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Papa bento XVI

Cardeal-de-ferro conseguiu transmitir ternura ao povo

O alemão Joseph Ratzinger, sucessor de João Paulo II, pelo sim e pelo não, é um dos maiores intelectuais cristãos do século 20

Um Papa sorridente surpreendeu e agradou os fiéis brasileiros. | Rodolfo BUuhrer/Gazeta do Povo
Um Papa sorridente surpreendeu e agradou os fiéis brasileiros. (Foto: Rodolfo BUuhrer/Gazeta do Povo)
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Curitiba – "Depois de João Paulo II, qualquer Papa vai parecer um vigário de aldeia." A frase, dita ao vento por ocasião da morte de Karol Wojtyla, em 2005, ainda tem o impacto de um pé-de-ouvido. Ora, ora – o Sumo Pontífice acabou sendo ninguém menos do que Joseph Ratzinger, pelo sim e pelo não um dos maiores intelectuais cristãos do século 20. E se não me falha a memória, durante o pontificado, cansaram de comparar JPII a um vigário polonês – aquele sacerdote que bate de porta em porta, brinca com as crianças, consola as famílias, aconselha a fazer o bem e a rezar antes de dormir. Provável mesmo é que tão cedo o mundo não vai ter outro vigário de aldeia como inquilino do Vaticano. João de Deus deixou saudades, mas os anos Ratzinger não devem ser nuvem passageira – serão osso duro de roer. O homem tem estilo – e com estilo não há quem possa.

Teólogo soberbo e envolvido com a burocracia romana até o último botão da batina, Ratzinger estava talhado para o cargo. É de fé que o Espírito Santo sopra onde quer, mas também sopra exatamente onde se imagina. Foi o caso. O Divino agiu como um gerente corporativo experiente, deixando para mais tarde a ilusão de como seria ter um Papa negro, asiático, latino-americano ou norte-americano. Em troca, mandou um germânico Joseph R., com quem os dias não são nada românticos. São realistas, como não poderia deixar de ser em se tratando do um dia chamado cardeal-de-ferro. Sua fama de durão dispensa apresentações.

O mais curioso é que o implacável homem da Baviera consegue despertar ternura apesar de carregar toneladas nas costas: o peso da idade e do nome Ratzinger, além da desvantagem em relação ao atlético e teatral João Paulo II. Se nas décadas de 80 e 90, quando estava à frente da severa Congregação para a Doutrina da Fé, uma vidente dissesse que nos anos 2000 Joseph ia ser ovacionado por 1,5 milhão de fiéis em São Paulo, o povo ia gargalhar. Hoje, a simpatia contida que desperta é um enigma, mas faz jus ao sujeito que não se encaixa fácil nos rótulos que lhe preparam. Nem vigário, nem inquisidor, nem conservador. Joseph R. não é para amadores.

Na época em que vivia às turras com a turma da vanguarda teológica ele não encheria uma Kombi. Vira e mexe alguém o associava à finada Inquisição, à direita, ao eurocentrismo e ao conservadorismo, termos que não sobrevivem a tantas coisinhas miúdas desse débil século 21, como Nicolas Sarcozy na presidência da França, as esquerdas trajando rosa e meio mundo atrás das últimas sobre a Venezuela – entre outras provas de que o mundo já acabou, pelo menos aquele. Boa parte dos temas que apaixonaram gerações não sobreviveram a esses dias de apatia, home-theater e celular. O enrosco de Ratzinger com os teólogos Hans Kung e Leonardo Boff é um deles. E o próprio Ratzinger de dar medo em criancinha se foi: sem-cerimônia, ele foi substituído por Bento XVI, o Papa que ninguém esperava e do qual ninguém consegue tirar os olhos. Quer-se saber o bicho que vai dar.

Para aumentar a expectativa, há algo do velho Ratzinger que sobrevive a Bento XVI. Sorte nossa. As associações entre o homem da doutrina e o pastor evitam que ele se transforme numa figura decorativa, previsível, a quem se ouve fazendo esforço para não bocejar. Ele é um bom papo, justamente por ser uma boa briga. A saia-justa entre teólogos na qual um dia se meteu é uma prova disso. O assunto interessou tanto que virou uma das mais deliciosas conversas fiadas do século. Todo mundo meteu o bedelho – inclusive os que pegaram a história no meio, não entendiam lhufas de dogmas e afins, mas que fizeram valer a liberdade de expressão e as delícias de um arranca-rabo. Bons tempos. Por mais desastrada que tenha sido para a imagem do atual Papa o barraco com os teólogos da vanguarda européia e com os teólogos da libertação, pela primeira vez depois do Vaticano II o mundo discutiu teologia como quem vai à feira. E entendeu que não era um assunto de sacristia, mas gênero de primeira necessidade.

Carne e osso

Por essas e outras, quando Bento XVI sai na sacada da Praça de São Pedro ou quando desce no Aeroporto de São Paulo, o milagre é que se vê ali um Papa literalmente de carne e osso, passível de ser malhado e afrontado, como Ratzinger um dia foi. Sua Santidade é o sujeito que tem o que dizer – e que costuma surpreender. Não fosse assim, sua visita a Auschwitz, ano passado, seria protocolar e sem graça. Mas como "baixou" o Ratzinger no Papa, ele perguntou onde Deus estava naquela hora (a do genocídio judeu), pegando meio planeta de calça-curta. Foi fogo sobre terra. No saldo, a evidência de que a laicização do mundo castrou nossa capacidade de pensar a religião não como devoção barata, mas como cultura, filosofia, tradição. Doa a quem doer. Tem doído – esse é o papado de Bento, aquele que tem estilo e cujo nome de batismo ninguém ousa esquecer.

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