
Se até uma década atrás era comum ouvir que estudantes do interior iriam para a capital estudar ou que uma pessoa tentaria a sorte na cidade grande, agora a tendência é justamente o contrário. Os brasileiros estão ficando cada vez mais em suas cidades de origem e os que algum dia saíram do local em que nasceram, agora estão retornando. Dados do Censo Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelam que entre 2005 e 2010 aumentou a chamada "migração de retorno" dentro do país.
Para especialistas, esse movimento é a prova de que as grandes capitais (como Rio de Janeiro e São Paulo) estão saturadas e de que as cidades pequenas e médias conseguiram se desenvolver a ponto de ser tão atraentes que seguram ou chamam de volta a sua população.
Só em São Paulo, 206,7 mil pessoas voltaram para a cidade natal. O Paraná, em número absoluto, é o quarto estado que mais registrou a migração de retorno: foram 94,8 mil pessoas. As outras duas unidades da federação que se destacaram foram Minas Gerais (133,6 mil) e Bahia (103,8 mil). "Isso é um ótimo sinal. A migração significa quase sempre que algo não está indo bem naquela região. As pessoas migram para poder sobreviver e há muita tristeza nisso. Agora acontece o movimento inverso, o que significa que as regiões brasileiras estão melhorando e as desigualdades sociais diminuindo", explica o demógrafo Wilson Fusco, da Fundação Joaquim Nabuco.
Eu voltei para ficar
A dificuldade de adaptação foi o que levou o engenheiro da computação Cláudio Karpenko, 32 anos, a voltar para Curitiba sua cidade natal depois de um tempo morando em Maringá, no Noroeste do estado. "Não consegui me adaptar. A saudade da família pesou na decisão de voltar", diz. Karpenko retornou há quatro anos. Ele trabalha no escritório de uma multinacional, é casado e pai de um menino de 4 meses. "Mesmo sabendo que, na minha área, teria muito mais oportunidades em São Paulo, não penso em ir embora outra vez. O que a gente busca é diferente em cada fase da vida e aqui [em Curitiba] eu me sinto realmente em casa."
Um único e importante fator explica a migração de retorno, segundo o sociólogo Márcio de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná. "O Brasil cresceu e colocou dinheiro na mão de todo o povo", diz. Isso quer dizer que o aumento do salário mínimo real e consequentemente da aposentadoria foi uma importante entrada de recursos em municípios menores.
Qualidade de vida
Viver em uma cidade grande também tem ficado cada vez mais difícil. Foi por isso que o engenheiro de automação Ênio Tucazaki decidiu se mudar da capital paulista e voltar para Curitiba. Ele ainda está em São Paulo, mas pretende retornar até agosto. "Não consegui me adaptar. O estresse no trânsito é infernal e, quando surgiu a oportunidade de voltar, não pensei duas vezes. Está decidido", afirma. Tucazaki pretende montar uma empresa na capital paranaense.
"Digo que os grandes centros sofrem com a deseconomia de aglomeração. Chega um ponto em que para se ter qualidade de vida fica caro, porque há muita insegurança. É melhor, então, viver em cidades médias com qualidade de vida melhor", explica o professor Alisson Flávio Barbieri, do Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais.



