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Espeleologia

Caverna requer visita controlada

Especialistas estudam criação de associação de cavernas turísticas, mas acesso a esses lugares precisa seguir a legislação

Cavernas como a de Pinheiro Seco, na zona rural de Castro, estão vulneráveis à depredação de quem não sabe de sua importância | Henry Milléo/ Gazeta do Povo
Cavernas como a de Pinheiro Seco, na zona rural de Castro, estão vulneráveis à depredação de quem não sabe de sua importância (Foto: Henry Milléo/ Gazeta do Povo)

Cada milímetro de uma estalactite (formação vertical que surge no teto de uma gruta ou caverna) leva pelo menos um século para se formar. Mas a ação humana é capaz de destruí-la em segundos. A beleza e a riqueza histórica e geológica das cavernas brasileiras têm potencial turístico. Pensando nisso, os espeleólogos (especialistas em cavernas) buscam criar uma associação nacional com roteiros turísticos, mas já preveem os cuidados necessários, como a execução de um plano de manejo conforme mandam as leis e decretos nacionais.

O Brasil tem cerca de 10 mil cavernas cadastradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), 293 delas no Paraná. Calcula-se que isso não represente nem 10% das cavernas existentes, pois muitas delas ainda não foram descobertas por estarem em lugares de difícil acesso.

No entanto, aproximadamente 40 cavernas têm ou estão em processo de finalização dos seus planos de manejo, que ditam número de turistas e locais aptos para a visitação. As cavernas que passam por esse processo estão concentradas principalmente na Região Sudeste.

A legislação de preservação das cavidades geológicas é recente no país, surgiu na década de 90 e foi alterada há três anos. O uso indiscriminado, no entanto, é antigo. As marcas são evidentes na caverna Pinheiro Seco, na zona rural de Castro, que está entre as 10 maiores do Paraná, com 650 metros de extensão.

O coordenador-geral do Grupo Universitário de Pesquisas Espeleológicas (Gupe), Henrique Simão Pontes, cita que a caverna já foi modificada para uso religioso e até dinamitada, em busca de tesouros escondidos, por antigos fazendeiros da região. A entrada da caverna ganhou, no passado, um altar de concreto, ao lado de uma formação geológica que lembra uma pia batismal. "Ela era usada pelos monges para batizar as crianças", acrescenta.

Restos de uma coluna de tijolos mostram que o local era usado também como estábulo para abrigar animais. Marcas de dinamite evidenciam a busca por ouro.

Pichações

Outro detalhe são as estalactites quebradas. "Possivelmente foram visitantes que quebraram para levar de lembrança", co­­menta. As pichações também são frequentes. "Se as pessoas pi­­cham até orelhão, imaginem o que fazem com as cavernas, por falta de conhecimento de sua importância", acrescenta Jocy Brandão Cruz, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav), órgão ligado ao Instituto Chico Mendes.

No entanto, o turismo predatório não é a única preocupação dos espeleólogos. O Decreto 6.640, de 2008, criou quatro subcategorias das cavidades, que vão da máxima, que exige proteção total, à baixa, que pode receber projetos de uso sustentável. A utilização, porém, exige licenciamento ambiental. "Esbarramos com interesses econômicos de mineradoras e centrais hidrelétricas que constroem suas barragens no entorno das cavernas", explica Cruz.

Outro problema, segundo o geólogo e professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa Mario Sérgio de Melo, é a exploração incorreta das águas subterrâneas, o que pode comprometer as cavernas. "O uso turístico é uma grande preocupação porque compromete a formação, mas a exploração dos aquíferos pode comprometer as cidades com o risco de acidentes ambientais, como os desabamentos", argumenta. Para o professor, é importante que o poder público tenha um olhar mais cauteloso para evitar esse tipo de dano.

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