Pela primeira vez em 151 anos de história, a Polícia Militar do Paraná irá promover uma mulher ao posto de tenente-coronel, a segunda mais alta patente na hierarquia da PM. Uma honraria que premiará a carreira da major Rita Aparecida de Oliveira, 46 anos, 28 deles dedicados à polícia. Indicada pelo comando-geral da PM, a oficial aguarda apenas a sanção do governador Roberto Requião e a publicação no Diário Oficial do Estado, o que deve ocorrer em breve, para oficializar a promoção. Tão logo isso ocorra, ela deve se tornar também a primeira mulher a comandar um batalhão da PM no estado: o 12.° Batalhão, que responde pelo centro de Curitiba e mais 33 bairros. De fala fácil e agradável, ela gosta de uma boa conversa e comenta o dia-a-dia da PM. "A polícia precisa se preparar melhor", defende. Geração saúde, costuma vir correndo para o quartel-general da PM, no Rebouças. O detalhe é que ela mora no Ecoville distante oito quilômetros do centro de Curitiba. "Acordo às 5h30 e chego a correr 15 quilômetros. Depois ainda faço aeróbica no quartel". Fora dele, dedica seu tempo livre aos irmãos e à mãe. "Meu foco sempre esteve na polícia."
A promoção dela consolida a presença feminina na PM paranaense uma trajetória que começou em 1977, com a criação do pelotão feminino da PM (veja quadro). A tenente-coronel Aparecida integrou a primeira turma, criada em 19 de abril daquele ano. Ela formou-se como segundo sargento e quatro anos depois passou no vestibular para aspirante a oficial da PM do Paraná. "Fui a primeira colocada no curso de oficiais e tive a honra de empunhar o estandarte da academia de polícia", recorda. De lá para cá, ajudou a implantar novos pelotões femininos no interior do estado e transformou-se em defensora da participação da mulher na PM. Hoje, 500 mulheres integram o efetivo de 16 mil PMs no Paraná (2,4% do contingente). Atualmente, a oficial responde pela coordenação do Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) da Polícia Militar, que promove palestras e aulas educativas para estudantes de 174 municípios. Ela ainda é vice-presidente do Conselho Estadual Antidrogas, órgão da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania.
Na prática, a oficial já colhe os louros da promoção. Cartas, bilhetes e fax de cumprimentos abarrotam sua mesa no Proerd e o telefone não pára de tocar. Para ela, além da ascensão profissional, a promoção traz uma grande responsabilidade. "Tenho a noção de que servirei de espelho para as outras policiais e por isso preciso desempenhar minhas funções da melhor maneira possível", explica.
Trajetória
Tarefa que não parece difícil para uma mulher que venceu muitas barreiras na vida. Orgulhosa filha de lavradores, a tenente-coronel Aparecida nasceu em uma família de 12 filhos em Paranacity, na Região Noroeste, e foi criada em Moreira Sales, no Centro-Oeste do estado. "Sempre tive como referência os meus pais. Mesmo com dificuldades, eles criaram 11 filhos (um dos irmãos morreu ainda pequeno) e nos proporcionaram uma vida digna. Meu pai sempre fez questão que fôssemos à escola porque ele sabia que a educação mudaria a nossa vida", afirma.
A família mudou-se para Curitiba em 1974, seguindo os passos do irmão mais velho, que já trabalhava na capital. "Depois que ingressei na PM, me empenhei ao máximo e procurei conquistar o espaço da mulher na polícia", afirma ela, que sempre lutou pela manutenção do quadro feminino à parte do masculino, mas depois mudou de idéia. "A melhor coisa que ocorreu para nós foi o desmembramento da companhia feminina (em 1994), porque passamos a trabalhar de forma integrada com os homens. Um fortaleceu o outro", diz, com um ar de missão cumprida.



