação alimentar nos estados e nos municípios a cargo dos gestores locais do programa.

Hábitos

Para a família de Delair da Silva, moradora da periferia de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, o poder público não ofertou programas de educação alimentar. Foi a própria Delair quem tomou a iniciativa de oferecer uma alimentação saudável para os netos Dariane, de 4 anos, e Leonardo, de 8 meses, que juntos recebem R$ 160 mensais do Bolsa Família.

"Eu sempre vi na televisão que comer salgadinho e doce não faz bem para a criança", afirma Delair. Dariane só consome alimentos saudáveis e, na hora do lanche, prefere frutas a produtos industrializados. Na casa da família Silva moram seis pessoas e o orçamento familiar é de cerca de R$ 1,2 mil. O dinheiro do programa, que começou a ser depositado em fevereiro deste ano, é usado para reforçar a compra de alimentos.

Dinheiro é usado na alimentação

Uma pesquisa nacional feita em 2008 pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) observou que os titulares do programa Bolsa Família investiam o benefício principalmente na alimentação. A pesquisa comprovou que 87% do dinheiro recebido mensalmente era destinado à compra de alimentos. Ela demonstrou ainda que a maioria dos usuários, 78%, havia aumentado o consumo de açúcar, rico em calorias, após a entrada no programa, e que somente 55% dos beneficiários informaram ter aumentado o consumo de frutas.

A especialista em Saúde Pública e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Maria Teresa Gomes de Oliveira Ribas, que participou da elaboração da pesquisa em municípios do Sul do Brasil, diz que é muito frequente a aquisição de produtos industrializados com a entrada no programa. "O que nos chamou a atenção foi o investimento, especialmente em famílias com crianças menores de 7 anos, na compra de iogurte e determinados produtos, como bolachas recheadas", recorda.

Beneficiária do programa e moradora de Ponta Grossa, Rosenilda Seling afirma que gasta os R$ 64 que recebe do governo federal preferencialmente no mercado. "Meus meninos comem de tudo, mas eu sempre compro iogurte. Para eles não acostumarem, eu vou equilibrando, dou aos poucos, não deixo a bandeja à disposição", afirma. Rosenilda é mãe de Antônio, de 5 anos, e de Guilherme, 2. A renda total da família não chega a R$ 1 mil mensais.

Segundo o MDS, até o mês passado o país tinha 13,4 milhões de famílias titulares do programa, 431,3 mil delas no Paraná. Para Maria Teresa, é preocupante que a taxa de obesidade esteja em crescimento. "As consequências da obesidade são o aumento de triglicerídeos, que levam a doenças cardíacas e à diminuição da qualidade de vida", aponta.

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