
Curitiba "Depois de João Paulo II, qualquer Papa vai parecer um vigário de aldeia." A frase, dita ao vento por ocasião da morte de Karol Wojtyla, em 2005, ainda tem o impacto de um pé-de-ouvido. Ora, ora o Sumo Pontífice acabou sendo ninguém menos do que Joseph Ratzinger, pelo sim e pelo não um dos maiores intelectuais cristãos do século 20. E se não me falha a memória, durante o pontificado, cansaram de comparar JPII a um vigário polonês aquele sacerdote que bate de porta em porta, brinca com as crianças, consola as famílias, aconselha a fazer o bem e a rezar antes de dormir. Provável mesmo é que tão cedo o mundo não vai ter outro vigário de aldeia como inquilino do Vaticano. João de Deus deixou saudades, mas os anos Ratzinger não devem ser nuvem passageira serão osso duro de roer. O homem tem estilo e com estilo não há quem possa.
Teólogo soberbo e envolvido com a burocracia romana até o último botão da batina, Ratzinger estava talhado para o cargo. É de fé que o Espírito Santo sopra onde quer, mas também sopra exatamente onde se imagina. Foi o caso. O Divino agiu como um gerente corporativo experiente, deixando para mais tarde a ilusão de como seria ter um Papa negro, asiático, latino-americano ou norte-americano. Em troca, mandou um germânico Joseph R., com quem os dias não são nada românticos. São realistas, como não poderia deixar de ser em se tratando do um dia chamado cardeal-de-ferro. Sua fama de durão dispensa apresentações.
O mais curioso é que o implacável homem da Baviera consegue despertar ternura apesar de carregar toneladas nas costas: o peso da idade e do nome Ratzinger, além da desvantagem em relação ao atlético e teatral João Paulo II. Se nas décadas de 80 e 90, quando estava à frente da severa Congregação para a Doutrina da Fé, uma vidente dissesse que nos anos 2000 Joseph ia ser ovacionado por 1,5 milhão de fiéis em São Paulo, o povo ia gargalhar. Hoje, a simpatia contida que desperta é um enigma, mas faz jus ao sujeito que não se encaixa fácil nos rótulos que lhe preparam. Nem vigário, nem inquisidor, nem conservador. Joseph R. não é para amadores.
Na época em que vivia às turras com a turma da vanguarda teológica ele não encheria uma Kombi. Vira e mexe alguém o associava à finada Inquisição, à direita, ao eurocentrismo e ao conservadorismo, termos que não sobrevivem a tantas coisinhas miúdas desse débil século 21, como Nicolas Sarcozy na presidência da França, as esquerdas trajando rosa e meio mundo atrás das últimas sobre a Venezuela entre outras provas de que o mundo já acabou, pelo menos aquele. Boa parte dos temas que apaixonaram gerações não sobreviveram a esses dias de apatia, home-theater e celular. O enrosco de Ratzinger com os teólogos Hans Kung e Leonardo Boff é um deles. E o próprio Ratzinger de dar medo em criancinha se foi: sem-cerimônia, ele foi substituído por Bento XVI, o Papa que ninguém esperava e do qual ninguém consegue tirar os olhos. Quer-se saber o bicho que vai dar.
Para aumentar a expectativa, há algo do velho Ratzinger que sobrevive a Bento XVI. Sorte nossa. As associações entre o homem da doutrina e o pastor evitam que ele se transforme numa figura decorativa, previsível, a quem se ouve fazendo esforço para não bocejar. Ele é um bom papo, justamente por ser uma boa briga. A saia-justa entre teólogos na qual um dia se meteu é uma prova disso. O assunto interessou tanto que virou uma das mais deliciosas conversas fiadas do século. Todo mundo meteu o bedelho inclusive os que pegaram a história no meio, não entendiam lhufas de dogmas e afins, mas que fizeram valer a liberdade de expressão e as delícias de um arranca-rabo. Bons tempos. Por mais desastrada que tenha sido para a imagem do atual Papa o barraco com os teólogos da vanguarda européia e com os teólogos da libertação, pela primeira vez depois do Vaticano II o mundo discutiu teologia como quem vai à feira. E entendeu que não era um assunto de sacristia, mas gênero de primeira necessidade.
Carne e osso
Por essas e outras, quando Bento XVI sai na sacada da Praça de São Pedro ou quando desce no Aeroporto de São Paulo, o milagre é que se vê ali um Papa literalmente de carne e osso, passível de ser malhado e afrontado, como Ratzinger um dia foi. Sua Santidade é o sujeito que tem o que dizer e que costuma surpreender. Não fosse assim, sua visita a Auschwitz, ano passado, seria protocolar e sem graça. Mas como "baixou" o Ratzinger no Papa, ele perguntou onde Deus estava naquela hora (a do genocídio judeu), pegando meio planeta de calça-curta. Foi fogo sobre terra. No saldo, a evidência de que a laicização do mundo castrou nossa capacidade de pensar a religião não como devoção barata, mas como cultura, filosofia, tradição. Doa a quem doer. Tem doído esse é o papado de Bento, aquele que tem estilo e cujo nome de batismo ninguém ousa esquecer.




