Pedro (nome fictício) tem só 10 anos de idade e já contraria a lógica das estatísticas sociais do Brasil. Gosta de ler, de andar de patins e de jogar futebol. É um menino inteligente e alegre, bem diferente daquele que se desenhava desde muito cedo. Aos 2 anos, foi abandonado pela mãe, aos 3 viu o pai ser morto a tiros pelo tráfico. Passou então a ser explorado pelo tio, obrigado a viver num insalubre barraco de favela. Aos 7, mais violência e rejeição no reencontro com a mãe. Cedo ou tarde, o desfecho dessa história estaria nas páginas policiais, não fosse uma carta misteriosa, de origem desconhecida, reescrever um novo rumo para a vida do menino.
Quis o destino que, por mero acaso, Pedro trocasse uma metrópole de 12 milhões de habitantes por uma cidadezinha de 12 mil almas. Ali teria melhor sorte na vida, não sem antes passar por um novo calvário. O Pedro que hoje vive na pequena São João do Triunfo 120 quilômetros a Sudoeste de Curitiba , não é nem de longe o mesmo Pedro que seria caso ainda estivesse nas ruas violentas de São Paulo, onde o número de meninos nas ruas é maior do que toda a população da cidade onde encontrou abrigo e amor. A história de agora é que conta para ele, não aquela de São Paulo.
Drama
O menino foi enjeitado pela mãe aos dois anos, trocado por uma passagem de ônibus. Os irmãos da mulher, que já desconfiavam das atitudes dela, ainda tiveram tempo de resgatá-lo das mãos de uma desconhecida na rodoviária de São Paulo. Pedro passou a viver com o pai, num barraco de favela. Numa tarde, o passeio pelas ruas da periferia foi interrompido por traficantes de drogas. Pedro viu o pai cair morto, a tiros, acusado de ser informante da polícia. Tinha 3 anos quando o viu pela última vez, imerso numa poça de sangue. A única reação foi puxá-lo pela mão.
Vamos embora, pai. Vamos embora, pai.
Curiosos se aglomeraram em volta do corpo e tiraram o garoto dali. Pedro não entendia o porquê da nova separação agora do pai e porque teria de ir com o tio, um catador de papel que mal conhecia. Chorou tão logo viu a nova casa, um porão na favela. Seu quarto dali em diante seria um cubículo raso de dois metros por dois, com pouco mais de um metro de altura. Tinha de dividir o lugar, tão insalubre quanto apertado, com restos de papelão, ratos e baratas. Não escondia o medo, mas não havia outro jeito. Desde o primeiro momento o tio nunca se revelara um bom sujeito.
Homem rude, de pouca instrução, obrigava o sobrinho a catar papel e a pedir esmolas, sob pena de açoitá-lo com cinto e corrente. As surras, no entanto, se sucediam mesmo sem motivos. Pedro não tinha ainda completado quatro anos e começava a aguçar o instinto de sobrevivência. Escondia uma parte do dinheiro que ganhava nas ruas para comprar comida. Do contrário, não tardaria a morrer de fome. O tio tirava-lhe tudo o que podia para sustentar o vício do álcool e das drogas.
O destino de Pedro começou a tomar outro rumo quando um misterioso envelope surgiu do nada na soleira da porta do Conselho Tutelar de São João do Triunfo. Cada linha daquela carta escrita a mão, em letra de forma, trazia um pouco da história de Pedro. Narrava o abandono da mãe, a morte trágica do pai, a vida dura ao lado do tio. Informava ainda que a mãe estava havia algum tempo naquela cidade, levada pelo novo companheiro que conhecera em Curitiba pouco depois de fugir de São Paulo. Encontrá-la passou a ser a missão da Promotoria da Infância e Juventude e do Conselho Tutelar.
A mulher mostrou-se feliz com a novidade, pois já dava o filho por morto. A notícia correu de boca em boca na cidade. A comunidade e a prefeitura juntaram dinheiro para que o conselheiro tutelar Mauro Sérgio Campos fosse buscá-lo em São Paulo. O tio relutou. Foi preciso autorização judicial, obtida pela promotora pública Tarcila Teixeira. Pedro chegou às vésperas do Natal de 2002. Tinha então 7 anos de idade e um semblante exaurido pelo trabalho. A mãe chorou ao tomá-lo nos braços. Houve quem acreditasse na sinceridade daquelas lágrimas.
Pedro passou por um tratamento psicológico para aceitá-la. Talvez nem precisasse. "Ele defendia a mãe com unhas e dentes", lembra o conselheiro tutelar Edson Maurício Gelinski Ribas. Se falassem mal dela, o menino ía para cima mesmo. Mas Pedro não tardou a descobrir o logro. O reencontro com a mãe seria apenas o início de um novo tormento. Ela passou a espancá-lo, sem entender que as atitudes por vezes rebeldes do menino eram reflexo das condições em que fôra criado. Por sua vez, o garoto tentava tratar com bom humor as novas marcas da agressão.
Açoitado com fios de luz, exibia os hematomas aos coleguinhas da escola. "Vejam as tatuagens que a minha mãe fez em mim", dizia. As feridas tomavam os braços e as costas, conta Edson. Ao cabo de muita agressão, há quatro meses ele escapou e refugiou-se na casa de um "tio" na área rural, a 20 quilômetros do centro da cidade. A própria mãe deu as pistas de onde ele estava. "Se fosse numa cidade grande, talvez nunca fosse encontrado", diz a conselheira Franciane Fernandes Muchinski. Pedro saiu dali direto para a casa de uma família escolhida pela promotoria. A mãe parece não ter se importado muito ao perder a guarda do filho.
Eu não consigo amar esse negrinho.
A declaração dada à promotora Tarcila Teixeira não deixa dúvidas de que a perda da guarda foi a decisão mais acertada. Pedro agora tem acompanhamento psicológico para anular o preconceito que tem de si mesmo, marcadamente por causa da cor. A melhora no comportamento e na auto-estima tem evoluido desde que se afastou da mãe. "Nem parece o mesmo", diz Edson. Hoje, Pedro aguarda adoção enquanto vive com uma mãe e um pai social. A promotora não poupa elogios ao menino e não tem dúvidas de que ele encontrará uma boa família. "É inteligente, alegre, meigo e cativa a todos que o vêem."



