
Com 1,4 mil casos autóctones (contraídos no próprio estado) de dengue confirmados nas quatro primeiras semanas de 2013, o Paraná vive o pior janeiro dos últimos anos, perdendo apenas para 2011, quando uma violenta epidemia assolou o estado e 2.122 casos da doença foram registrados somente em janeiro. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) mostram que, no comparativo com o primeiro mês de 2012, o número de casos confirmados em janeiro deste ano cresceu 26 vezes. Cinco municípios estão em situação de epidemia: Paranavaí, Peabiru, São Carlos do Ivaí, Fênix e Japurá.
Diferentemente de outros anos epidêmicos, como 2007 e 2010, quando os picos de confirmação ocorreram de abril para frente, neste ano, chama a atenção o grande número de casos já em janeiro. Em 2010, por exemplo, quando 33,5 mil casos de dengue foram confirmados no Paraná, somente 402 pessoas tinham contraído a doença em janeiro. Na ocasião, a semana com mais confirmações de casos do ano foi a 14.ª (abril), com 3.255 casos.
O coordenador da sala de situação da dengue no Paraná, Ronaldo Trevisan, explica que essa situação atípica se deve ao comportamento das chuvas e às altas temperaturas registradas de novembro para cá, condições favoráveis à reprodução do mosquito Aedes aegypti. "Tem feito muito calor nas regiões Oeste, Noroeste e Norte do estado, onde estão os municípios infestados."
Além dos cinco municípios em situação epidêmica, em outros 77 o índice de infestação é igual ou superir a 4% (o que significa que, de cada 100 imóveis inspecionados, o mosquito foi encontrado em, pelo menos, quatro), número suficiente para causar uma epidemia.
Pouca chuva
O coordenador do Laboratório de Climatologia (Laboclima) da Universidade Federal do Paraná, Francisco Mendonça, acrescenta que, na segunda quinzena de janeiro, a quantidade de chuvas foi menor do que a habitual, o que costuma ocorrer em março ou abril, quando terminam os ciclos das chuvas concentradas do verão. "Quando chove de maneira intermitente, cria-se uma condição excelente para o mosquito. Quando chove muito todo dia, a dengue não explode, porque a água transborda dos recipientes, levando mosquitos e ovos." Mendonça alerta que, se o clima continuar quente e com chuvas rarefeitas, a situação pode se agravar. "Poderemos ter uma epidemia assustadora em março e abril, que são os meses em que isso costuma ocorrer."
Armadilha "sequestra" ovos depositados pela fêmea do Aedes aegypti
Preocupado com o aumento no número de casos, por volta de 2006, o professor de Entomologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) José Lopes desenvolveu uma armadilha que "sequestra" os ovos postos pela fêmea do mosquito da dengue.
Batizado de "ovitrampa", o invento é simples: um vaso de plástico escuro, com água e gotas de uma substância atrativa ao mosquito, além de uma palheta de madeira. "O mosquito mostra certa preferência para colocação dos ovos em recipientes escuros e não na água, mas na superfície acima, geralmente em lugares ásperos. Dessa forma, ele coloca os ovos na palheta e, quando eu a retiro, ou 'sequestro', estou controlando. Mato o bicho na fase de ovo", descreve.
Testes bem-sucedidos
Atualmente, cerca de 450 armadilhas do professor estão espalhadas por 12 empresas de Londrina, uma de Arapongas e uma de Bela Vista do Paraíso, no Norte do estado. Nas residências, alerta ele, o uso demandaria um trabalho com as associações de bairro para que a armadilha não se torne um criadouro.
"Precisaria que alguém ficasse responsável, mas é um método eficaz e quase sem gasto. Nas empresas, chegamos a coletar 8 mil ovos no primeiro mês e o número foi caindo até chegar a 700, 800. Mas zerar é impossível, porque as armadilhas são pontuais. O entorno sempre está exportando mosquitos para esses locais."
Segundo Lopes, o poder público já foi procurado por diversas vezes, mas nunca manifestou interesse em adotar o invento.



