
Em 1919, um soldado em Munique, na Alemanha, descobriu que era capaz de inflamar pequenos grupos de veteranos de trincheira com diatribes virulentamente antissemitas. Um de seus superiores, impressionado com as habilidades de oratória do soldado, pediu-lhe que passasse suas ideias para o papel. Disso pode ter saído o primeiro registro escrito da hostilidade obsessiva de Adolf Hitler contra os judeus, uma forma embrionária da visão de mundo que mais tarde levaria ao Holocausto e a milhões de mortos.
Agora, o Centro Simon Wiesenthal em Los Angeles adquiriu o que pode ser a versão original do documento, conhecido como a Carta de Gemlich. Em julho, o centro planeja colocá-la em exposição para o público no seu Museu da Tolerância, fazendo-a a atração principal de sua exibição sobre o Holocausto.
O texto da carta já é bem conhecido entre os estudiosos. Ele é considerado significativo porque demonstra o quão cedo em sua carreira Hitler já formulava suas visões antissemitas.
"É sua primeira declaração escrita sobre os judeus," disse o historiador Saul Friedlaender, que ganhou um Prêmio Pulitzer em 2008 por seu estudo do Holocausto. "Mostra que isso estava no cerne de sua paixão política."
A versão da carta mais conhecida está num arquivo em Munique, na Alemanha, e as notícias de que uma outra cópia havia chego a Los Angeles, nos Estados Unidos, foram recebidas com algum ceticismo por parte dos historiadores. O mercado de relíquias hitleristas é notório por suas falsificações.
"Ela tem que ser de uma proveniência muito boa", disse Klaus Lankheit, diretor dos arquivos do Instituto de História Contemporânea em Munique. "Indo por minha experiência, eu manteria uma postura muito cética."
Mas Othmar Ploeckinger, um especialista nos primeiros documentos de Hitler, diz que parece que o documento é a carta original escrita por Hitler, e que a de Munique é uma cópia feita simultaneamente. "Há muitos argumentos que me fazem crer que pode ser a original", disse Ploeckinger sobre o documento do Centro Wiesenthal.
Ele comparou uma cópia adquirida pelo centro com a versão da Carta de Gemlich nos Arquivos Estaduais da Bavária em Munique. Ploeckinger, que trabalha com uma versão comentada do livro Mein Kampf, de Hitler, para o Instituto de História Contemporânea, precaveu que mais pesquisa seria necessária para se ter 100% de certeza.
O rabino Marvin Hier, fundador e diretor do Centro Wiesenthal, diz estar convencido de que a carta de quatro páginas, adquirida pela organização por US$ 150 mil com um negociante, é genuína. "Estou absolutamente certo de que nossa cópia tem a assinatura de Adolf Hitler", disse Hier.
Hier forneceu registros indicando que o documento foi encontrado nos meses finais da Segunda Guerra Mundial por um soldado americano chamado William F. Ziegler. Numa carta à mão escrita em 1988, fornecida pelo negociante que vendeu o documento ao Centro Wiesenthal, Ziegler disse que o encontrou entre outros espalhados no chão do que parecia ser um arquivo do Partido Nazista próximo de Nuremberg.
Hier também forneceu documentos de um negociante mostrando que a assinatura de Hitler na carta havia sido validada em 1988 e, de novo, em 1990, por Charles Hamilton Jr., um especialista em caligrafia de Nova York e negociante, que ficou famoso por expor os diários falsificados de Hitler em 1983. Hamilton morreu em 1996.
Hier disse que teve a chance de adquirir a carta em 1988, quando ela apareceu no mercado, mas manteve uma postura cética porque o documento era datilografado. Isso lhe pareceu estranho para o período em questão, quando Hitler era um soldado em um país economicamente devastado pela guerra. Máquinas de escrever eram muito caras em 1919, e mesmo muitas das unidades militares não as tinham. "Como ele teve acesso a uma máquina de escrever?", perguntou Hier.
Ainda em 1988, Hier aprendeu que havia uma explicação plausível: em 1919, durante a revolta que seguiu a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, Hitler foi alistado em uma unidade de propaganda militar do exército da Bavária em Munique que tentava erradicar o sentimento bolchevique carregado pelos prisioneiros de guerra na Rússia.



